quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Amores imprevisíveis



Imagem sem menção de autor.
 
 

O amor prega peças nas pessoas. Quando menos se espera, aquele sujeito que nos parecia tão antipático ou desinteressante revela uma face desconhecida e sem perceber começamos a pensar nele nas horas mais despropositadas, repetimos seu nome sem motivo aparente – motivos se inventam, é fácil – e um dia nos surpreendemos com o coração acelerado e um certo suor a esfriar as mãos em sua presença.

Sabemos exatamente o que estamos fazendo a cada vez que o nome dele vem a nossa mente e a nossa boca. Temos a exata consciência do que está acontecendo, mas fingimos para os outros e para nós mesmos que é casual – que coisa, não sei por que sonhei com fulano essa noite, imagina. Fulano gosta de abobrinha com berinjela, engraçado, não conheço homem nenhum que goste. E a gente até se arvora a fazer uma piadinha de vez em quando, camufla de crítica ou sarcasmo o que é amor novo.

É bom falar o nome de quem se ama, aquece o coração e dá uma agradável coceirinha em outras regiões da anatomia. Fulano tem a boca meio tortinha, não tem não? Ah, tem sim, repara só. Mentira. A boca de fulano é perfeitamente simétrica, até muito bem desenhada, mas é mais seguro achar defeitos que garantam o anonimato do sentimento. Supõe-se, segundo a lógica, que quem vive achando defeitos no outro não pode estar absolutamente encantado por ele. O problema é que a lógica é um instrumento muito frágil para tal instância, não aguenta o tranco, e a partir de certo momento o sentimento fala no olhar, por pequenos gestos impensados, vaza no tom da voz. A lógica, entidade sisuda e discreta pela própria natureza, começa a achar aquilo tudo demais e se recolhe resmungando sob a barraca do segundo plano como uma senhora ranzinza diante de um menino malcriado, que teima em não sair do sol, e deixa o sentimento todo iluminado, livre para se espalhar como o mar pela areia.

Chegados a esse ponto, só resta ir em frente. Se fulano notar, se prestar atenção àquela criatura que de uns tempos para cá está sempre visível em todos os lugares e lhe lança olhares tão atentos e se aproxima sem muito motivo para prosear e puxa assunto por qualquer pretexto, é porque também ele, o antipático, o sem-graça, está gostando da brincadeira, e a gente tem a satisfação, entre outras mais intensas, de verificar que estava redondamente enganada quanto ao mau juízo que fazia dele, Deus seja louvado.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Papai Noel não existe




Imagem de Geraldine Georges



Há décadas figuras notáveis da filosofia se negam a reconhecer essa instância a que chamamos metafísica. Além das espantosas consequências de tal negativa sobre a história do pensamento, podemos dizer, a título de ilustração, que isso arranca as pretensões mais petulantes de nossas árvores genealógicas em suas raízes últimas (ou primeiras, dependendo de se você vai de cá pra lá ou vem de lá pra cá). Ficam em pé de igualdade os estratos mais díspares da sociedade humana.
Explicando melhor: se as pessoa são corpos sensíveis e se as diferenças individuais resultam de contingências racional e circunstancialmente explicáveis, nada justifica a (ainda) rigidez das castas e classes sociais baseada em poder financeiro ou privilégios em relação aos menos dotados. A única hierarquia possível se sustentaria então em superioridades extrínsecas e acidentais – diferentes graus de instrução, expertises técnicas e profissionais, que podem conferir alguma autoridade funcional a determinadas pessoas. Essa hierarquia não confere a ninguém direitos humanos diferentes dos consagrados e universais.
Já ouço o alarido dos protestos. São senhoras da mais antiga aristocracia rural, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres e até pessoas simples, legalistas, conservadores, seres medianos sem culpa no cartório, que não podem admitir ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. Sem falar em cintilantes emergentes carregando seus pets perfumados, seguidas de maridos algo embaraçados pela atitude beligerante das consortes.
Mas tenham ou não razão os teóricos da não-transcendência, não adianta espernear: viemos todos do mesmo buraco, da ameba original, da água e da célula primeva. A partir daí tiveram início evoluções e equívocos em desenfreada corrida. Parece que a sentença mítica do Éden foi mais ou menos assim: "Do caos viestes, para o caos retornareis", e desde então homens e mulheres se empenham em construir para destruir, mentir até para si mesmos, abandonar quem depende de sua proteção, amar à beira do ódio – não necessariamente nessa ordem, mas com uma frequência assustadora em todos os tempos e lugares. Às vezes a própria construção já começa sem qualquer prognóstico favorável, como aconteceu com a torre de Babel e os prédios do Sérgio Naya, lembram dele?
Espécime ambíguo e pouco confiável que é o ser humano. Investimos recursos incomensuráveis para fazer a guerra – que é o jeito oficial e socialmente aprovado de dar vazão à fera que vive em nós. Os fora-da-lei apostam a vida – e de um modo ou de outro a perdem – no jogo da violência e da força bruta; outros, como os políticos desprezíveis e os servidores públicos de mau caráter que conhecemos tão bem, usam os cantos menos claros da lei para arquitetar golpes milionários, enquanto falta o mínimo para que tantos possam viver com decência. Quantas maneiras existem de matar?
Parece bem verdadeiro que o coração não se perturba com o que os olhos não veem. As equipes econômicas trabalham com abstrações e eternos métodos de ensaio-e-erro, dando seu jeito de fugir ao óbvio com ar de quem sabe tudo. Seus saberes passam ao largo das necessidades primárias de dar de comer a quem tem fome ou criar condições que facilitem a todas as camadas da sociedade o acesso a uma vida digna. Interesses mais altos se alevantam, e além disso existe esse ser metafórico e mutante a que chamamos mercado – álibi perfeito para legitimar a ganância dos mais fortes.
Enquanto isso – com a cabeça ainda povoada de transcendências esgarçadas – a gente cria programas inócuos de nomes tocantes, campanhas de efeito fugaz e abraça o Pão de Açúcar invocando a paz. Como se a paz fosse um orixá e não um estado de espírito. Ou então desloca a atenção para assuntos supostamente divertidos, como os atores ruins e os quartos da casa do bbb, quem vai posar para a decrépita Playboy ou o último namorado adolescente da atriz de 65.
Mas afinal, quem somos? Será que von Trier foi pessimista demais quando construiu sua Dogville?


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Nada disso impede que a gente deseje um final de ano com alegrias, um 2010 de bons acontecimentos e - por que não? - que cresça o número de nossos amigos e que o amor nos traga paz e longas amostras de felicidade. Porque, mesmo capaz de tanta aleivosia, gente ainda é o que há de melhor no mundo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Viver e suas variantes



Elliot Erwitt. Mother and child.


A dupla dor-delícia de ser quem se é e a serenidade são gêmeas bivitelinas. Conhecemos bem as diferenças entre ambas, e no entanto nos passam certo sentimento de univocidade – como dois conjuntos matemáticos com uma área em comum que de algum modo os define. São duas, mas uma precisa da outra para existir inteira.
A experiência mais completa de existir e a serenidade são semelhantes ao que os químicos chamam de elementos simples, irredutíveis. Convivem em harmonia e criam intervalos de prevalência; equilibram-se na gangorra dos dias, uma ajudando a definir e identificar a outra. Fertilizam a argila de que somos feitos como o adubo e a água fazem com a terra que recebe uma planta.
Só se vive plenamente sendo capaz de mergulhar nessas duas instâncias. Uma é necessária à outra; são como espelhos com sinais trocados, e por isso podem se contemplar e fortalecer mutuamente. Sem serenidade a experiência de estar vivo é menos intensa; os acontecimentos não se desdobram de todo, não mostram todas as faces que resultaram naquele e não em outro acontecimento. Entendem-se os motivos pela metade, criam-se julgamentos apressados, falhos, e fica muito fácil distanciar-se das pessoas por não ser capaz de compreendê-las. Sem serenidade (essa paz de dentro, que independe de sossego externo e até da própria paz social), o ego toma conta da situação – e o ego pode ser considerado uma instância emburrecedora por excelência.
Nem é tão difícil criar esse estado interior a que chamamos de serenidade. Começa com um olhar sinceramente interessado no que vai dentro de si; olhar-se como se fosse “de fora”, imaginando ver outra pessoa e suas alternativas.  Outra vantagem da serenidade é recriar a solidão como quem decora uma casa, ver novidades até no dia-a-dia, reavaliar a rotina, tornar o tédio um sentimento mais distante. Sozinho ou acompanhado, é possível aproveitar melhor o que a vida oferece de bom quando se é capaz de relativizar os maus momentos.
E como é improvável, senão impossível, que alguém consiga atravessar a vida sem sofrimento, ao menos vai encontrar em si um espaço mais confortável para seu próprio uso e para quem estiver próximo, porque a serenidade é resultado de uma espécie de ginástica interior, e dá força e agilidade mental a quem a conquista.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Passando da hora de mudar



Governos de todo o mundo discutem as mudanças climáticas em Copenhague.


O tempo, corpo abstrato que dividimos arbitrariamente em anos, meses, dias, minutos e segundos, é uma espécie de casa do Universo.


O mar, metáfora aceitável do tempo, agita, embrabece, espuma e fura diques – que o diga a Holanda. Gota a gota, caminha de águas acima até os furos mais altos, e um dia pode carregar grandes fatias da Terra num bojo azul. A água, que forma a maior parte do planeta em que vivemos, é tão essencial à vida quanto o tempo e toda a natureza que nos cerca.
Informam os entendidos que, se o calor dos humanos delírios de ambição continuar degelando calotas polares e geleiras, muitos litorais podem vir a ser engolidos, o que inclui nossas amadas cidades do Rio de Janeiro, Angra, Paraty, Arraial e Búzios, sem falar nas praias do Nordeste – Recife, Natal, Fortaleza, o Farol da Barra, Itapoã! –, e o Sul (Floripa não, por favor!). Lá se vão os surfistas, a ilha do Mel, a serra do Mar com Morretes e Antonina, essas cidades de sonho, e muito mais. Sem falar no resto do mundo: Nápoles, Veneza e as ilhas gregas, o Caribe, o Havaí... E não só as praias, já que o litoral é muito mais do que apenas esses paraísos do sol. 


O tempo é uma entidade abstrata, mas a humanidade, composta de entidades concretas e operantes, prepara uma armadilha para o futuro.


Na outra ponta da insensatez, ainda jogamos água fora – a água de beber para humanos, animais e vegetais; a água essencial, que lava nossas mazelas e conserva a vida na Terra. Já fomos avisados sobre a escassez que aumenta, mas isso teve um efeito desproporcionalmente pequeno sobre o desperdício. Incorrigíveis, continuamos achando que a água e a natureza não têm fim; poluímos, corrompemos e desmatamos, aquecendo o lugar onde terão que viver nossos descendentes, secando nascentes e deixando de legar um mundo melhor para os que vêm por aí.


Assim o tempo passa e já não sabemos se não será muito tarde para salvar a vida, que vai se afogar ou morrer de sede. O tempo de cada coisa sempre chega, pelo mar ou pela terra estéril, e nos afeta sempre. O que fazemos a cada momento, dia ou ano de nossa vida tem sempre consequências, boas ou más. Temos a sensação que o tempo foi domesticado porque o prendemos no calendário e nos relógios, e que por isso ainda vamos conseguir consertar as leviandades de agora.


Seria tão bom que os donos do mundo caíssem na realidade e percebessem que nosso domínio sobre o tempo é ilusório. Verdadeiro é o descaso de quem põe os interesses do lucro acima dos valores da vida.


E seria igualmente importante que cada pessoa, pelo pequeno poder que a própria existência lhe confere, percebesse a força de seus gestos, aparentemente insignificantes, reunidos aos milhões e bilhões de outros gestos mínimos dos semelhantes de todo o mundo: transportes sem poluentes, mais respeito pelas florestas e matas, mais uso da energia solar ou eólea. Que cada um educasse seus filhos com a visão de um mundo em que, longe do individualismo comodista, do consumismo e da indiferença, prevalecessem a solidariedade e a preocupação de poupar, conservar e reciclar o que fosse possível, buscar formas limpas de energia e rever os conceitos de nutrição e vida saudável. 




    
‘Copenhague é aqui’









Quando faltava bem pouco para o início dos debates, o Greenpeace divulgou imagens da destruição da Amazônia. Vinte fotos obtidas durante dez anos podem ser vistas gratuitamente em um centro cultural independente de São Paulo, durante o evento “Copenhague é aqui”, que aproveita o momento para discutir temas ambientais. O programa inclui filmes, seminários e instalações de arte. A mostra  vai até 20 de dezembro, e seu lema é “para ir além do debate político, para alcançar o coração das pessoas”.

Fotos Daniel Beltra, do Greenpeace.


Maiores detalhes no site Matilha Cultural.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A liberdade doente

Os convites para sites de relacionamento e chat, que chegam todo dia no e-mail da gente, em geral vêm em nome de alguém de nossa lista que pode não ser o autor da mensagem. Não são somente os vírus e spams declarados que chegam assim. Vêm em tom invasivo e falsamente descontraído, mas não passam de marketing descarado, já tão incorporado a nosso dia-a-dia que às vezes nem nos damos conta. Por que estranhos a léguas de distância estariam preocupados em nos trazer de volta amigos extraviados ou antigos colegas de escola e de trabalho? Quase sempre o mesmo pretexto para oferecer produtos supérfluos, serviços que ninguém pediu e outras mercadorias perfunctórias, esse tipo de mídia eletrônica onde piscam mil e um patrocínios de construtoras, lojas, hotéis, carros, utilidades, inutilidades, garotos(as) ou amigos de programa, que em certos casos pagam para se ofertar via internet.

Cada vez mais forças externas tentam dirigir os atos que deveriam ser de iniciativa exclusiva de cada um. Isso lembra muito 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Outro dia, revendo Zorba, o Grego (que filme!), e vendo os camponeses de Creta esperando a morte de Hortense para saquear sua casa, pensava na analogia entre aquela cena e a constante intrusão de empresas e pessoas que insistem em nos convencer de que o melhor para nós é o que eles querem – e eles sempre querem nos passar alguma coisa em troca de nosso dinheiro e/ou nossa submissão para fomentar seu poder.

Por conta dessa luta de interesses, que se disfarça de luta de ideias, este mundo às vezes parece um grande manicômio. O inconsciente coletivo virou um amontoado de noções sem fundamento e preconceitos distorcidos explorados por aventureiros. Diante destes, os sofistas da antiga Grécia eram seres sem malícia. Nos anos 1960 passamos por um período em que as ideologias se digladiavam e geravam debates e contendas sem fim. Agora porém as ideias e visões de mundo chegam aos pedaços, mal assimiladas e achacadas pelo mercado, pelos políticos e por aquele tipo de gente que corre atrás da fama a qualquer preço.

O lado virtuoso da comunicação em tempo real, que chega da televisão e da internet, traz em seu bojo dois vícios capazes de anular grande parte das vantagens de tanta rapidez: a informação chega muitas vezes mal elaborada e quem a recebe na outra ponta quase sempre deturpa seu sentido, por estar mal preparado ou desinformado de dados anteriores, sem os quais a notícia perde seu sentido principal. Diante disso, a mentalidade do público em geral flutua entre juízos precipitados e dúvidas sem resposta; e grande parte das pessoas desiste de entender e se acomoda na alienação, ou então assume uma atitude irracional diante dos acontecimentos.

Talvez tenha chegado a hora de reunir de novo na praça os pensadores, os artistas e o povo, como faziam os antigos gregos na ágora. Quem sabe ainda se consegue plantar em nossas cabeças a semente de uma reflexão sem compromisso com os interesses do dinheiro, do poder e da violência? A liberdade humana é um conceito pouco claro, porque, em qualquer caso, é sempre muito limitada. Mas sem essa reflexão, a liberdade de cada um de nós se reduz a miragem, palavra vazia do vocabulário politicamente correto, e só.

Foto Bey Harrison.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Uma pequena história do Não







Enrique Vila-Matas. Bartleby e companhia. Trad. Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

Partindo de “Bartleby, o escrivão”, conto de Herman Melville, autor de Moby Dick, Vila-Matas fala de nomes menos ou mais famosos de todo o mundo, que sucumbiram ao que ele chama síndrome de Bartleby. Não o faz porém em um texto corrido, mas sob a forma de notas, que hipoteticamente pertenceriam a trabalhos sobre esses autores. Em todas essas notas, o espanhol Vila-Matas discorre sobre as razões que teriam levado tais autores a desistir ou renegar a literatura ou algum tipo de arte, depois de haver produzido uma obra promissora.

O próprio autor das notas, um personagem fictício, seria ele mesmo um adepto da literatura do Não. Seu texto, fragmentário e fissurado, compõe uma imagem física da hesitação e do desalento que levaram esses autores à desistência e à pura contemplação. Assim como acontece com Bartleby, eles parecem repetir “preferiria não o fazer”, quando por exemplo Kafka, em um domingo chuvoso de julho, “sente-se invadido por uma total paralisisa de escrita e passa o dia olhando fixamente para seus dedos, presa da síndrome de Bartleby”.  Ou quando, com a Segunda Guerra Mundial, “a linguagem ficou também mutilada, e Paul Celan pôde apenas remexer uma ferida iletrada, em tempos de silêncio e destruição”.

O “espanhol velho e corcunda” inventado por Vila-Matas para escrever esse livro sui-generis – e delicioso – tem uma longa nota sobre Jerome David Salinger, que deixou de escrever depois de publicar quatro livros “tão deslumbrantes quanto famosíssimos”. Comenta ainda o artigo de Borges a respeito de seu conterrâneo, o poeta Enrique Banchs, também autor de quatro livros – inclusive o famoso La Urna – publicados no início do século XX, após os quais silenciou durante 57 anos, até sua morte em 1968.

Até um dos heterônimos de Pessoa, o suicida barão de Teive, autor de um breve e único livro, A educação do estóico, “fala dos livros que teria escrito, não fosse o fato de ter preferido não escrevê-los”.  O barão se matou, e para isso parece ter contribuído “a descoberta de que até Leopardi (...) estava impossibilidado para a arte superior.” E pior, Leopardi fora capaz de escrever uma bobagem como “sou tímido com as mulheres; logo, Deus não existe”.  Para o barão, isso provava que, em matéria de arte, “não havia nada a fazer, apenas reconhecer uma possível aristocracia da alma”. Ou talvez tenha pensado: “somos tímidos com as mulheres. Deus existe, mas Cristo não tinha biblioteca, nunca chegamos a nada, mas ao menos alguém inventou a dignidade”.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

'A Terra é um planeta que deu bicho'







Imagem do Universo em torta
Sem menção de autor



Não vemos o que pensamos estar vendo, e esse tem sido o motivo de tantos equívocos e desentendimentos entre os humanos. A realidade objetiva não é o que nossos olhos percebem. Nossos sentidos falham sempre e, por mais afiados que estejam, servem na verdade a nossa adaptação ao meio, mas não ao conhecimento objetivo do real, um eterno enigma para o bicho homem.

Se todo mundo pensasse a sério nessa verdade comprovada cientificamente, a humildade e a simplicidade teriam a chance de ser apreciadas de modo mais positivo pelas pessoas. Não falo em termos de virtudes místicas veneráveis, capazes de formatar santos para altares futuros. Nem de qualidades convenientes aos súditos de um governo, como frequentemente as propagandas oficiais postulam. Não proponho humildade como subserviência ou submissão, nem simplicidade como simplismo ou ingenuidade.

De certa forma, penso o contrário. Humildade aqui tem o sentido de consciência dos próprios limites. Quem busca a ajuda de alguém para resolver problemas que o impedem de caminhar, reconheceu a própria incapacidade de seguir sozinho. Isso é um sinal de humildade e simplicidade. Também age assim quem convive com a solidariedade, a compaixão, quem é capaz de empatia e dispensa a arrogância e o artificialismo. Nesse sentido, humildade é saber que se é tão bom como qualquer outra pessoa, ainda que se conheça profundamente algum assunto, tenha conquistado uma posição de destaque na carreira ou ganhado prêmios por alguma realização.

Sucesso pessoal, prêmios e reconhecimento não têm nada a ver com isso. Admiração e aplauso são incentivos necessários e fazem bem ao coração, contanto que os aplausos não venham de claques pagas para aplaudir quem não fez nada que o mereça. Nesse caso, tudo não passa de uma mentira pregada a si mesmo – um tipo de mentira que costuma deixar um gosto muito ruim na boca de quem a pratica e o ego esfolado.

Ou a gente se vê como realmente é, e fica contente ou triste com isso, sem megalomania, ou nunca vai entender o que é ser simples, direto, ver o mundo com olhos de criança. Acima de tudo, fica difícil amar ninguém além de si mesmo. Há quem goste – e não são poucos. Mas quem mesmo somos nós, no meio desse universo em que giramos e que gira a nossa volta?


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um estranho para amar



O tema é delicado. Envolve um tipo de relação humana muito rica e difícil, em que um ou dois adultos resolvem assumir como filho alguém cujos pais não quiseram ou não puderam criar. Mas é também importante e necessário, já que pode ser a oportunidade de resgatar o que se considera o fator maior para o equilíbrio psíquico e afetivo de uma criança: conviver e sentir a segurança de uma família estável.

Não vou falar do ato legal e burocrático, quase sempre cego e surdo ao coração; é um ato necessário, mas dependente do tipo de racionalidade de quem interpreta os fatos e lida com o texto da lei. Também não se deve esquecer que há manipulações nesse ato, e que o próprio pretendente à paternidade/maternidade pode esconder interesses bem distantes – e até contrários – daqueles do menor que está reivindicando.

Mas a adoção consciente, feita por pessoas que querem dar um destino digno a seus próprios sentimentos e transformar alguém em um filho, é um dos atos humanos mais próximos da idéia de Deus que temos em nós. Nada e ninguém obrigam a isso, e no entanto há quem assuma esse compromisso para toda a vida, diferente de todos os outros; um compromisso mais pesado e mais doce que um casamento, de resultado incerto. Mesmo assim, quem não desanimou e persistiu até conseguir realizar o que desejava, e enfrenta tantas dificuldades até abrir o espaço necessário para que o pequeno estranho seja transformado em filho pelo amor e pelo desejo, só pode ser gente boa, dessa que salva e redime o resto da humanidade.

Ninguém é obrigado a isso, no entanto. Há quem prefira gerar embriões que serão congelados e na melhor das hipóteses prover a medicina de células-tronco. Um destino útil, sem dúvida, mas não a vida do jeito que a conhecemos e experimentamos, do jeito que a desejamos para alguém que se ama como filho. Há outras fontes de células-tronco, que agora a ciência já consegue até duplicar artificialmente.

Acredito que todos temos em nós essa potencialidade de ser pai ou mãe. Se por algum motivo ela não se concretiza num filho biológico, e diante de tantas crianças órfãs, abandonadas e maltratadas pelos pais e/ou pelos estranhos que lidam com elas, é quase instintivo que se procure aproveitar esse espaço para tirar um ou mais desses menores do estado de abandono, dar a eles um futuro digno e uma chance de felicidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De dentro para fora


Monet. Lilases.


Sabe quando você está quase dormindo, naquele estado beatífico de entregar o corpo à cama depois de um dia de trabalho, e de repente começam a vir à tona fragmentos de coisas, pessoas, palavras, lembranças do dia que passou, da véspera, de um acontecimento qualquer que arrastou consigo um monte de referências como uma onda carrega conchas, areia, bolinhas de frescobol, siris sobreviventes ou brinquedos? São imagens, poeira do dia ou dos dias mais recentes ou mais marcantes, tudo misturado, porque a memória reconhece mas não respeita a ordem cronológica nem qualquer outra. São ciscos que os ventos do dia deixaram em nossas janelas interiores e o sono, com sua forma peculiar de atenção, registra e recolhe.

E como é assimétrica a percepção do sono! Não conhece limites nem conveniências; nada censura. Não tem lógica, mistura tudo sem cerimônia e dá nomes trocados às coisas. Nesse estado de quase-sonho, assim como no sonho mesmo, o mundo é diferente. Os sentimentos, as emoções, as sensações vêm num estado mais puro porque estão concentradas. De olhos fechados, sem ouvir outros sons nem ver outras imagens senão os que vêm de dentro de nós mesmos, vivenciamos esse mundo interior de um modo privilegiado, que a atenção dispersa da vigília não permite. Descemos ao paraíso ou ao inferno sem interferências do exterior.

O mundo da semivigília e do sonho, regido pelo desejo ou pelo medo, é pura delícia ou puro terror. Prazeres e angústias passeiam soltos pelos corredores de nosso labirinto e se expressam de um jeito insólito, às vezes muito estranho, que é preciso decifrar depois, à luz do sol, com a ajuda da razão. E às vezes são extremamente produtivos; dão dicas decisivas para a solução de problemas que nos pareciam confusos demais. Apesar de não agirem de acordo com a razão, usam nossa teoria, nossa prática, os conhecimentos que armazenamos pela vida afora, e sabem fazer uso dessas aptidões de um jeito que nos surpreende. Assim um cientista encontra a resposta para uma fórmula que não funcionava, artistas têm intuições fundamentais, negociantes são dotados de insights salvadores. Poetas recebem poemas praticamente prontos, como médiuns recebendo entidades, com linguagem própria. O pintor percebe a tonalidade que estava faltando para dar o toque final em sua obra.

Apesar de crenças e doutrinas, tenho a impressão de que é esse mundo interior que os místicos buscam em suas meditações e jejuns, os intelectuais tentam acionar em suas pesquisas e elaborações, os atores põem em movimento quando fazem laboratório para desempenhar seu personagem e os técnicos de esporte querem atingir durante a concentração de seus atletas. É a irrupção dessa matéria interior e o modo como aprendemos a lidar com ela que nos permitem criar, agir e atuar com maestria e eficiência em nosso ambiente de trabalho, de família, nos relacionamentos.

Quando começar um outro ano – outra fatia do tempo que se convencionou racionalizar desse jeito para vagamente poder fazer uma idéia do que significa o tempo maior, onde se move o universo que nosso conhecimento não consegue abranger – talvez seja o momento de maior motivação para pensar nessas coisas. Mas pode se pensar nelas a qualquer momento. Calendários e relógios são artifícios criados para nos orientar à nossa própria medida, marcadores de um tempo possível durante seus 365 dias de 24 horas, dividido em semanas de sete dias e 12 meses de cerca de 30 dias cada um.

Terminar um ano é como deitar pra dormir: relaxamos e começamos a sonhar, a lembrar de tanta coisa e de tanta gente. Já não temos a obrigação de tomar as rédeas desse tempo que se foi e nos libertou de sua carga. Por pior que tenha sido, o ano que termina liberta nossos sonhos para prever, acreditar, esperar – desejar sem censura. E mesmo que o ano tenha sido esmagador, tenha trazido muita dor, traumas, angústias em dose insuportável – e decepções, com toda certeza, para quase todo mundo que leu jornais e viu o espetáculo deprimente oferecido por nossos políticos e homens públicos –, mesmo assim ainda temos licença de sonhar. Podemos usar essa licença de um modo trivial, fingindo que a lentilha vai nos trazer fortuna, o vermelho uma paixão inesquecível, as uvas, os pulinhos por cima das sete ondas e as flores para Iemanjá serão eficazes e benéficos.

Dá para entender por que o ano novo é uma espécie de carnaval para tanta gente. Tem tudo a ver: ambos são, como o sono, tempos de suspender a dura realidade e acreditar que o sonho tem poder sobre ela. Ambos soltam a imaginação e a fantasia – que são os sonhos da vigília – e permitem retocar e atenuar as lembranças ruins e dolorosas, os desamores e os medos, e sair dando vivas à vida, trocando beijos e abraços. Grande invenção essa de fatiar o tempo e domesticá-lo.

Cada um sabe exatamente o que mais o incomoda, o que está precisando de mudança, o que o impede de ser ele mesmo de um modo mais pleno. É uma boa hora para refletir um pouco, e acima de tudo tratar de entender melhor a si mesmo e aos outros, ir um pouco além da mera simpatia e ver o outro com olhos de empatia, sem medo de amar, mesmo sabendo que amar é para os fortes.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Em casa?

Será que todo mundo se sente “em casa” na própria casa?

Penso nas casas onde falta quase tudo, nessas casas de tábuas ou de taipa, no interior mais abandonado, onde se come e se dorme mal, sem qualquer conforto, onde a seca ou a enchente são motivos de pânico, porque os moradores sabem que podem perder o pouco que conseguiram. Onde o trabalho pesado e sem retorno, o frio ou o calor devastam os corpos. De onde às vezes é preciso migrar em busca de um clima onde se possa viver. Ou então nas casas de tijolos expostos das favelas de nossas cidades, sem esgoto, sem espaço, onde as ruas são muitas vezes escadarias de degraus desiguais e os ratos passeiam livremente. Onde se vive com medo do vizinho ou da polícia, que significam risco de perder alguém ou de perder a própria vida. Pontes e viadutos também podem servir de casas para famílias inteiras, que na certa não entendem “sentir-se em casa” do mesmo jeito que aqueles que moram entre paredes sólidas e contam com fechaduras de segurança e janelas herméticas para afastar o barulho e a sujeira das ruas.

Sei que “sentir-se em casa” evoca um número quase inesgotável de imagens bonitas, doces, românticas e cálidas. É estar no quarto, em repouso, diante do programa predileto da tevê ou vendo um bom filme, lendo um livro escolhido; é estar na casa do amigo querido, bem recebido, embalado por uma conversa alegre, descontraída, tomando um bom vinho; é estar nos braços de quem se ama, o coração livre, solto para expressar e receber amor. É reunir a família em torno da mesa, trocar as impressões do dia, dar boas notícias, ouvir a piada mais divertida da semana, curtir os filhos, os netos, estar satisfeito com o que realizou na vida. Esse é um tipo de alegria muito lícita, uma felicidade que todo ser humano mereceria viver. E no entanto, não é dada a muitos, talvez apenas a uma minoria. Em parte porque os bens materiais não garantem que alguém se sinta “em casa”, às vezes é o contrário: muito dinheiro pode ser motivo de ansiedade, medo e desconfiança, discórdia na família e traições entre os associados. E em parte, porque mesmo possuindo todo o necessário, há pessoas que simplesmente não conseguem relaxar, e nunca conseguem se sentir em casa. Nem mesmo... em casa.

No entanto, nem todos os desfavorecidos da fortuna são infelizes. Há pessoas extremamente pobres, que dão um duro desmedido e vivem como se diz “da mão para a boca”, mas têm alegria, conseguem agregar uma família, têm um círculo estável de amigos. Não parecem sentir-se aterrorizados pelo futuro incerto. São estimados no trabalho, riem com facilidade, interessam-se pelos outros, têm bom humor. Estão longe da segurança econômica ou do conforto físico. Mas constroem seu ambiente de modo acolhedor, inventam jeitos de driblar a carência, gostam do pouco que possuem e tiram o melhor proveito possível de todas as oportunidades. Eu diria que eles se sentem “em casa” no mundo.

Acho que é nisso que os seres humanos mais se aproximam, não importa se ricos, pobres ou remediados: sentir-se em casa no mundo. É isso que pode conferir algum carisma, que torna uma pessoa capaz de despertar sentimentos de amor, amizade ou simpatia. A boa notícia é que isso também se aprende. Para começar, aprender a relaxar fisicamente, para que o bem-estar possa vir à flor da pele. Feito isso, olhar as pessoas com vontade de compreendê-las, conversar, querer o melhor para si e para os outros.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Minotauro

Picasso. Minotauro acariciando mulher adormecida.



Coca-cola no almoço, mate na hora do lanche e cafezinho de vez em quando pela tarde a dentro – e eis-me aqui, indormida e taquicárdica, desiludida de contar carneirinhos, porque eles dormem antes de mim. O que mais passa por minha cabeça são os restos do dia, uma espuma que lambe todos os pensamentos e seus espaços vazios. Dos dias, hoje e outros dias que já nem sei quais. Imaginações espiando as lembranças, misturando-se a elas como espiões, X-9 da memória, e de repente vem à cena a gaiola das obsessões, grades de cobre, fria e bem polida, que guardo bem escondida no quarto da área de serviço.


No meio da noite insone, a gaiola automaticamente se converte em ante-sala de todos os medos e sustos. Minhas paredes brancas, neutras na treva, se cobrem de nomes, palavras de ordem. Não esquecer, lembrar sempre, não deixar. Acima de tudo não deixar. Manter acesas todas as luzes da memória, vigiar e nunca orar. Orar pode ser fatal, pode tirar a atenção do que realmente importa. Orar não é eficaz, e eficácia é a maior das hodiernas palavras de ordem. Persistir, levar a sério, não relaxar. Vestir a camisa – uma expressão que me dá sempre a sensação de estar sentindo um cheiro de sovaco na dita. Estar desperto e nunca esquecer de nada. A meu lado na mesinha a lista das compras: na certa não anotei o papel-toalha nem o fio de náilon. Passo metade da noite perseguindo meus pequenos nadas.


Pelo jeito, nunca mais vou dormir. Estarei exaurida de manhã, incapacitada para levar a sério o que quer que seja, em especial o exercício e o alongamento, sem os quais, como ninguém ignora, a gente envelhece do dia para a noite, e o que será de mim na outra noite, insone e centenária?


O sono não cabe numa vida em que a atividade é condição primeira. O sono é a morte provisória do espírito, esse princípio duvidoso e incendiário que me habita como um miceno em Creta. Minos a dominar meus mares. A noite é meu labirinto, a insônia o Minotauro que procuro manter distante por um ardil, uma estratégia que me mantém alerta. Meus argumentos não são suficientes para aplacá-lo. Ofereço a ele minhas donzelas e meus mancebos, não vá o monstro extravasar sua ira a outros domínios do dia.


Amanhã vai ser outro dia e não há como prever as conseqüências disso. Se conseguir me manter do lado de fora da gaiola dos medos, talvez ainda haja salvação. Dentro é uma palavra plantada na rocha. É radical e inamovível. Dentro é imutável. Prefiro o lado de cá, um terreno pantanoso onde chapinho a maior parte do tempo. Fico mesmo acordada, paciência. Se não há outro jeito, vigio o Minotauro e lhe sirvo sua ração de virgens. Chego mesmo a conversar com ele, é bom de papo. Falamos do inefável. Quando ele some, esbarro nas paredes de chapisco do labirinto, que me ralam os dedos, os joelhos, às vezes o nariz. Aí fico bem quieta e ligo a televisão. Às vezes pintam filmes legais na madrugada.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Meus doces arcanjos

De um certo ponto de vista, o mundo pode ser dividido em pessoas que gostam de doce e as que não gostam. Fecho com as primeiras e não abro. Ainda sinto o gostinho dos bombons de chocolate e dos brigadeirões, meus fiéis companheiros pelos anos afora, com overdoses na Páscoa e no aniversário. Outra lembrança indelével – ao menos enquanto meu cérebro se mantiver saudável – é o doce de batata-roxa que minha mãe fazia, o mais puro sabor do autêntico marrom glacê. Valiam também as “cocadas” de abóbora e de batata-doce da carrocinha da Suelene na esquina lá de casa, sem falar nas de coco mesmo, brancas e pretas, que me deram prazeres inefáveis. Os suspiros. E os bons-bocados de vovó? Os quindins, os docinhos de nozes, damasco, as ameixas recheadas e as queijadinhas? As tortas de baba-de-moça com coco, meu Deus, geladas e desmanchando na boca. O rocambole de pão-de-ló com recheios maravilhosos da cozinheira de tia Anita. As musses, os pudins de leite condensado da sobremesa, as compotas feitas em casa. Nem precisa mais: o bolo singelo, ainda morno, da hora do lanche, com ou sem uma caldazinha de chocolate cheirando por cima. O pudim de aipim de minha sogra, cremoso, leve mas consistente, que nunca enjoava porque era adoçado no ponto certo. As brevidades de mamãe, para comer com o café da manhã? Só de pensar engordo e triglicerizo até a alma.

Fui (e sou, só que não como mais, sniff) tão louca por doce, que na mais tenra infância, quando aprendi os nomes dos arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, associei a cada um deles uma substância daquelas de que a gente se lambuza, se não souber comer com bons modos. Pra mim, Miguel está associado a mel. Talvez porque rima, sei lá. Gabriel está ligado em minha cabeça à calda do doce de cajá-manga que minha avó paterna fazia como ninguém – que Deus a recompense com sua santa glória. Já o nome de Rafael imediatamente me faz lembrar do melado que sempre figurava no armário da copa entre as sobremesas, e que meu primo, lá pelos dez anos, consumia com uma nuvem de farinha de mesa por cima.

Por que será? As associações não têm mesmo muita lógica, são como as razões do coração. Só pra ficar no campo das doçuras, por exemplo, a vidraça da sala de jantar da casa da infância virou sinônimo subjetivo de açúcar cândi. Buscar as razões disso não tem muita graça, e mesmo precisava fazer análise ou hipnose regressiva pra descobrir.

Gosto dessas associações porque elas me trazem os sabores que agora não posso mais degustar sem culpa e prejuízo do corpo. Nesse caso, a memória vira arca do tesouro, porque é por ela que de novo posso experimentar tantas delícias com seus respectivos aromas, cores e consistências que integram esse prazer tão exemplarmente castigado que é a gula.

Esse pecado, que o próprio corpo se encarrega de punir e interditar, bem podia servir de exemplo e parâmetro à justiça dos homens para corrigir e castigar outras gulas, essas sim, socialmente muito mais escandalosas que uma boa torta de chocolate, mesmo comida inteira.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Abraçando o mundo com as pernas e os braços





Surtei.
Vou encher a casa de flores e botar Mahler pra tocar.
Vou fazer de conta que o Rio de Janeiro é um pedaço do paraíso.
Vou dar uma festa e deixar as portas abertas, abrir uma conta no WorldWine, arrematar todos os Cézannes, Klees, Picassos, Manets e Monets, fazer um lance pela Mona Lisa e pela Vênus de Milo, trazer o David do Louvre e assaltar o Museu Van Gogh, o Albertina e o Uffizzi.
Vou mudar pra Florença e comprar Veneza.
Quero o mundo.
Quero Arraial d’Ajuda e a praia do Aventureiro.
Vou sentar no barzinho do Tonho em Fernandinho de Búzios e conversar duas semanas com quem eu quero até cair dormindo e acordar pra um mergulho.
Vou encomendar dez luas cheias sem interrupção, ouvir Debussy três dias seguidos, pôr os vestidos de Narizinho e chamar o gato de Alice pra brincar de esconde-esconde no Prado.
Do outro lado do espelho chego a Paris, boto Chet Baker tocando numa mansarda daquele hotelzinho decadente e vou jantar no Chartier.
Nessas alturas estou em tiras, mas ainda posso brincar com Monk, o gato neurótico, e chamar David Suchet pra deslindar a morte de Aschenbach e a verdadeira origem de Heathcliff.
Ponho os profetas de Congonhas na entrada de casa, planto um pinheiro no jardim e tomo um porre de champanhe à sombra de um inconsciente em flor.
Estou me lixando pro dia seguinte. Caso eu vá em cana por algum excesso, por favor me visitem de vez em quando, obrigada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Silêncio alternativo


Desenho de Luca Marietti


Quem devia ter ficado surdo no lugar de Beethoven era um escritor. Digamos Borges, por exemplo. Borges não podia ter ficado cego, o que deve ter atrapalhado a atividade dele, na dependência de alguém que pudesse escrever o que ele criava.
Mas a gente não escolhe o sentido que vai ficar mais fraco ou o que vai se perder.

Obviamente, o melhor de tudo é contar com todos os sentidos em plenitude. No meio da zoeira da cidade, no entanto, quando o trânsito agoniza embaixo da janela ou um martelo e uma serra dão conta da obra ao lado, às vezes penso em como seria bom poder desligar a audição, deixar de ouvir e mergulhar num silêncio total.

A gente ouve camadas de sons. Um ronronar distante de motores que nem se sabe onde estão, um barulhinho gostoso de folhas que se roçam com o vento, vozes que espetam o silêncio de repente. Freadas, buzinas, estouros, foguetes inexplicados. Ruídos que vêm do alto, do vizinho que arrastou um móvel ou pisou forte com o salto contra a madeira do assoalho, coisas que caem, louças que se quebram, águas que correm. Até tiros, às vezes, para lembrar onde estamos. E música. A música que pusemos pra tocar, que nos dá prazer; a música que o alto-falante toca lá fora, de um carro qualquer; a que alguém por perto resolveu ouvir bem alto, porque está no banheiro e o som no quarto.

Aí imagino ir deixando de ouvir cada camada dessas, começando pela banda que grita, apagando o som do carro, que parece arranhar todos os sentidos, e o próprio Tom Jobim que nos embalava. E logo somem os ruídos intempestivos, os gritos inexplicados, e restam as folhas farfalhando, o ronrom distante; mas mesmo esses vão se diluindo numa espécie de vazio, que cresce e se espalha. Não ouço mais nada.

Aproveitando essa paz em que nem o silêncio faz seu habitual zunido manso, fecho também os olhos e deixo as ideias chegarem à tona. A princípio um pouco assustadas como baratinhas flagradas pela luz, elas hesitam. Mas pouco a pouco vão emergindo de seu escurinho básico e se mostram. É preciso agir rápido, antes que o feitiço acabe, a mágica se desmanche e cada coisa volte a emitir seus ruídos e façam esquecer.

De repente, uma dúvida traz um susto nas asas: e se for pra valer? Se nunca mais Tom Jobim, nem Chet Baker, nem Brahms? Se não houver mais o ruído do mar, o canto dos pássaros? Não saber se alguém abriu a porta, não ouvir o chamado do telefone, não saber que o portão do estacionamento abriu às duas da manhã? Não mais a voz do amado, dos amigos, das crianças, essas que dão um fresquinho na alma?

Alívio: destamparam-se as orelhas. A camada das folhas subiu de tom: venta muito, a cortina voou lá pra fora e um trovão sacode tudo, aleluia. De vez em quando, esse oásis de silêncio total, que nenhum protetor de ouvidos pode dar, é um remanso, uma delícia de paz... Mas as ideias que vão chegar precisam de todos os sentidos. Elas não brotam do nada. E o mundo só existe para nós por esse aglomerado de estímulos que podemos escolher até certo ponto, além do qual é preciso aceitar, porque pior que tudo é rejeitar o que está a nossa volta e abrir mão do que a vida é capaz de oferecer. E que é tanto.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Conviver é preciso

É inevitável. Às vezes desejável; outras, cansativo, tedioso e até irritante.
Convive-se em casa, nas calçadas, nos transportes coletivos – com sorte, num trem de metrô meio vazio ou num ônibus de horário mais tranquilo; ou então ocupando espaços impossíveis, sentindo os odores alheios, ouvindo conversas estranhas e até aturando o assédio de algum sem-noção. Convive-se no táxi, no avião, no mercado, no shopping, no clube, na boate, na igreja, no trabalho, na escola. É preciso aprender desde cedo porque, caso isso não aconteça, forma-se um ser anti-social ou uma daquelas pessoas que não sabem como lidar com o próximo e acabam se machucando muito pela vida afora.

Gente exige treinamento. Na falta dessa preparação para a convivência, alguma coisa essencial para uma vida satisfatória fica faltando e a consequência pode ser uma solidão difícil de aturar ou um comportamento pendular e muita insegurança. Ver os outros com olhos hostis sem um motivo sólido, apenas como uma forma de autodefesa, é um desastre para o convívio. Uma espécie de desvantagem de início, se olharmos a coisa como um jogo (e a vida tem um lado lúdico que não dá pra ignorar). Tenho visto pais que induzem essa atitude nos filhos ainda crianças, achando que com isso os tornam mais fortes para conviver. Ter uma atitude pejorativa para as diferenças alheias, pretender tirar vantagem em tudo e assumir o lado brucutu, que cada um de nós carrega, como exemplos para os filhos, podem pavimentar um caminho para a encrenca e estragar boa parte da vida deles.

Cada convivência tem seus lados amenos, agradáveis ou ásperos e indigestos. Quando predominam os últimos, é preciso saber onde se pisa para não sofrer as consequências em todo seu peso. Assim como é preciso estar preparado para poder tirar de uma boa convivência tudo que pode nos dar em termos de amizade, amor ou companheirismo. Coisas que só se aprende convivendo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Suco de gente

A noção de arte como “suco de gente” começou a frequentar minha cabeça a partir de um pensamento casual. Tinha tomado um suco de laranja delicioso e comecei a imaginar que aquela devia ser uma laranja diferente das outras, com mais recursos que suas semelhantes. Daí me veio a estranha ideia de uma laranja artista. Achei isso engraçado, mas logo esqueci.
Num texto sobre arte, a ideia volta à tona. Assim como a palavra “suco” sugere o melhor de uma fruta madura e gostosa, “artista” remete ao melhor de alguém. Mas como? – pensarão essas pessoas que exigem sempre expressões politicamente corretas. Então o fato de ser artista torna alguém melhor que os outros mortais? Afinal, nem todo mundo faz arte. E se a arte é o “melhor” de uma pessoa, fica implícito que o resto não tem esse melhor.
Nada disso. Há quem dê o melhor de si num consultório, num esporte, numa empresa, no comércio, na sala de aula, numa construção ou num almoxarifado. Ninguém é obrigado a ser artista para ser melhor em alguma coisa. A diferença está em que a arte é um dom que proporciona aos outros um motivo de prazer estético, ou seja, uma sensação intangível que se aproxima bastante da espiritualidade, porque, além de tudo, vem “de graça”.
Não que o produto da arte seja necessariamente místico, ao contrário: quase sempre a arte se refere e se alimenta da realidade mais concreta, do que se experimenta com os sentidos e nem ao menos corresponde ao que se convencionou chamar “o belo”. Sua afinidade com o que é espiritual vem do prazer que nos dá; porque o espírito participa do que dá prazer, mesmo que seja um prazer puramente físico. Isso parece um paradoxo dos mais empedrados; mas se desconectarmos a ideia de espírito do conceito religioso que ele costuma exprimir, vamos perceber com clareza que, ao nos suscitar um prazer autônomo e apontar para novos modos de entender e perceber o mundo, a arte enriquece nossa experiência de vida, afina a sensibilidade e amplia nosso repertório – ou seja, torna nosso espírito mais amplo e nos leva mais longe.
Mas é um pouco chato falar de arte com essa cerimônia toda. Porque a gente tem que viver e curtir arte no dia-a-dia, experimentar pelos sentidos o que ela tem de bom, em vez de só pensar nela. No quadro, no filme, no show, na música que ouvimos, no texto que lemos, no desenho de animação, no poema que nos toca fundo, a arte está ao alcance da mão. Tanto quanto o copo daquele suco da fruta mais doce, madura e deliciosa que nos faz tanto bem.

Imagem E.Manet. Carnations and clematis.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sorrisos





Há uma propaganda rolando na tevê, se não me engano de uma ONG que fala de uma vida melhor, em que as imagens bem escolhidas e esteticamente atraentes me fizeram parar e prestar atenção aos detalhes, coisa que raramente acontece em comerciais. O filme é bonito, mas no meio da sequência de pessoas de diferentes origens há um homem que bem pode ser um brasileiro comum, mulato, de óculos e camisa xadrez. Um rosto absolutamente comum, sem nada que o diferencie de milhares de homens do tipo, e que aparece apenas um ou dois segundos. O diferencial está no sorriso que exibe – aberto, franco, convincente. Pode até ter sido uma tomada ensaiada, e pode ser que o sorriso tenha sido fabricado para o momento. Mas é um sorriso que fala – fala de alegria, satisfação de estar vivo e até de auto-estima, pode?

Quando Chaplin compôs Smile, uma canção que expressa a força do sorriso (e que ganhou uma versão brasileira belíssima, na voz de Djavan), ele sabia o que estava dizendo. O sorriso tem uma força persuasória insuspeitada pela maioria das pessoas, e é capaz de conseguir mais que um arrazoado de meia hora, dependendo de quem sorri. Se alguém está insatisfeito, triste ou desanimado, deve experimentar um bom sorriso. Mesmo que a princípio seja forçado, auto-imposto, um sorriso joga um pouco de luz na escuridão e contamina um pouco as pessoas com sua mensagem. Por causa disso, é capaz de mudar para melhor o clima que cerca aquele que sorri. Ninguém sente vontade de se aproximar de uma pessoa cujo rosto é um prenúncio de lamentações e queixas. Um bom sorriso, no entanto, espalha simpatia a sua volta, e pode tornar os outros mais receptivos.

Não é preciso fingir uma alegria que não se sente na realidade. Uma alegria falsificada costuma ser um desastre e fazer do falsário um canastrão. Mas um sorriso não significa necessariamente alegria; pode-se sorrir por uma satisfação interior, por simpatia, por ironia ou por ter cumprido alguma coisa que nos parece importante. Pode-se sorrir por mil e uma razões, e quanto mais interiores elas forem, mais o sorriso será autêntico e convincente. Pode-se sorrir até por pensar em alguma coisa que nem existe, um desejo, uma idealização. Sempre que alguém sorri, sua musculatura facial assume uma tensão capaz de atrair o próximo. Primeiro, porque em geral o rosto de quem sorri melhora de aparência e se torna afável, agradável de olhar. E também porque um sorriso é um signo, indício de bem-estar, boa notícia, bom humor ou boa vontade para com o outro.

Então, se o estresse está alto, experimente um relaxamento muscular e sorria. Se a tristeza tenta morder você, sorria. E se alguma coisa vai muito mal e não dá sinais de melhora, experimente sorrir. Nem que seja na frente do espelho. Pode ser o começo de uma virada.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Aos pedaços









Sofrimento que ninguém descreve,
como um peso na alma [...]
é a dor das águas que o moinho moi, é a
dor que não sabe onde é que doi.

Dante Milano




Vivemos num tempo de fragmentação cultural e subjetiva. Um tempo em que a dor, a morte, o amor, a alegria, o sucesso e o fracasso das pessoas que a mídia escolhe para melhor vender seus produtos são tratados como peças de um game de proporções globais. A mesma pessoa, às vezes voluntariamente exposta, outras vitimada ou incensada por alguma espécie de notoriedade que a torna de interesse público, ganha faces diferentes e até contraditórias, segundo o veículo e o repórter ou comentarista.
Os fatos são avaliados, analisados, discutidos, dissecados, julgados e definidos por diversos critérios, em polêmicas que parecem sérias, mas na verdade perdem qualquer credibilidade quando se observa com isenção tudo que se comenta e sentencia a respeito. Falta lógica, falta objetividade e, como se o mundo se tivesse tornado uma torre de Babel, cada qual fala uma língua, sem entender nem se preocupar com a do outro, e todos são donos da verdade.
A intelligentsia-classe-média, representada pela mídia de mais recursos e poder, toma conta dos assuntos e manipula opiniões, às vezes respeitáveis, para dar ao público uma resposta capaz de aplacar inquietações, dúvidas e escrúpulos. Podemos dormir tranquilos. Afinal, quem somos nós, pobres anônimos, pra pensar diferente? Assim se encerra a polêmica e cada qual veste a opinião alheia a seu jeito, como quem veste uma roupa de segunda mão vendida pelos jornais, revistas, canais de televisão, noticiários radiofônicos.
Armado o jogo, vilões, mocinhos, princesas, bandidos, vítimas e algozes ficam nítidos e fáceis de entender. E o drama, a dor alheia, a notícia pungente da primeira manchete ganham um colorido atraente, confortável, divertido até.
O príncipe pouco romântico casou com a amante feiosa, mas como ousaram quebrar o padrão consagrado dos amores principescos, caíram num irremediável ridículo.
A moça que vegetava (será mesmo que vegetava? Alguém pensou e sentiu com seu cérebro, percorreu as terminações nervosas de seu corpo, experimentou as sinapses que ainda funcionavam nela?), a moça que para todos os efeitos vegetava foi eliminada aos olhos do mundo, sem ao menos gozar da paz e da privacidade que se supõem necessárias a quem vai morrer.
O papa Paulo VI entrou no período final de sua vida e foi filmado, fotografado, visto e revisto enquanto a agonia tomava conta dele em plena janela aberta do Palácio do Vaticano, ao vivo e em cores. E quando já nem esse espetáculo angustioso podiam oferecer, filmaram sua oração calada e humilhada de costas para as câmeras. Qual o sentido dessa notícia, dessas imagens?
Talvez essas figuras, configuradas para o consumo, travestidas de informação, sirvam como um bom suporte para a projeção das dores de cada um, dos conflitos subjetivos, anônimos, que não têm solução ou impõem tanto esforço, tanto desgaste e sofrimento.
Talvez assistindo ao tormento e à agonia alheios, deixando-nos envolver num drama, real ou inventado, que não é nosso, o tempo passe mais depressa e nos poupe de nossa própria dor. Talvez, chorando de pena daquela figura virtual, minha perda fique mais suave, o amor rasgado e o silêncio de uma ausência em minha vida se percam no burburinho que me cerca. Ou o trabalho mal-remunerado, o convívio desgastante, as frustrações, aquilo que grita e pesa dentro de cada um silenciem um pouco.
É tão mais duro e tão mais difícil olhar de frente o que se passa em nós! Temos desejos que nunca se realizam. Sentimos hostilidade por pessoas que não podemos agredir ou afastar; é tanta a ansiedade, angústia que não se sabe de onde vem, tristeza, depressão. Sem que se perceba, a vida individual fica ainda mais vazia diante do grandioso espetáculo das imagens misteriosamente importantes, belas, mágicas, que merecem retratos coloridos e sorriem sempre, inatingíveis. Mas não faz mal que nossos problemas fiquem ainda mais agudos, se temos um anestésico tão poderoso. Sofre-se menos, quando se faz parte da imensa multidão para quem a vida vai passando em branco

Foto Man Ray.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Literatura


Foto do lançamento do Blog de Papel.

Literatura é um pequeno abismo portátil onde de vez em quando a gente se joga. Vicia mais que qualquer droga. Às vezes, dependendo do regime de governo, pode ser até proibida. Serve para viver a fundo as coisas em que uma pessoa sensata não mergulharia, ou porque são repulsivas, ou porque não têm importância nenhuma de ordem prática.

É mais fácil dizer o que a literatura não é: não é útil, não dá dindim, não é pragmática, nem lógica nem relaxa ninguém. E ainda por cima às vezes tira o sono. Para o senso comum, literatura é coisa de maluco mesmo.

Mas quem precisa do senso comum? Para quem escreve, ela é fonte de alguma coisa que fica entre a alegria, o consolo, o alívio, a autoafirmação, o bem-estar do espírito, o refrigério do intelecto e a inefabilidade de um lado e, do outro lado, o trabalho árduo e persistente, para o qual se precisa muito tempo, paciência e solidão. Com o tempo, é quase a satisfação de uma necessidade orgânica. Sem falar no prazer que é ver um livro publicado, lido e comentado. Mesmo que o escritor faça aquela cara de modesto (é mentira, nenhum escritor é modesto), ele estará se sentindo orgulhoso de sua obra, compensado por ver aquele filho de papel e tinta multiplicado, circulando nas mãos de amigos e estranhos. Para ele, cada exemplar é O Livro. Ou, como diria Cortázar, todos os livros, o livro.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Para que servem as flores?



O mundo é injusto e mau; pode ser cão para tanta gente que, se você está bem alimentado, aquecido no frio e refrigerado no verão, se dorme numa boa cama e tem uma família para amar e ser amado, nem consegue imaginar. Mas vamos admitir, o mundo é muito bonito. Tudo bem, não muda muita coisa. Essa beleza no entanto é grátis, e de quebra existem as flores: espatódeas, flamboyants, espirradeiras, acácias aos cachos, ipês amarelos, roxos e brancos, algodoeiros-da-praia, as flores da pata-de-vaca, que delicadas, os jasmins-do-cabo brancos e rosas, quaresmeiras carregadas, pessegueiros de flores tão belas, flores de ameixeira, de maçã e de laranjeira, sem falar nas outras árvores frutíferas que também florescem, algumas das quais lindamente. As flores são uma festa para os olhos, e se a gente prestar atenção, uma festa para os outros sentidos também – têm perfumes às vezes deliciosos, pétalas macias de formatos e cores divinas.

A luta pela vida é uma guerra cheia de batalhas perdidas, está certo. Trabalha-se durante a maior parte do dia e ainda sobra pro dia seguinte. Mas pense bem: podem-se aliviar as tensões de quem se quer bem e as próprias apenas com um gesto amigo ou amante, presenteando ou oferecendo ao menos uma flor a alguém e, dependendo do momento, ganhando o coração de quem já nos ganhou. Para isso existem os gerânios, belas-emílias, beijos multicoloridos, malvinas, lantanas ou cambarás de tantos matizes, margaridas brancas e amarelas, papoulas, camélias, violetas, rosas, rosas, rosas de abril e de todos os meses do ano, de todos os tamanhos, tipos e tons; tulipas, fores-de-maio, magnólias, maravilhas, dodôneas, verbenas, flores rasteiras com ou sem nome, flores do campo, palmas e lírios, copos-de-leite, cravos, cravinas e até cravos-de-defunto para os que já se foram; dálias e estrelítzias, amores-perfeitos, crisântemos e flores-de-cera, gérberas e kalanchoes, lisantos e begônias de inúmeras variedades, ciclamens, primaveras e prímulas. Tudo isso é bem capaz de amenizar as agruras da luta e do cansaço. Ao menos tornar um momento do dia, unzinho só, mais agradável e fazer sorrir um pouco.

Até nossa querida alcaparra, tão gostosa em um bom molho, dá uma flor bonita, assim como o cafeeiro e algumas ervas medicinais como as passifloras, belas e calmantes, e o boldo. O capítulo da fitoterapia é tão grande que não caberia numa crônica, mas é bom lembrar os florais de Bach onde reinam as virtudes curativas que elas, as flores, ainda nos oferecem. E a lavanda e a alfazema, entre outras, esses perfumes que fazem a gente se sentir mais limpa e delicada, têm flores bonitas, que crescem em forma de pendão.

E se você vai por seu caminho de sempre, meio murcho e sem muitas expectativas, mas súbito lhe aparece uma cerca coberta por buganvíleas, alamandas ou tumbérgias, epoméias, glicínias, jasmins-estrela, jasmins em cachos, alfinetes, hibiscos, damas-da-noite, madressilvas ou mimosas, brincos-de-princesa, lágrimas-de-cristo, flores de espinheiro, coroas de cristo, rubras como gotas de sangue, ou até essas florinhas plebéias, como a maria-sem-vergonha, os populares bom-dia e boa-noite – vai me dizer que essa beleza toda não mexe com você?

Sim, o mundo tem lá seus graves defeitos, a vida é dura, o amor é difícil de achar. Mas existem as flores, muitas, de mil formas e cores, com utilidades práticas e às vezes somente dedicadas a fazer sorrir e, quem sabe, mudar para melhor a vida de algumas pessoas – e isso já seria suficiente para justificar sua existência e estimular sua presença em nossas casas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Nunca é uma palavra de muitas frestas

As cores, assim como os sons, variam quase ao infinito. Tons e tonalidades são muito mais numerosos do que se imagina. O sol tem matizes e variações, é só prestar atenção para ver: o sol não mostra sempre a mesma face – às vezes está furioso e queima com raiva, mas às vezes acaricia a pele que nem homem enamorado. Os dias podem parecer iguais naquilo que os outros – do trabalho, da família, do governo, da comunidade – exigem da gente; mas nossa paisagem interna muda a cada hora do dia. É bom ficar atento a essas mudanças.
As diferenças que uma pessoa apresenta ao longo da vida, dos anos e até das horas se explicam pelos sentidos, que deixam entrar sempre o que interessa mais no momento. Se digo “nunca”, e na mesma hora meus poros se abrem, é porque na verdade o nunca queria dizer outra coisa e não era tão definitivo como se supõe. Nunca é uma palavra com muitas frestas. Quantas vezes entendemos uma frase de um modo bem diferente do sentido que lhe quiseram dar, ou nosso olhar modifica uma imagem. É fácil enganar-se com as aparências; basta que nosso desejo (que tem raízes inconscientes) prefira se iludir ou interpretar a realidade a seu jeito.
Mais complicado é se comprometer com o sempre. Quem escolhe o sempre como norma de vida, às vezes precisa repensar suas posições, sob pena de virar pedra. Se decidi pertencer a um partido, uma escola filosófica, uma religião, minha opção pode valer – até para toda vida – contanto que eu não perca a capacidade de avaliar minhas posições com revisões periódicas. Se o partido mudar de direção e adotar posições com as quais não posso concordar, está na hora de discutir e, quem sabe, mudar de rumo. Modos de pensar, religiões e ideologias são obras humanas. Mesmo no caso das religiões, que se gabam de sua origem divina, as instituições são coisa de gente e falham; podem se tornar opressivas, formar pessoas preconceituosas e crueis, porque facilmente tendem ao que hoje chamamos de fundamentalismo.
Diferente de virar a casaca por conta de interesses imediatistas de dinheiro ou de poder, diferente de ser oportunista ou trair uma corporação por falta de lealdade, mudar nossas posições diante do mundo é um direito humano dos mais legítimos. O que não é justo nem salutar para ninguém é arrastar uma posição insatisfatória, permanecendo em um lugar que não seja o escolhido. Assim como a roupa deve ser agradável à vista mas também nos dar conforto e bem-estar, é bom ficar alerta e, se for preciso, procurar o solzinho que entra pelas frestas do nunca para ver mais claro. Ninguém consegue ser generoso ou solidário se andar pela vida dentro de uma camisa-de-força.

Foto H. Cartier-Bresson.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Perspectiva às vezes engana


Paul Bracey. Mind prison.


A boneca está meio desconjuntada, braços de pano pendentes, cara de nada absoluto. Que bobagem, isso é uma contradição em termos. Como pode ser o nada absoluto, se é uma boneca, mesmo assim, quase se desfazendo? Verdade que existe o tempo – parte dela já virou pó, já não é a boneca que foi a princípio. E se não é mais aquela do início, começou a navegar no nada. Fico solidária mas um pouco assustada. O nada absoluto está em meu rosto também.





A formiga carrega seu pedaço de folha pelo caminho de pedra. Está no jardinzinho bem tratado, cheio de cores, que fica bem no centro do planeta e bem debaixo do pedaço da Via Láctea que protege nossos telhados.




Para mim ele está lá, mas o lá onde ele está é o aqui dele. Então podemos concluir que todos nós estamos em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo. E ainda dizem que só santo Antônio tinha o dom da ubiquidade.




Daqui do escritório, tenho a sensação nítida de que lá dentro, na sala e nos quartos, talvez na cozinha, estão meus pais, meu irmão que morreu novinho, meus tios e avós. Experimento a sensação bem viva dos primeiros anos, quando morava com eles. Às vezes havia alguém mais. Não posso afirmar nada, já que estou aqui no escritório e não dá pra ver o resto da casa.




Perspectiva e seu grande amor, Sofisma, moram em bairros separados, Razão e Imaginação. Têm uma bela prole que aumenta toda vez que um deles vai visitar o outro. Uma de suas filhas, chamada Mentira, ficou muito famosa e tem numerosos imitadores. Mas a filha que mais influencia as pessoas é Ilusão, uma linda moça de enormes olhos verdes, que anda sempre viajando no Mundo da Lua.

sábado, 13 de junho de 2009

Ego malhado


Foto Boris Kossoy. D. Pedro.



A gente não é para si mesmo o que parece para os outros. A imagem que se imagina estar exibindo é quase sempre mais bonita, marcante, às vezes sedutora, porque era isso que se desejaria. Daí a ambição de tanta gente pelo "sucesso instantâneo", a fama, mesmo que seja à custa da própria dignidade e sossego. Mas quase sempre nossa disposição interior e nossa auto-imagem nos enganam.
Mesmo o espelho é menos confiável do que parece, porque o que vemos refletido muitas vezes se beneficia de nosso olhar indulgente e idealizador, de nosso desejo de agradar, de nossa incrível fragilidade diante da ilusão.
E se é assim para a imagem visível, exterior, imagina o conceito que fazemos de nossa inteligência, talento, personalidade e caráter! Expressão disso é a velha frase "sabe com quem está falando?"
Com quem será que o outro está falando? Com o cidadão mediano e banal a sua frente, ou com o excelso cavalheiro que o próprio se imagina? A famosa frase é sempre lembrada nos momentos em que o ego está arranhado, e se há coisa que ego não agüenta é que se ponha em dúvida sua excelência, seu poder e importância.
Meu ego não é melhor que o de ninguém. Nas horas mais críticas, quer se fazer valer na base do confronto. Faz parte.
Mas essa porção perigosamente arrogante que a gente carrega precisa de rédeas e freio. Ego é como cavalo (puro-sangue, vá lá) – precisa ser bem tratado para ficar manso e em paz e dar conta de seu recado, isto é, defender o melhor possível a imagem de seu amo.
Além de tudo, preciso dele. Todo mundo precisa de um ego saudável pra não se sentir descendo pelo ralo. Em condições normais, o ego é um grande sujeito, sempre pronto a te animar, incentivar, alimentar a auto-estima. Tendo em vista seu gênio irascível, porém, fiz um pacto com ele: cada vez que conseguir se segurar sem pagar mico nos momentos difíceis, dou-lhe um presente. Ego é como criança: gosta de bombom, biscoito, sorvete de chocolate (nesse particular, ele já sabe que a recompensa é racionada, muito mais qualidade do que quantidade). Gosta de ambientes acolhedores, almofadas macias, gente carinhosa. Gosta de um bom filme, boa música, sair pra jantar fora. Adora surpresas.
O trato quase sempre funciona. Com grande vantagem para mim, uma vez que o ego e eu somos indissociáveis e temos o mesmo gosto. Minha vida ficou bem mais divertida. E esse resultado foi só o mais visível. Por tabela, melhorei a qualidade das amizades, consegui superar situações estressantes sem me machucar e – eureca! – fortaleci meu ego sem deixá-lo mimado. Aprendemos juntos que viver bem é muito melhor que correr atrás de qualquer vantagem ou sucesso. E quando ele começa a querer viajar na maionese, puxo-o pelo suspensório ridículo que não abandona nunca. Aí ele volta uns passos atrás e me olha com ar contrito. "Já sei" – diz com uma voz que só eu posso ouvir. "Extrapolei. Peço desculpas. Pronto, já estou de novo no tamanho que você gosta. Mas por favor, não me faz perder a sessão das oito. Eu juro que não faço mais."

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A liberdade doente

Os convites para sites de relacionamento e chat, que chegam todo dia no e-mail da gente, em geral vêm em nome de alguém de nossa lista que pode não ser o autor da mensagem. Não são somente os vírus e spams declarados que chegam assim. Vêm em tom invasivo e falsamente descontraído, mas não passam de marketing descarado, já tão incorporado a nosso dia-a-dia que às vezes nem nos damos conta. Por que estranhos a léguas de distância estariam preocupados em nos trazer de volta amigos extraviados ou antigos colegas de escola e de trabalho? Quase sempre o mesmo pretexto para oferecer produtos supérfluos, serviços que ninguém pediu e outras mercadorias perfunctórias, esse tipo de mídia eletrônica onde piscam mil e um patrocínios de construtoras, lojas, hotéis, carros, utilidades, inutilidades, garotos(as) ou amigos de programa, que em certos casos pagam para se ofertar via internet.

Cada vez mais forças externas tentam dirigir os atos que deveriam ser de iniciativa exclusiva de cada um. Isso lembra muito 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Outro dia, revendo Zorba, o Grego (que filme!), e vendo os camponeses de Creta esperando a morte de Hortense para saquear sua casa, pensava na analogia entre aquela cena e a constante intrusão de empresas e pessoas que insistem em nos convencer de que o melhor para nós é o que eles querem – e eles sempre querem nos passar alguma coisa em troca de nosso dinheiro e/ou nossa submissão para fomentar seu poder.

Por conta dessa luta de interesses, que se disfarça de luta de ideias, este mundo às vezes parece um grande manicômio. O inconsciente coletivo virou um amontoado de noções sem fundamento e preconceitos distorcidos explorados por aventureiros. Diante destes, os sofistas da antiga Grécia eram seres sem malícia. Nos anos 1960 passamos por um período em que as ideologias se digladiavam e geravam debates e contendas sem fim. Agora porém as ideias e visões de mundo chegam aos pedaços, mal assimiladas e achacadas pelo mercado, pelos políticos e por aquele tipo de gente que corre atrás da fama a qualquer preço.

O lado virtuoso da comunicação em tempo real, que chega da televisão e da internet, traz em seu bojo dois vícios capazes de anular grande parte das vantagens de tanta rapidez: a informação chega muitas vezes mal elaborada e quem a recebe na outra ponta quase sempre deturpa seu sentido, por estar mal preparado ou desinformado de dados anteriores, sem os quais a notícia perde seu sentido principal. Diante disso, a mentalidade do público em geral flutua entre juízos precipitados e dúvidas sem resposta; e grande parte das pessoas desiste de entender e se acomoda na alienação, ou então assume uma atitude irracional diante dos acontecimentos.

Talvez tenha chegado a hora de reunir de novo na praça os pensadores, os artistas e o povo, como faziam os antigos gregos na ágora. Quem sabe ainda se consegue plantar em nossas cabeças a semente de uma reflexão sem compromisso com os interesses do dinheiro, do poder e da violência? A liberdade humana é um conceito pouco claro, porque, em qualquer caso, é sempre muito limitada. Mas sem essa reflexão, a liberdade de cada um de nós se reduz a miragem, palavra vazia do vocabulário politicamente correto, e só.

Foto Bey Harrison.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A vida não é cruel, crueis são os seres vivos


Em tempos de mea culpa, os inocentes sofrem por tabela. Bom, não sei se inocente será a palavra certa neste caso, porque de inocentes nós, adultos, não temos nada. Nem nunca tivemos, que Adão e Eva não me deixem mentir. Por outro lado, a Bíblia e a literatura, oriental e ocidental, estão recheadas de narrativas sobre traições, inveja, calúnias e personagens desconstruídos pela malícia de inimigos ou supostos amigos.

Há casos tão pungentes, porém, que parecem respingar em nós, mesmo separados por décadas dos envolvidos. Como todo mundo já sacou, estou falando de Wilson Simonal, que agora ocupa as primeiras páginas da mídia impressa e os noticiários de televisão, além dos sites mais badalados da internet. O que aconteceu com ele foi um exemplo assustador e paradigmático das voltas que a vida pode dar. Os motivos, assim à primeira vista, parecem envolver, de um lado, fanfarronice, muita vaidade e deslumbramento, e de outro, muita inveja, ódio e oportunismo político.

Nada poderia ser mais esclarecedor sobre o caso Simonal que o documentário dirigido com talento e isenção pelo "Casseta" Claudio Manoel, junto com Calvito Leal e Micael Langer. Um bom trabalho jornalístico, bem documentado, com uma visão tão equilibrada quanto possível do caso e uma dose de compaixão pelo sofrimento humano que encerra – além da intenção, justa e bem-sucedida, de reafirmar o valor artístico de nosso primeiro grande astro pop para as gerações que nem ouviram falar dele.

O filme está no Twitter e praticamente em todos os sites de jornalismo e informação da rede. Há uma boa entrevista de Claudio Manuel, um dos diretores do filme, no Esquina da Música, que traz também uma ótima coluna de Luiz Felipe Carneiro sobre a produção.

Em Cinema Nacional, encontra-se um texto bem esclarecedor sobre algumas pessoas envolvidas e detalhes da história.

Assistir à tragédia de Simonal – filho de uma doméstica, sem escola nem preparo, que muito depressa e por seu próprio talento se tornou o primeiro negro a alcançar um sucesso absoluto de público e crítica nunca visto no Brasil dos anos 1960 – é perceber cruamente até que ponto o deslumbramento diante da fama pode desconstruir um sucesso que se julgava indestrutível.

A história de Simonal é incômoda e doi, porque de algum modo faz seus contemporâneos se sentirem um pouco cúmplices de sua desgraça. Ou, num plano mais obscuro, leva as pessoas a perceberem o estranhamento da ameaça do que pode atingir qualquer um de nós, vindo de onde menos se espera. Até aqueles que antes o bajulavam ouviram e leram as acusações contra ele passivamente. E ainda que não tivessem meios de conhecer o outro lado das notícias (já que os tempos eram sombrios e a censura comia solta), nem pestanejaram em aceitá-las ou simplesmente passaram batidos pelo lugar do fogo cruzado e trataram de esquecer o ídolo, ajudando a enterrá-lo na depressão que acabou por jogá-lo no alcoolismo e na morte prematura.

A surra encomendada contra o contador do artista, Raphael Viviani, que supostamente andava metendo a mão em seu dinheiro, e a tortura que ele sofreu no recinto do temível DOPS, agravadas pelo narcisismo ingênuo do cantor, se encarregaram do resto, quando ele se gabou de ser “amigo dos homens”, num tempo em que a ditadura militar já perdera o apoio de muitos simpatizantes e só o medo a mantinha de pé.* O engajamento de Simonal era antes de tudo com a música, seu trabalho e seu talento, além da dedicação a um movimento negro ainda disperso e não institucional, que seus inimigos deixaram esquecida.

*Régis Tadeu, do Yahoo Notícias, escreveu uma boa coluna sobre a história de Simonal, e chama a atenção para detalhes que vale a pena lembrar.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pequenos nadas

...
se vieres à minha procura
vem devagar e suavemente para não quebrar a porcelana da minha solidão.
Sohrab Sepehry. Irã, 1928-80.


Outros além do poeta iraniano já disseram, em palavras diferentes, que abordar uma pessoa não é para qualquer um. A começar pelo modo como se acorda quem está adormecido, evitando uma transição muito brusca do sono para a vigília, que faz disparar o coração de susto e começar mal o dia. A não ser no caso de dorminhocos notórios e contumazes, basta um leve toque, uma chamada em voz baixa, e quem estava dormindo acorda sem traumas.
Chamar alguém aos gritos é, mais que uma questão de educação, uma agressão sem motivo. Excetuando-se as situações-limite, como estar preso por dentro, ameaçado de cair da janela ou com a casa em chamas, ninguém precisa pôr a boca no mundo para chamar a atenção dos outros.
Em circunstâncias normais, as pessoas gostam de ser lembradas e procuradas, mas nunca perturbadas por um chato inconveniente. Igualmente incômodo é ser lembrado sempre com intenções utilitárias, como empréstimos de coisas ou dinheiro (argh!), pequenos serviços que não nos competem ou pedidos que às vezes se tornam um transtorno para quem precisa obedecer a horários apertados ou desviar-se de seu rumo para atender ao pidão.
Pouca gente hoje em dia ainda se sente obrigada a aceitar encargos que não lhe digam respeito. Deixou de ser embaraçoso dizer “não”, ao menos para quem vive nas cidades e tem o tempo contado para suas próprias obrigações, mais escasso ainda para seu lazer e o cuidado de si. Mas ainda existe gente, tímida ou inadaptada aos hábitos urbanos, que não tem coragem de se negar a fazer o que lhe pedem. Às vezes viram verdadeiros servidores do outro. E sofrem por isso de um modo insuspeitado.
A abordagem amorosa é um caso aparte, mas nem por isso pode invadir a privacidade do ser amado, como se amar desse carta-branca para ignorar a necessidade que todo mundo tem de um tempo só para si. Nesse caso, mais que em qualquer outro, o respeito à solidão do parceiro pode fazer crescer o amor, um sentimento cada vez mais raro e valioso, que todos desejam mas nem todos experimentam e praticam de verdade.
Quanto mais íntimo se fica de alguém, mais é preciso estar atento ao tempo de que esse alguém necessita para respirar, cultivar sua paz interior ou refletir e tomar decisões sobre seus problemas. Quando o ser amado não preza nem mesmo seus próprios momentos de solidão e parece ter horror a ficar sozinho, ao menos um pouco todos os dias, pode ser que a porcelana de que fala o poeta esteja quebrada. E porcelana não dá pra colar.

Foto Vasilis Artikos. Birds.