sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Santa, Noel e as renas



Neste ano Papai Noel não saiu no trenó de renas, que as crianças adoram ver desfilar do alto de suas janelas. Repassou a correspondência volumosíssima a seu assistente imediato, encarregado de vestir o uniforme vermelho e cruelmente quente na noite do dia 24, para levar os presentes dos filhos da classe A, normalmente uma tarefa do chefe. Neste ano o assistente acumulou as entregas com as da classe B, sua atribuição regulamentar. Outros dois assistentes são encarregados respectivamente das crianças de classes C e D, além de um quinto, que coordena os trabalhos e orienta os componentes da equipe quanto a endereços difíceis de encontrar.

Impossível precisar dia e hora, mas tudo parece ter começado com São Nicolau, um bispo grego da cidade de Mira, que gostava de distribuir presentes aos pobres. Venerado por várias igrejas cristãs, é padroeiro de muitas profissões (incluindo os ladrões), crianças e estudantes em diversos países do Leste europeu; padroeiro de Nova Amsterdam, primeiro nome da cidade de Nova York, e da guarda dos imperadores bizantinos, encarregados de zelar por suas relíquias. De tão conhecido e estimado, acabou sendo identificado ao velhinho de roupa vermelha e barbas brancas – Santa Claus – que segundo a tradição distribui presentes na véspera do Natal a todas as crianças de bom comportamento. Até aí vai a lenda, porque a gente sabe muito bem que bom comportamento é uma exigência retórica, sem muita ligação com a realidade.

Há décadas Noel faz esse trabalho com grande satisfação. Terminadas as entregas, gosta de ver as carinhas saudáveis e bronzeadas dos meninos ricos diante da árvore iluminada e dos embrulhos, que rasgam com pressa de ver aparecer jogos eletrônicos, livros, bonecos, bichos, instrumentos de música, trenzinhos, bicicletas. Gosta em particular de ver a excitação dos mais taludinhos diante de jipes, cartes e motos. Até barcos e asas delta Noel tem entregado a garotos que mal entraram na adolescência, e sabe deus como irão usá-los. Alguns desses presentes o deixam mesmo apreensivo, mas é preciso cumprir sua missão com o mesmo ho ho ho para todos.

De acordo com a versão americana, Santa mora em sua casa no Polo Norte. Pela versão britânica, vive nas montanhas de Korvatunturi, na Lapônia, com Mamãe Noel – invenção de autores americanos – incontáveis elfos e oito ou nove renas voadoras. Uma figura anacrônica. Foi principalmente por causa do interesse comercial nos festejos de Natal que a imagem de Papai Noel ganha vida e vem falar com as crianças em shoppings, lojas e nas ruas do mundo todo. Alguns pais reforçam a lenda na noite dos presentes, para provar aos filhos pequenos a existência do velhinho de vermelho. Devia ser muito grato aos fakes que ganham uns trocados para confirmar sua existência e impedir seu ostracismo. Mas uma pessoa de existência perene não se preocupa muito com isso. Afora sentir-se quase equiparado a Deus, e portanto satisfeitíssimo consigo mesmo, deve achar bem chatos os humanos convencionais.    

Neste ano, Noel entrou em recesso, como a maioria dos funcionários públicos, parlamentares e empregados qualificados das empresas em geral. Mas ao contrário desses, seus dias de folga não foram motivo de alegria nem serviram para lindos passeios ou aventuras gastronômicas especiais. Nem pensaria em viajar nas últimas semanas do ano. Esteve todo o tempo ocupado em resolver os itens de seu litígio com a senhora Noel, pessoa de trato difícil, reunidos cada qual com os respectivos advogados para redigir os documentos da partilha dos bens e fixar a pensão dos filhos – dois gêmeos de onze anos que, à meia-noite do dia 24, receberam seus presentes pelas mãos do encarregado da classe média baixa à qual pertencem.

O problema familiar de Noel jamais atormentaria Santa. Mamãe Noel, sua senhora, séculos mais jovem, deve ser uma espécie de Virgem Maria. Ainda que fosse atingida pela morte, ressuscitaria inteira e mais viva que antes. Não subiria ao céu, e sim ao Polo Norte, para continuar sua existência naquela casa confortável e alucinatória. No mundo deles, nenhuma dificuldade. Talvez nem mesmo o dinheiro seja conhecido por lá. Quem convive no próprio quintal com figuras tão exóticas está acima dessas mesquinharias. A história não especifica até que ponto sua vida pode ser divertida, mas é difícil imaginar o tédio morando com eles. Talvez no período que vai do fim de janeiro ao início de novembro, quando começam as atividades locais. Ou não. O tédio deve ser um triste privilégio dos humanos, que precisam viver inventando agitos, festas e toda espécie de lazer e armações para não mergulhar na mesmice. Mas é difícil entender de que se ocupa um aposentado sem benefício na Lapônia.

Noel é um cara sensível, preocupado com a alegria das crianças, sempre atarefado em encontrar as coisas que lhe pedem antes do dia marcado. Seus ajudantes seguem seus passos, aprendem com ele a respeitar o desejo dos filhos dos outros como se fossem deles próprios. É verdade que nem todos os noéis de shopping e de rua têm tanto caráter. As falsificações se desdobram e crescem a cada Natal. Isso não o abala nem faz esmorecer. Noel incorporou sua missão e nunca relaxou, quando se trata do 24 de dezembro e dos dias que precedem o mês dos presentes.
Agora no entanto, pela primeira vez em toda a longa carreira, foi preciso delegar as funções que, de tão bem executadas, parecem determinadas pelo próprio Santa. Noel não é tão velho assim, não chegou a conhecer seu protótipo na ativa, mas ouviu muito falar dele, pesquisou e leu tudo que pôde a respeito. Quando a mulher lhe comunicou que decidira separar-se, quase caiu com o choque. Imaginava que, sendo ele quem era, também a senhora Noel se assemelharia àquele arquétipo de mulher perfeita e imperturbável.

Os personagens das lendas têm sua própria realidade, e até suas agruras, como os deuses antigos. No caso dos Santa, embora poucas coisas possam perturbar uma pessoa sem medo da morte, talvez tenham algum trabalho com uma rena de asa quebrada, um elfo de mau caráter, sabe-se lá. É complicado falar sobre a vida desse casal tão irremediavelmente bem ajustado. Não se sabe se tiveram filhos ou não. A palavra separação, porém, não consta com certeza do vocabulário deles, por inútil e até inexistente no dialeto lapônio.

O episódio da separação tem servido a Noel como parâmetro da distância, quase ou mesmo infinita, entre eles e os Santa. As duas semanas de preparação de ações, consultas jurídicas e sofrimento profundo, que precisa disfarçar diante dos meninos e dói ainda mais por isso, têm como agravante o sentimento da injustiça, da falta de equidade entre pessoas de funções idênticas e levadas a cabo com um perfeccionismo que vai muito além da simples competência. E essa agonia ainda vai durar pelo menos uns dois anos, até que tudo fique ajustado e os recursos e instâncias se esgotem. Sem falar na questão da partilha, que o preocupa e desanima. Não tem mais idade para recomeçar a vida, e seus bens, já tão poucos, serão reduzidos à metade ou menos que isso, na pior das hipóteses.

Santa é sem dúvida uma figura de recluso. A notícia de sua imortalidade deve ser uma das invencionices tão comuns em tais casos. Sabemos que as pessoas que somem de circulação – em geral artistas ou homens públicos a) cansados de bajulações e da incompreensão das massas e da mídia e b) fugindo de alguma sanção legal – deixam em seu rastro uma aura de mistério e um monte de boatos. O exemplo mais grandioso desse fato foi o Deus do Antigo Testamento, que vivia dialogando com os humanos ou distribuindo carões e castigos horrendos; passado aquele período assustador recolheu-se ao Paraíso e não interferiu mais na vida dos humanos senão de forma indireta e ambígua, deixando margem a teorias, cada vez mais populares e difundidas, que negam ou levantam graves dúvidas sobre sua existência.

Nunca passou pela cabeça de Noel tornar-se um recluso. Não é um homem sofisticado a esse ponto. Sua visão de mundo inclui a necessidade de trabalhar – é contador, na vida civil – e se resolvesse abandonar tudo para ficar em casa provavelmente iria acabar passando fome. Mesmo sua pequena empresa natalina, taxada pelo super simples, nasceu da necessidade de uma fonte suplementar de renda, antes de se tornar aquela paixão quase religiosa. O lucro não é lá essas coisas, mas serve como substituto do 13º. Em termos de preferência pessoal, ele na certa se dedica com mais amor e prazer aos afazeres do fim de ano. Daí a identificação crescente com Santa e a angústia profunda que o tomou diante do comportamento da mulher, tão em desacordo com a verdadeira senhora Santa.
Na impossibilidade de criar as renas da verossimilhança, Noel dá um jeito de encomendar pequenos veados-mateiros a um amigo do Centro-Sul, e todo ano os atrela a uma carrocinha, dessas que, puxadas por bodes ou pôneis, dão voltas nas praças para divertir as crianças. Conseguiu até uma licença especial do Ibama, com a condição de devolver os bichos a seu habitat natural depois da noite de natal (despesas por conta o amigo fazendeiro). O único problema é a falta das galhadas, e ele chegou a pesquisar a sério, esperando encontrar algum tipo feito em plástico, quem sabe. Impossível conseguir asas, mas os chifres lhe pareciam indispensáveis para criar uma cenografia aceitável e impressionar as crianças nos curtos percursos a percorrer.
Foi pesquisando a esse respeito que descobriu um detalhe fundamental para explicar as diferenças entre a senhora Noel e dona Santa. Acontece que, tanto renas machos quanto fêmeas têm chifres. Isso faz das renas um tipo único de veado e explica, de seu ponto de vista, a qualidade inferior de sua mulher: essas renas chifrudas simbolizam a têmpera e a fibra da parceira de Santa. Deve ser essa a razão por que elas são assim tão especiais. Um reles veado-mateiro não garante nada mais que força para puxar a carroça por um quilômetro, se tanto. Além do mais, as renas lapônias até voam, garantem um percurso majestoso e sublime, que seus veadinhos nem chegam a fazer lembrar.
Noel suspirou e baixou a cabeça, derrotado. Nunca seria um êmulo à altura de Santa. Tudo que tinha feito até então não passava de macaquice, diante da perfeição de seu ideal e das renas que o carregaram pelos céus de dezembro nos natais antigos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Náuseas



Eu sei, eu sei, o Natal está chegando, é hora de votos alegres, bolinhas cintilantes e barbudos suarentos de roupa vermelha. Dependendo do contexto, tudo isso também pode ser uma náusea.
Assim como gente jogando lixo da janela do carro; notícias sobre a CPMF; a cara do político safado. Autoajuda de ocasião, conselhos impossíveis, como aqueles que ameaçam você com câncer e infarto caso não os siga – e se você resolve segui-los, não tem mais tempo nem de ler duas páginas por dia ou pegar um cineminha, chegando à conclusão de que a vida não vale nada. A revista com suas caras cheias de dentes fake. Programação de tevê nos fins de semana; gente que se acha o máximo. Correntes por e-mail; textos assinados por autores famosos que nunca os escreveram; mensagens de nove megas pra você perder tempo de abrir e ver um desfile de figuras bregas e textos bobocas. Baile funk ou festa que nunca se acaba no play do prédio vizinho. Os preços nas livraria (campanha pela multiplicação dos sebos já!!!). Falsidade, mentira desnecessária, deslealdade, corrupção, exploração, plágio. Políticas (?) de educação no Brasil. Submissão cega à moda, o consumismo fútil que agrava as desigualdades sociais. Estupidez, violência, agressividade liberada, desrespeito pelos outros e pela natureza, falta de educação, insensibilidade aos problemas alheios. Candidatos a ditadores em geral.
É nauseante não poder confiar nas pessoas, às vezes vizinhos ou colegas de trabalho. É de dar calafrios ter que andar na rua com medo de quem passa. É uma ressaca ser acordado às sete e meia da manhã por um telefonema de marketing. É de dar desgosto ver a Barra da Tijuca transformada em Miami. E não dá mais pra aturar a avalanche de efeitos especiais – e a barulheira que eles fazem – dos filmes americanos médios, os mais numerosos, a visão de mundo boçal que impregna esses filmes, nem a babaquice das comédias que se repetem ad nauseam nos telecines da vida.
Tirando mais uns tantos itens nauseantes, que ia ser dose ficar enumerando, mas que a gente atura e acaba ficando ranzinza por causa deles, vamos enfim reconhecer que o Natal pode ter momentos genuinamente gostosos, de alegria e até de felicidade. É desses que desejo aos queridos amigos do blog.
Até a volta, queridos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Vinhetas

As palavras podem servir como lanterna de pilha na hora do apagão do sofrimento. Mas pode ser pouco para o coração, esse músculo exigente. Ele ainda prefere mão amiga no ombro, calor de abraço ao vivo, coisas ditas cara a cara. Ainda que a amizade virtual dure e crie raízes no tempo, faz falta a imperfeição humana da presença.



Há senhôras da sociedade, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres de nossa história e até pessoas simples, legalistas, conservadoras, seres medianos sem culpa no cartório que não admitem ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. São diferentes mesmo, é claro – não existe alguém igual a outro neste mundo, nem gêmeos idênticos. Mas todos, sorry, se nivelam em certas semelhanças, e nem falo só dos sete palmos. Tão lembrados?



Amor e ódio são como dois rios que nascem juntos e seguem assim até que uma chuva forte misture suas águas. Não sei se é mais fácil limpar o rio depois da chuva ou o coração depois do desentendimento.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O ano novo deste mês


Vista do rio Paraíba.

A festa do Ano Novo guarda um link permanente com a vida, a alegria, os planos, os sentimentos e as emoções mais queridas. Não é a toa que toda mensagem traz marolas de doçura, um leve eriçar de adrenalina que nos faz sorrir para tudo e todos. E pode acontecer que a gente nunca se esqueça de um réveillon por sua alegria, de como foi bom abraçar e beijar pessoas queridas, conhecer gente nova, querer bem, ouvir vozes e viver as mensagens do tempo em que ficamos um pouquinho crianças de novo, para agitar o corpo e aproveitar a boa vontade geral.
E pode ser que afinal se queira fazer desse novo pedaço de tempo uma viagem nova, ver lugares diferentes, entrar em caminhos abertos fora das trilhas já tão pisadas de sempre. O dia-a-dia vai endurecendo uma casquinha em volta das coisas que se repetem; os atos habituais, obrigatórios, automatizados, vão tomando um lugar mais extenso e, antes que a gente se aperceba, engolem boa parte de nossa vida, escondem a espontaneidade, o prazer das pequenas coisas.
Mas não é preciso esperar que chegue o dia. Se é tão bom quebrar a rotina e inovar, por que não fazer isso a qualquer momento, criando uma oportunidade?
Velejar por outros mares, mesmo sem iate nem lancha. Mesmo sem sair de casa, do escritório, do carro que não foi trocado, do metrô, do ônibus nosso de cada dia. O que tem que mudar não é o lugar, o que está fora e não depende só de nossa vontade. Dá pra ver com outros olhos, de outro ângulo. Viajar descobrindo o novo, o diferente. Reavaliar o que sempre consideramos desimportante ou indigno de atenção. Pôr à prova nossas convicções inabaláveis, nossas certezas absolutas; questionar as "questões de honra" que, fala sério, acabam nos tornando uns chatos até para nós mesmos. Olhar com olhos de ver as pequenas belezas que cruzam o caminho, atentar ao canto fugidio de pássaros nas árvores da calçada em frente da janela; no riso, na voz, na fragilidade das crianças; em cores, sons e aromas que deixamos passar e podem ser uma fonte de prazer sensível. Reparar nos outros, não com olhos de crítica ou desdém, como tantas vezes acontece, mas para notar o que cada um tem de pessoal e diferente – uma voz bonita, gestos agradáveis de ver, um andar desenvolto, uma beleza física qualquer, um olhar caloroso, um sorriso bom de olhar. Voar nas asas da música à qual temos negado a terminação mais sensível do ouvido, do livro que ainda não lemos, do quadro que não olhamos com atenção, e até de uma fachada bonita, um telhado maneiro, sem outro interesse que contemplar, ganhar alguma coisa que o dinheiro não compra.
Estar em casa, no trabalho ou na rua não significa estar preso, atado, limitado. A não ser que se prefira ficar repetindo “não gosto, não quero, nunca experimentei e não vou começar agora”, há um jeito mais leve de levar a vida. Perceber que a liberdade interior é sem limites é um passo decisivo. O prazer de viver, que parece desbotado porque a vida em volta de nós cegamente se repete, forma uma nuvem espessa, um calo – esse prazer se redescobre e até nos espanta, logo que se fura a casca da rotina e se inaugura um ano novo particular. Nada complicado, nem caro nem inatingível. Basta estar vivo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Calvino nas árvores



Calvino, Italo. O barão nas árvores. Tradução de Nilson Moulin. (2009) São Paulo: Companhia das Letras.


O que maravilha em Italo Calvino é a agilidade e a versatilidade de seus textos. Um livro como O barão nas árvores teria tudo pra se tornar uma leitura no mínimo monótona, caso fosse linear ou tivesse aproveitado o argumento para descrever coisas estáticas como paisagens, por exemplo. Mas não se corre esse risco num texto de Calvino. Ele atende a todas as perspectivas, por assim dizer. A narrativa caminha o tempo todo por aqueles galhos desiguais, entre folhas, espinhos, bichos, flores e frutos, mostrando não só o que vê e vive a figura improvável de Cosme Chuvasco de Rondó, mas também a vida dos nobres, mentalidade e costumes europeus do século 18, além de uma visão dos conflitos da época.

As histórias da Segunda Guerra, que motivaram vários autores no fim dos anos de 1940, domínio do neo-realismo italiano, trouxeram a fama ao escritor com A trilha dos ninhos da aranha, de 1947. Em 1956, quando Calvino escreveu Fábulas italianas, uma visão completa ou quase das histórias populares da Idade Média italiana, percebeu que, bem avaliada, a lógica dessas histórias não perdera de todo sua atualidade. Partiu então para três livros surpreendentes, em que o irreal e o fantástico ocupam o primeiro plano. Comaparado a O visconde partido ao meio e O cavaleiro inexistente, que formam com ele essa trilogia, O barão nas árvores é o menos “maravilhoso” dos três. O olhar do autor é irônico e bem-humorado, e a narrativa, isenta de qualquer preocupação de ordem moral ou pragmática, não perde de todo sua ligação com a realidade. A ideia do protagonista, de que para entender bem a vida na Terra é preciso manter alguma distância dela, é um postulado puramente racional. Pode parecer também um indício de que o barão de Rondó teria escolhido se isolar ou se vegetalizar. No entanto, isso é desmentido pelos fortes laços que ele, lá de suas copas, continua mantendo com a sociedade, a família e as mulheres. A vida sobre os galhos é na verdade uma proposta alegórica de ver as coisas de um ângulo mais amplo do que de dentro de uma casa da baixa nobreza.

Até o fim de sua história, Calvino mantém o personagem sem voltar a pisar o chão, e no entanto sempre mergulhado nos acontecimentos cá de baixo e com uma vida afetiva das mais movimentadas em todos os aspectos. Os personagens traduzem suas dores e incertezas em atos estranhos, como Batista, a irmã amargurada, preparando patê de fígado de rato, seu pai, sempre iludido quanto à importância da família na corte, ou o abade aluado, preceptor dos filhos. Mas o clima criado e mantido pelo romance afora é uma afirmação implícita do que todos nós já sabemos, cada qual a seu modo: mudança e finitude são os pressupostos da vida, aos quais cada um responde a seu modo. E ainda assim, Calvino não deixa as coisas caírem no lugar-comum.
 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os esqueletos no armário





A assombração teve seu primeiro registro conhecido à saída do jardim do Éden, no exato momento em que Adão e Eva transpunham o enorme portão lavrado pelos arcanjos encarregados da decoração local. Posto o pé do lado de fora do paraíso, a voz tonitruante do criador deve ter soado a seus ouvidos escaldados como coisa do além – o que de fato era. Mas o além era o jardim das delícias perdidas, a lembrança do que era doce e se acabou. Identificada à vida intra-uterina do feto, todos nós carregamos essa nostalgia do paraíso.
Isso deve em parte explicar por que as pessoas gostam tanto de histórias de assombração, que provocam medo de um suposto desconhecido – na verdade bem conhecido. Atração e repulsa, fascínio e terror por uma realidade que não se sabe bem como será, da qual se guarda apenas uma lembrança vaga o bastante para parecer ilusória, mas tão convidativa que dá medo.
Não sei se me expliquei bem. Com certeza, não. É difícil falar do além de modo claro. Não faria sentido, mesmo que procurasse explicar a coisa a fundo, porque a assombração é antes de tudo um não-sentido. Quem poderia explicar com exatidão matemática "O corvo" de Poe? Não restariam nem as penas. Aquilo a que falta consistência lógica deve manter-se em seus próprios domínios, que são sutis e incompatíveis com o passo-de-ganso da razão. A lógica está para o mistério assim como a criptonita está para o Super-Homem; se tentarmos explicá-lo ele se esfarela e desaparece, porque à luz da razão vira pura bobagem.
Não é bobagem, no entanto. Apenas pertence a outra dimensão da realidade. A julgar por seu sucesso nas histórias de ficção de todos os tempos e lugares, filmes e causos contados ao pé do fogo nos sertões do Brasil, assombração é coisa séria. E tem seus parâmetros: pode não passar de impressão, se for mera menção; se for demais, é cafona como os cordões de ouro no peito do traficante.
Pessoalmente gosto de uma assombração moderada, vista ou entrevista por pouco tempo. Nada de rostos em decomposição, vermes furando a pele ou garras perseguindo inocentes pedestres em corridas desabaladas pela rua. Assombração que se preza tem que ser uma presença mais sugerida do que presente. Tipo aquele casal de A outra volta do parafuso, de Henry James, que deu filmes sensacionais com aquele chamado Os inocentes.
O que me dá agradáveis arrepios é a idéia de uma presença invisível ou que se manifesta por indícios, que deixa sinais ou apenas se mostra de relance, como se fosse uma ilusão de ótica, e no entanto altera a ordem natural das coisas.
Alguns livros ou textos afins ao assunto falam de pessoas e acontecimentos que nem mesmo podem ser rotulados como histórias do além, mas causam um efeito similar sobre seus leitores. Está nesse caso o realismo fantástico de algumas obras de autores como Borges, Cortázar, Bioy Casares ou García Márquez.
Está nesse caso também um romance de 1954, chamado A menina morta, do brasileiro Cornélio Penna, em que a força da personagem-título se manifesta sobre a realidade sem que haja qualquer evocação ou interferência positiva de um fantasma do tipo tradicional. Penna, cujo trabalho envolve um clima opressivo, era um caso quase isolado entre os autores de seu tempo aqui no Brasil. Assim como aconteceu com Clarice Lispector, que deixou textos enigmáticos ou sombrios como "O ovo e a galinha", "A princesa", "O pequeno monstro" e algumas histórias de Onde estivestes de noite, entre outros. O estranho e o insólito pontuaram a grande maioria dos textos de Clarice, que não por acaso chegou a ser considerada bruxa. Um outro exemplo de romance marcante, mergulho no mundo subjetivo de seus personagens, é A crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, cuja narrativa envolve o que se poderia entender como o processo de geração do fantasma – por assim dizer, um fantasma avant la lettre.
A meu ver, o papel – e atrativo – principal da assombração é que ela manifesta aquilo que está desde sempre dentro de cada um de nós, mas vive preso, escondido no porão, trancado a sete chaves porque, uma vez liberado, faria de nós seres indesejáveis, incapazes de conviver em sociedade e politicamente incorretíssimos. A figura do estranho, da pessoa ou coisa que provoca horror ou medo, não seria tão ambígua e atraente se não correspondesse a alguma coisa com que todos estamos secretamente familiarizados – embora pensemos sempre nessa coisa como uma entidade com existência própria. Assombração não é feita para assustar (embora em geral assuste, por uma espécie de efeito colateral). O estranho existe para nos fazer viver a vida de modo mais completo, já que viver é muito mais do que pagar contas no banco, namorar ou ir ao cinema.
Expor os sentimentos humanos mais sombrios e escondidos sob a forma de seres ou fatos enigmáticos e sinistros pode ser um modo criativo e muito refinado de ampliar o conhecimento do mundo e das pessoas, visto de uma perspectiva nova e esteticamente rica. Uma percepção que não obedece ao habitual e rotineiro pode nos abrir os olhos para ideias como a do tempo em sua dimensão esmagadora e implacável. Pode nos dar a perceber, como num espelho, o vazio que cada um de nós carrega vida afora, por mais que conquiste sucesso, dinheiro e até amor e amizade.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Viagens aos mesmos lugares






Foto Ale Felix.


· Durante duas semanas deixo de ler jornais e revistas, não vejo mais noticiário de tevê nem quero saber das notícias de política e polícia, muito menos das que misturam as duas e que são cada vez mais frequentes. Estou louca pra ver se isso muda alguma coisa na minha cabeça. Se mudar para melhor, repito a dose. Alienação? No, babies. Entrei num período de desintoxicação mental.
· Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu mesmo, por que tem tanta influência dos outros? Se não é meu, como se explica que eu, e não outro, diga o que acho que penso? Às vezes fico assombrada com a uniformidade de determinados discursos. Vivemos à sombra de um emaranhado de idéias e pontos de vista ditados por interesses que não conhecemos e não são os nossos. Não dá pra confundir os gestos e atitudes correntes e repetidas com opiniões próprias.
· Uma coisa que me deixa cabreira é a diferença entre o que de fato acontece na vida real e o que chega a nosso conhecimento via mídia. Aderimos um pouco sem sentir à opinião de um ou outro colunista que admiramos, pelo que sabemos dele e por suas idéias. Até aí, tudo bem. Mas parece que isso tem um efeito cumulativo. Acabamos nos condicionando a pensar pela cabeça dos outros, o que não se recomenda, por melhores que os outros sejam.
· Enquanto isso, vou pondo em dia as leituras que se acumulam em pilhas, perigando desmantelar alguns livros antigos, heranças de papá e de um tio bacana.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

De imagens e palavras

 (Texto reeditado)

Van Gogh. Café noturno.

O modo como as imagens têm sido tratadas em nosso mundo frenético é inadequado e irreverente, porque teima em ignorar a dignidade do que se vê. Não se sabe exatamente a quantas palavras equivale uma imagem. Ela pode ser uma fonte de palavras. Mas pode também suscitar apenas um silêncio contemplativo, uma reflexão muda.
Na linguagem do sonho as palavras se cristalizam em imagens, porque o caminho que elas percorrem é o da contramão da estimulação: em vez de afetar o neurônio e então ser percebida como imagem, a palavra vem do neurônio investido de volta à percepção. O sonho consiste de imagens e às vezes de palavras que são como recortes de uma colagem, fora do contexto regulamentar em que funcionam na linguagem. É frequente que um sonho apresente uma palavra – às vezes até uma frase – hermética, misteriosa, que figura ali como uma representação daquilo que a palavra pode querer dizer, ao invés de um termo no contexto usual da linguagem. A imagem verbal tem muito mais um caráter conotativo que denotativo no ambiente onírico. E o que ela significa pertence à esfera subjetiva de quem sonha. Mistura-se às imagens com um valor equivalente, é parte do enigma do sonho.
Se refletirmos nesse fenômeno, fica mais fácil perceber por que uma imagem nunca é a mesma para todos que a veem. Se isso é verdade, então como tratar as imagens como objetos fabricados em série? Palavra e imagem têm uma longa história de encontros e desencontros. Ambas estão ligadas à percepção visual e à memória. Ambas vêm impregnadas de sentidos e mensagens de variação infinita – que o diga Andy Warhol.
A criação literária é o momento privilegiado da palavra, quando se convocam imagens e estados subjetivos em função de uma criação única e intransferível, em tudo semelhante ao processo onírico. Não significa que o autor tenha a intenção de contar fatos autobiográficos, mas sim que a obra de criação é, como no sonho, autobiográfica, ainda que não seja confessional. O que se manifesta na obra de criação tem suas raízes firmemente cravadas na subjetividade. Há uma forma de sonho na obra de criação.
Palavra e imagem se fundem num texto que irá afetar de modos diferentes seus leitores. As pesquisas sobre o tema demonstram que a recepção individual do texto literário se dá em uma zona de condensação organizada por um inconsciente e sua subjetividade. Os elementos que contam para o indivíduo que lê vão além dos conceitos vigentes da cultura e dos preceitos de sua sociedade – embora esses fatores sejam de grande importância e quase sempre determinem o sucesso ou o fracasso de uma obra em termos objetivos. Uma pesquisa puramente conceitual, no entanto, não dá conta do literário, assim como somente uma pesquisa psicanalítica não o conseguiria.
A explicação disso se deve em parte à disjunção palavra-coisa. É como comer o fruto proibido: a palavra ingênua quer designar a coisa, e uma vez perdida a inocência e percebida a precariedade da identificação entre elas, descobre-se que a coisa não está onde a palavra a designara, que já não há redução possível de uma à outra. Descobrimos que fomos vitimados por uma série de separações, quando acontecimentos como perdas, mortes ou omissões se reduziam a palavras que deixavam escapar seu verdadeiro sentido. O passado não cabe nas palavras com que o evocamos porque não foi e não será como o recordamos ou falamos dele. Também não podem prometer nada para o futuro, porque será sempre fantasia tudo que disserem a esse respeito. As expressões se gastam ao ponto do lugar-comum: terra natal, terra prometida, o céu na terra e seus análogos só nos dão a certeza de que “uma coisa sem nome nos acompanha” que não é “nem nossa origem nem nosso futuro” e que por isso é “nosso horizonte permanente” e também a garantia única de alguma “tensão da palavra no momento”*.
Por sua vez, a imagem pode exibir acontecimentos em outra dimensão, mas a ilusão de seu poder também é um risco. Não vale mais nem menos que a palavra: é diferente. Os limites, os vazios, as imprecisões e a multiplicidade das palavras e da linguagem têm uma espécie de contrapartida na imagem. As palavras reduzem e atenuam o real que a imagem resgata. Mas é bom estar atento a um engano também nesse domínio. A imagem reproduzida e divulgada ao ponto que a vemos na propaganda e na mídia se destina a criar novas ilusões, porque a experiência que ela oferece não é a experiência do real. Enquanto representação do real, a imagem merece respeito. Rebaixada a vendedora de ilusões e propagadora da mentira, é uma fraude lamentável, que faz da ilusão uma razão de viver.
Como em tudo nesta vida, o real tem que ser a medida de todas as coisas.

* Pontalis, J.-B. Perdre de vue. (1988) Paris: Gallimard.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Pé-sujo dos livros

 Tela Iman Maleki.

Leitores inveterados, obsessivos, pesquisadores, sem-grana e curiosos vão aos sebos da cidade onde moram e esquecem do tempo descobrindo exemplares que nem planejavam comprar, mas que uma vez descobertos viram objetos de desejo. Sebos – incluindo as feiras do livro – têm isso de bom: além de gastar muito menos, com sorte a gente encontra aqueles esgotados sem chance de nova edição. Em matéria de clima e rituais, o bom sebo está para a livraria assim como o pé-sujo está para o bar da moda.
As bibliotecas podem quebrar bons galhos sem despesa ou quase. Mas o livro que você traz pra casa não vai dormir em sua estante por mais de quinze dias. E se daí a três, quatro meses ou até alguns anos depois você ou alguém próximo precisar dele? E se te der uma louca vontade de rever aquele personagem, ouvir a música daquele texto? Livro é um objeto um pouco misterioso e tem isso em comum com as pessoas: se você for além da capa e tiver a curiosidade de conhecer o que existe dentro dele, pode ter boas surpresas. Por isso tudo, às vezes deixa saudades.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Eva Luna e seus contos

Isabel Allende. Eva Luna. 7ed. Trad. Luísa Ibañes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. 336p.
I. A. Contos de Eva Luna. 3ed. Trad. Rosemary Moraes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. 238p.



Gosto desses livros que evocam uma voz interior que aos poucos toma conta da história e se apropria dela como se fosse a nossa. Não falo de vontade de plagiar, falo de identificação, de prazer ou fruição de ler, no sentido que Barthes dá a esses termos.

Isso acontece quando leio Clarice, e tem acontecido mais recentemente com a leitura dos textos de Isabel Allende.

Os Contos de Eva Luna me surpreenderam de um modo muito prazeroso. Reconheci nesses contos a linguagem que eu teria gostado de usar, se escrevesse aquelas histórias – e que histórias! Pareceu-me reconhecer os fantasmas, os personagens e até aqueles lugares, tão diferentes dos meus.

Allende encontra a postura certa para escrever, quando se deixa levar pelas palavras como se flutuasse, como se nada mais importasse na vida senão registrar suas memórias sem sentimentalismos, com suas impressões ricas de imagens e cores e o reconhecimento requintado dos sentimentos humanos. Ao mesmo tempo, há uma atitude meio animal no modo como a escrita flui num ambiente natural, frequentemente hostil, embora – ou por isso mesmo – carregado de encantamento.

Em Eva Luna um tom autobiográfico, eu acredito. Embora vá muito além (não sem razão, ela toma como epígrafe um pequeno trecho das Mil e uma noites). É talvez falso o cenário, de um modo geral, e as pessoas por certo não são exatamente aquelas, com aquelas almas e aqueles nomes. É por isso que deixa no leitor um toque tão pessoal e ao mesmo tempo uma tal abertura, que esse leitor pode ser capaz de reconhecer um semelhante que narra alguma coisa profundamente pessoal e verdadeira. Na fantasia que permeia o texto e nas experiências e sinais que o tornam familiar, está inscrita a natureza humana.



A partir do que é simples e inequivocamente pessoal, não só pelo estilo ou por qualquer traço que denote apenas uma virtude técnica, o cheiro de gente impregna os contos do outro volume. Basta ter vivido. Se cultura é aquilo que resta depois que se esqueceram a letra da teoria e o que dizem os tratados, esse é o terceiro estágio do homem, um momento privilegiado do existir, quando uma leitura pode tocá-lo de modo direto, intuitivo e sem retoques. E pode também mover seu braço em direção à caneta e ao papel - ou ao teclado - tomado pelo gosto de uma literatura visceral. Nem que seja só para tomar notas ou marcar a página onde uma passagem o tocou mais de perto.

Para mim, é a isso que um escritor (diferente de um escrevente, que pretende narrar um fato em sua objetividade ou esboçar uma teoria) deve ambicionar, mais do que à lista dos mais vendidos: ficar na memória, deixar um traço, ser uma evocação prazerosa na vida de algum leitor.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

De detalhes e vinhos

O que se quer dizer é sempre o indizível. Por isso a gente nunca para de falar, inscrever, escrever ou pichar, entre outras coisas. Se prestarmos atenção a nossas próprias frases, podemos descobrir coisas muito interessantes quanto aos sentidos que podem ter e que nos escapam se estivermos dispersos. Pode ser revelador, por exemplo, perceber de quantas maneiras uma fala nossa poderia ser interpretada.

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Sou mais feliz quando posso buscar novos ângulos e inventar novos meios de fazer as coisas. Mesmo as tarefas mais chatas têm sempre um jeito menos desagradável de realizar – ouvindo música, aproveitando os gestos para se exercitar ou alongar ou, dependendo das possibilidades, cantando ou dançando, o que é sempre uma delícia.

O mais difícil de tudo é aprender a jogar bem o próprio jogo. As regras são sempre meio obscuras.

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Amar exige tanto da gente que, se a gente não se amar o bastante, não aguenta.



Há pessoas espumantes, leves e doces. Há gente frutada, gente encorpada, madeirada, concentrada. Uns irradiam calor e conforto orgânico. Outros provocam dor de cabeça, acidez e gastralgia. E há pessoas que quanto mais vivem, melhor aprendem a viver. A gente humaniza muito os vinhos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um livro pode ser um ente querido



Ler é um diálogo monologado – o autor fala e o leitor aproveita as deixas.
Pode-se gostar do que se lê ou ler por necessidade de alguma informação, estudar ou se divertir. Mas assim como um filme que nos toca mais fundo, uma música que se torna tão nossa que a partilhamos com o autor e pesquisamos sobre ele para descobrir que afinidade é essa, um livro pode ser uma peça de arte, um objeto útil ou raro, mas também um ente querido responsável por momentos de muito prazer na vida.
Quase sempre as diferenças individuais determinam a maneira como se lê. A não ser que você esteja frequentando uma oficina sobre o assunto ou fazendo um treinamento para apurar e aproveitar melhor o ato da leitura, normalmente segue a trilha aberta pelo próprio temperamento ou pela própria neura.
 Acredito que a maneira mais usual seja ler um livro de cada vez até o final, a não ser que se desista antes disso – ou porque não se desenvolveu ainda o hábito de ler e fica difícil concentrar a atenção, ou porque o livro realmente não despertou interesse suficiente, e o tempo é artigo raro demais para ser desperdiçado.
Mas conheço gente que lê o início, salta alguns parágrafos, passa os olhos em outros, tenta entender tudo nessa dinâmica saltadora e segue aterrissando aqui e ali até abrir as últimas páginas para ver como acaba a história. Se houver muita familiaridade com o ato de ler, às vezes se consegue captar assim o sentido geral do texto. Perde-se alguma coisa do significado, mas pescam-se muitos peixinhos menores. E pode ser um prejuízo sério, no caso de livros mais densos, estilos ricos e textos muito originais ou recheados de dados interessantes de conhecer. Mas um leitor experiente sabe o que está perdendo com esse comportamento errático e provavelmente só usará esse modo pouco convencional de ler em textos mais rasos, narrativas simples que não exijam muito de quem lê.
Não é raro que quem lê por hábito, e muito, leia vários livros de modo simultâneo. E obviamente algum – ou alguns – será(ão) sempre mais apreciado(s) que outro ou outros. O que acontece quase sempre é leitura dinâmica nos casos mais leves e leitura continuada e reflexiva em textos responsa. Costumo fazer isso, sem prejuízo nem culpa. É como se o texto mais denso fosse a matéria principal e o outro, ou outros, a hora do recreio. O que não consigo fazer é ler ao mesmo tempo dois livros importantes ou superinteressantes, já que um texto desses exige minha atenção integral.
 Nem é só atenção. Um livro envolvente, com o qual nos identificamos e nos causa um prazer todo especial, implica também um envolvimento afetivo que é quase uma paixão. Há livros que se leem para conhecer e outros para conhecer e curtir. Mas em qualquer dos casos, sempre vale a pena, ainda que seja para se manter em dia com o que está rolando, ganhar e aprofundar conhecimentos ou, quem sabe, acertar numa escolha premiada.  
 Haja tempo e haja livros. Mas acima de tudo, haja desejo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ler é uma delícia, mas L.E.R. é muito chato

Tenho tentado contornar o problema, mas não há jeito. As DORT – Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho, L.E.R. para os íntimos, são persistentes e muito incômodas, obrigam a gente a parar durante um bom tempo, até que os sintomas desapareçam e nos deixem em paz e em forma de novo.

O que pega é que o computador passou a ser pau para toda obra. Criar textos, construir ou consultar planilhas, ler, visitar sites, pesquisar, enfim, qualquer atividade depende dele. E como o trabalho “sério” – leia-se remunerado – é sempre preferência nesses casos, não há outro jeito senão reduzir as atividades diante a telinha, dar folga aos dedos e descansar os olhos também.

Apesar das férias recentes, não me afastei do teclado. Havia outras atividades para pôr em dia, e embora suprimindo boa parte das postagens e comentários, o L.E.R. continuou galopante. Pediu tempo, e disse secamente punto e basta, com cara de Totó, o italiano da novela.

Espero que não demore muito. Vou sentir falta dessas conversas virtuais, das trocas, do carinho desses amigos e de seus textos, poemas e comentários que me dão tanta alegria.
Agradeço por eles, de todo coração.

Beijo para todos. E até qualquer dia.

Dade




segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O que é um vencedor?

Imagem sem menção de autor.



Acho bem difícil falar desse assunto, que faz cócegas em um dos paradigmas de nosso tempo. Afinal, como explicar a razão da vida sem que a satisfação do ego predomine? Já não estamos na era mística em que se pregava a renúncia às glórias mundanas. Ao contrário, hoje tais glórias norteiam as ações de tanta gente que fica difícil argumentar contra. Para muitos, é líquido e certo que educar bem um filho consiste em orientá-lo no rumo da vitória, seja nos estudos, no amor ou na carreira – entendendo-se por vitória o sucesso financeiro e social. Aumenta a cada dia o número dos que acreditam que a felicidade se alcança passando por cima dos que não souberam se impor e não dedicaram seu tempo e energias exclusivamente a competir.

Nada contra vencer em qualquer domínio de atividade. Ao contrário, quando alguém vence e se destaca, em sua carreira, nos estudos ou no amor, experimenta uma das grandes alegrias que a vida oferece. Um filho vencedor recompensa muitos esforços dos pais, assim como um marido ou uma mulher que se destaca é motivo de orgulho para quem ama de verdade e para seus amigos sinceros. Mas viver é bem mais que isso.

Enquanto a vida avança e a idade aumenta, esbarramos em inúmeras razões de alegria e até de felicidade genuína que não estão ligadas ao fato de ser ou não um vencedor, nesse sentido estrito adotado pela civilização ocidental, em especial no Novo Mundo (que, convenhamos, parece precocemente envelhecido e meio esclerosado). Se até os vinte e poucos anos todos experimentamos a deliciosa sensação de onipotência que a juventude garante, mesmo que não corresponda à verdade objetiva, depois dos trinta quase sempre começamos a ver a vida com olhos menos delirantes. Se não estivermos obcecados por esse ideal ególatra e afetivamente esterilizante de vencer a qualquer preço e destruir todo mundo que possa atrapalhar essa meta, seremos capazes de avaliar a vida com olhos menos ansiosos.

Então começa um ciclo que pode ser o mais produtivo e o melhor de todos, quando aprendemos a amar nossas realizações e tarefas, enfim, o trabalho que sai de nossas mãos, assim como certas pessoas que nos rodeiam. Se a maturidade nos encontrar sadios e ativos, é quase certo que teremos ao menos identificado e começado a procurar os caminhos que nos conduzirão à realização pessoal, a mais importante de todas, ou aos relacionamentos melhores para nós. Isso quer dizer o encontro da vocação de cada um e sua realização afetiva. Descobrir o que gostamos mais de fazer, ainda que as contingências do dia-a-dia não nos permitam uma entrega completa a essa atividade, é tão ou mais gratificante que subir num pódio. Assim como amar alguém e poder partilhar a vida com ele/a; tomar as próprias decisões com liberdade; aprender a admirar as pessoas que nos parecem dignas disso; abrir mão de alguma coisa por vontade própria por alguém são satisfações tão ou mais importantes que uma vitória forçada, às vezes constrangedora. E ainda que nosso trabalho no dia-a-dia não traga a glória, que seja bem realizado e alimente uma autoestima saudável.

Há muitos tipos de vitória. Mesmo que não desfraldem bandeiras para o mundo, as vitórias íntimas, partilhadas por quem de direito, garantem paz de espírito, alegria de viver e até felicidade. O melhor conceito de vencedor não é tão estrito como se quer fazer acreditar. E talvez tenha muito mais a ver com alegria do que com dinheiro.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Férias do blog

Como tudo nesta vida precisa de férias, repouso e mudança,
o blog vai dar um tempo.

Beijos gerais, obrigadíssima pela presença muito querida e até a volta.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Frágil é o leitor



     Isto não é uma resenha. Faltam rigor, isenção e distanciamento. Por isso, tenho que confessar que escrevo este comentário sobre Coisas frágeis, de Neil Gaiman, ainda intoxicada de admiração e entusiasmo. Houve momentos durante a leitura em que tive vontade de ser Gaiman. Não queria os prêmios dele, que fez tudo por merecer, e acho até que foram poucos. Não queria o renome, a juventude dele. Queria tão só ter sido capaz de escrever esse livro.
     Há muito tempo não releio uma obra. E tenho lido coisas muito boas, como os poemas de Leonardo Fróes, obras de Enrique Vila-Matas, Amós Oz, Dino Buzzati, Ricardo Piglia. Também nunca fui muito chegada a fantasias, bestsellers ou não. Raramente gostei de uma história que fosse além da realidade como a conhecemos, e assim de pronto só me lembro de ter adorado A outra volta do parafuso, de Henry James, ou as histórias mais para simbólicas de Italo Calvino. Mas tanto uma como as outras não pretendem assustar, fazer profecias ou causar espanto em ninguém. Ultrapassam a realidade conhecida com um objetivo ficcional, e acredito que seja esse o motivo principal de conquistarem o leitor com sua prosa surpreendente, mas não escapista ou alienante.
     Coisas frágeis, no entanto, é bem mais que um livro que se dá ao luxo de recorrer ao sobrenatural para reforçar um enredo, como acontece com o romance de James, ou exaltar a poesia das coisas, como faz Calvino em As cidades inivísíveis, inventando lugares inexistentes para avivar sentimentos e emoções que tratamos como lugares comuns no cotidiano ou no máximo merecem poemas previsíveis. Coisas frágeis simplesmente vai além da fronteira dos sentidos quase como uma homenagem à experiência sensível; um aprofundamento, uma espécie de pedagogia do real, um método que é como uma agravante. Isso fica patente na própria introdução, quando o autor escreve: “Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também.”
     Acredito que toda a beleza soturna e estranha dos contos de Gaiman esteja baseada numa fabulação que não só desce às profundezas da dor humana, como se percebe no confrangedor “Lembranças e tesouros” ou em “O problema de Susan” – este último tomando como mote um dos Contos de Nárnia – mas também faz um levantamento magistral das extravagâncias de que somos capazes. Além disso, há a criatividade inacreditável de textos como “A vez de outubro”, “Os fatos no caso da partida da senhorita Finch” ou “Golias”, que ele escreveu por encomenda, para a divulgação do filme Matrix.
     Uma seleção de contos que não poderia ser mais feliz, de um autor de talento incomum, que além do mais expõe seu lado gente na introdução onde nos põe a par do processo por que passou cada narrativa – o que me parece de uma consideração apreciável com seus leitores. Haverá quem argumente que ele fez isso para se exibir um pouco mais. Paciência. As pessoas nunca ficam mesmo dentro dos limites do racional.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Paciência e perseverança

Digam o que disserem os pessimistas, façam o que fizerem os porcalhões de costume para driblar o impedimento eleitoral que o Ficha Limpa lhes impõe, acredito que demos um passo à frente.
Se tirarmos conclusões a partir de casos recentes, em que alguns desses membros do MSE (movimento dos sem ética) conseguiram driblar a lei e ganhar uma chance de candidatura, talvez isso se deva principalmente a que a Justiça Eleitoral desempenha um papel administrativo, de organização e normatização das eleições no Brasil – ou seja, é um ramo da justiça facilmente afetado pelos interesses políticos.
Paciência e perseverança, como diz uma amiga minha, pessoa dotada de grande sabedoria. Somos um povo de estressados, gente que tende ao imediatismo e outros ismos nada recomendáveis. Dificilmente recebemos uma notícia desanimadora sem liberar nossas fumaças de derrotismo e fatalismo. Outro ismo que só tem nos prejudicado historicamente, o conformismo, mora e dorme conosco no dia-a-dia. É ele que tanta vezes responde por erros e repetições lamentáveis, pela presença de tantos políticos eleitos e reeleitos, quando de direito deviam ter sido banidos do processo eleitoral, não por três ou oito anos, como em geral acontece, mas para todo o sempre. No entanto, o que existe de reincidentes e caras de pau entre os dessa classe é uma realidade um tanto desanimadora.
Acredito que a explicação mais evidente disso é que brasileiro é uma raça misericordiosa, capaz de se apiedar ou acreditar de novo em pessoas que já provaram por todos os As + Bs que nunca se apiedariam de ninguém, quando se trata de desviar recursos; gente que não refresca nem aqueles que lhe conferiram o benefício (indevido) de seu voto, a troco de qualquer gorjeta ou empreguinho instável e mal remunerado.
Acredito também que, além dessa característica quase óbvia do eleitorado da terrinha, e talvez tão importante quanto, falta essa virtude da paciência, falta persistência nas tentativas de consertar esse defeito da máquina eleitoral. Nosso povo não parece acreditar, mas tem muito mais poder do que pensa.
O Ficha Limpa talvez seja uma das iniciativas mais promissoras dos últimos tempos para justificar alguma expectativa de mudança. É apenas um primeiro movimento, mas com paciência e alguma perseverança podemos fortificar e prolongar seus efeitos, até que se consiga um saneamento mais duradouro.
Será que não está na hora de partir para uma outra espécie de Ficha Limpa, capaz de mostrar a nossos magistrados que estamos de olho neles e que não aceitamos manobras suspeitas para manter na ativa os aventureiros de plantão?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Os pragmatas



            Pragmata é o nome de um tipo ou fonte gráfica. É também o nome de um disco da cantora Katy Garbi e de um ringtone para celulares, de Anna Vissi, autora de letras de música.
O termo está ligado à Grécia, de onde veio. Mas bem que podia ser usado em português, porque dá uma ideia mais imediata de pragmatismo do que o adjetivo correspondente, pragmático, de uso corrente e geral, que designa um cara ou um ato de caráter prático. Há também as formas pragmatista, quando se fala do pragmatismo fundado pelo filósofo e psicólogo William James, que trata dos resultados práticos da aplicação de conceitos; e pragmaticista, diferente da filosofia utilitária de James, que vem de pragmaticismo, criado por Charles Sanders Peirce, filósofo, matemático e físico americano.
Como não quero falar de nenhum deles – nem de tipos de letra, nem de música pop grega, nem de filosofia – mas adoro a palavra pragmata, que me parece mais, digamos, pragmática, peço licença para trazer para o português a forma grega.
Peço também licença para aplicar esse neologismo a determinadas figuras que compõem nossa sociedade na área dos negócios, da economia e da política. Não pretendo avacalhar o termo (como disse, acredito em sua força de expressão e em seu poder de comunicar). Mas não posso deixar de ligar uma coisa à outra.
Se pragmata dá mais força à ideia de praticidade, busca de resultados imediatos, serve também como qualificativo de quem tem pressa de se arrumar, sair ganhando de todas as situações, e pensa primeiro em si mesmo, mesmo que por direito encarne um representante do povo, no caso dos políticos, ou um elo social para o bem-estar geral, como deveria ser o caso de negociantes e economistas.
A gente imagina que a palavra egoísmo se refere sempre a indivíduos isolados, quando diz: Fulano é um egoísta, no sentido do cara que só pensa em si próprio e quer que o resto do mundo se exploda. Isso é verdade, mas é também extensivo a grupos e facções dessas classes citadas. Talvez até um político cassado possa ser solidário, até abnegado, quando se trata de sua família e seus amigos. Mas quando assesta suas baterias contra o dinheiro público, está sendo coletivamente egoísta, porque contagia os colegas menos fortes de caráter com sua forma de agir, e o bando dos corruptos cada vez aumenta mais.
Também os negociantes rastaqueras, que só pensam em explorar o próximo, que enganam, mentem e tiram vantagens inadmissíveis em cima das tendências do mercado em todos os níveis, são pragmatas no pior sentido do termo. E todo pragmata nesse caso é um egoísta coletivo, que influencia seus pares com atitudes que fatalmente serão prejudiciais a terceiros, em relação aos quais está se lixando de verde e amarelo.
O mesmo pode ser dito dos economistas, quando pensam em termos exclusivamente técnicos, deixando de fora as necessidades concretas de uma maioria despreparada para enfrentar mais despesas ou perdas salariais. E quando economistas pragmatas – essa classe ambígua – age movida por interesses políticos, como em geral acontece, encarna o pragmatismo mais lamentável que se possa imaginar. Porque, nessa esfera de ação, nada passa em brancas nuvens, nada é de curto prazo, e os prejuízos se repetem em cascata sobre suas vítimas.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Já dizia o Eclesiastes

A vaidade está se tornando uma espécie de inversão do óbvio. De defeito, está passando a qualidade reconhecida pelo senso comum e pacificamente aceita e aprovada. É até engraçado, às vezes, analisar o perfil do vaidoso assumido, desses que se adora e projeta sua imagem num halo de perfeição, que está convencido de que deve ser admirado, como se isso não fosse mais que uma obrigação do resto dos mortais.
Para quem tem um mínimo de senso crítico, o vaidoso é antes de tudo um ridículo. Mas a causa desse fenômeno de crescente envaidecimento da humanidade deve ter mais de uma explicação, como em geral acontece em tais casos. Obviamente a primeira causa deve estar na crença de que é a exposição o caminho mais curto para se obter sucesso e grana. Dá certo para muitos, por que não daria para ele? Como esses caras chegaram a ser considerados VIPs, como conseguiram a fama, tornaram-se celebridades e ídolos de multidões histéricas? Quem embarca no trem da vaidade nem cogita de investigar o que esses bem-sucedidos fizeram antes de chegar lá, como investiram em suas carreiras, quanto tempo de formação e trabalho tiveram para conseguir o lugar que ocupam agora.
Outra causa, talvez menor, mas igualmente eficaz, seria o incensamento da autoestima. Um duplo mal entendido, talvez, porque autoestima não consiste em se julgar melhor que o resto da espécie, e sim em estar bem consigo mesmo, viver a difícil paz interior, gostar da vida, sem alimentar mágoas nem sentimentos paranóides de inferioridade. Outra pode ser a crença, muito difundida hoje em dia – mas também muito simplória – de que aquele não se enaltece não consegue nada de bom neste mundo. Será mesmo?
O chato de dizer tudo isso é que fica parecendo uma pregação de moral, o que não é absolutamente o caso. Mas a fumaça de vaidade que se respira a todo momento parece mais densa do que nunca. Dá vontade de perguntar – o que você fez para se apresentar assim, tão arrogantemente convencido de seus dons de saber, beleza ou talento? Porque nada de muito sólido se consegue nesta vida sem um tempo significativo de dedicação, esforço e trabalho. E tais créditos nunca dispensam uma boa dose de humildade, no bom sentido de simplicidade, consciência do próprio lugar no mundo e disposição para encarar as limitações a que todos, cada qual a seu modo, mas sem exceção, estão sujeitos. Chegar a superar essas limitações exige coragem e luta, paciência e lucidez – valores que nenhum vaidoso vive de fato ou quer conhecer de perto.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Filosofia, poesia e gente



Uma dessas coincidências que chamam a atenção da gente aconteceu neste mês de junho, de quase-inverno insolitamente gélido (hoje, 11 graus no Rio!).
No dia 4, uma sexta-feira, o Segundo Caderno de O Globo publicou um artigo do antropólogo Hermano Vianna, que tem livros dedicados à cultura popular sobre o funk e o samba. Nesse artigo, no entanto, ele trata de um tema bem diferente: o texto tem por título “A nova metafísica”, e fala do livro Depois da finitude, editado em Paris, pela Seuil, em 2006, escrito por Quentin Meillassoux, que começa assim: “A teoria das qualidades primeiras e segundas parece pertencer a um passado filosófico irremediavelmente caduco: é tempo de reabilitá-la.” A partir daí, dado o sucesso que o livro tem alcançado, passa a comentar o fato de que o pensamento filosófico pós-68 já não anda tão firme como se tem propalado desde que Deleuze e Derrida publicaram suas obras. Ideias como o “correlacionismo” perdem sua força. O “correlacionismo”, numa explicação grosseira, defende que só conhecemos das coisas o que experimentamos pelos sentidos, que traduzem nossa relação com elas, mas não temos como conhecer as coisas em si mesmas. Ou seja, sentimos gostos, cheiros e vemos imagens, mas o que está “do lado de lá”, o real ou coisa “em si”, seria para sempre impossível de conhecer.
Mesmo levando em conta as teorias que a elite intelectual tem defendido desde aquele período, e admitindo a influência dessa linha de pensamento sobre o comportamento das sociedades ocidentais de modo geral, acredito que a ideia da metafísica tenha estado sempre infiltrada na visão de mundo das pessoas comuns e que sua influência nunca tenha se diluído completamente na vida dessas pessoas.
Em parte, talvez principalmente, isso acontece por causa dos conceitos religiosos, que remetem à existência de uma realidade extrassensorial. Se grande parte aceita a relativização da ideia de realidade, por outro lado existe para muitos a noção de seres a que se deve obediência, e acima de tudo a noção da criação, que dá às coisas que nos cercam um sentido sagrado. E se alguma coisa é sagrada, ela existe e é governada por leis que estão acima de nós. A enorme diferença é que nesse caso não se trata de uma convicção racional, mas de uma crença baseada na fé. E como a fé religiosa tem cores emprestadas da experiência infantil do desamparo e sua motivação é predominantemente afetiva, ligada à presença do pai e da mãe, percebe-se que, mesmo não se tratando exatamente da metafísica de cunho filosófico que vem dos gregos, elas, as duas formas de metafísica, se comunicam.
Cada qual a seu modo, ambas existem por causa da fragilidade humana, pela necessidade de alguma certeza em que se possa confiar: a dos gregos, falando figuradamente, a certeza de que se pisa num chão verdadeiro, que não vai nos engolir de uma hora para a outra numa ilusão de solidez; no caso da religião, a certeza de não estar sozinho e abandonado no mundo, mas poder contar sempre com a ajuda de um Pai ou uma Mãe celestiais, santos ou seres em que se possa acreditar incondicionalmente.
Mas lá no início do texto eu falava de uma coincidência. Pois aqui está o segundo termo dessa coincidência: descobri, alguns dias depois do artigo de Vianna, o poema de Nílson Galvão, em que ele fala desse mesmo fenômeno, dessa vez na linguagem de sua boa poesia:


O peregrino dos dias
                        Nilson Galvão
 
A eternidade está morta,
dizia o filósofo com os dentes
cerrados. Quanto a mim,
creio ter assistido a seu enterro
naquele dia fatídico. As pessoas,
inocentes, não suspeitavam de nada
e seguiam cultuando esse grande
e poroso espírito, a eternidade.
Fiquei ali perplexo, enquanto bebia
a morta. A eternidade exalava
distâncias. Meu coração escutava
miríades de estrelas e mistérios
da luz. Cantava junto com as
carpideiras, imitava seu ofício.
E ali a eternidade, em meio às
 flores amarelas e brancas
a murcharem. Meu coração escutava
o trespasse, fiquei velho da noite
para o dia, fiquei cego como têm se
tornado cegos os que insistem. Andei
pelo mundo com a lanterna inútil,
clamei por algum alento e nada:
a eternidade estava morta, era
inarredável, estávamos órfãos
em definitivo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

De imagens e palavras*






Van Gogh. Meio-dia.
 

O modo como as imagens têm sido tratadas em nosso mundo frenético é inadequado e irreverente, porque teima em ignorar a dignidade do que se vê. Não se sabe exatamente a quantas palavras equivale uma imagem. Ela pode ser uma fonte de palavras. Mas pode também suscitar apenas um silêncio contemplativo, uma reflexão muda.
Na linguagem do sonho as palavras se cristalizam em imagens, porque o caminho que elas percorrem é o da contramão da estimulação: em vez de afetar o neurônio e então ser percebida como imagem, a palavra vem do neurônio investido de volta à percepção. O sonho consiste de imagens e às vezes de palavras que são como recortes de uma colagem, fora do contexto regulamentar em que funcionam na linguagem. É frequente que um sonho apresente uma palavra – às vezes até uma frase – hermética, misteriosa, que figura ali como uma representação daquilo que a palavra pode querer dizer, ao invés de um termo no contexto usual da linguagem. A imagem verbal tem muito mais um caráter conotativo que denotativo no ambiente onírico. E o que ela significa pertence à esfera subjetiva de quem sonha. Mistura-se às imagens com um valor equivalente, é parte do enigma do sonho.
Se refletirmos nesse fenômeno, fica mais fácil perceber por que uma imagem nunca é a mesma para todos que a veem. Se isso é verdade, então como tratar as imagens como objetos fabricados em série? Palavra e imagem têm uma longa história de encontros e desencontros. Ambas estão ligadas à percepção visual e à memória. Ambas vêm impregnadas de sentidos e mensagens de variação infinita – que o diga Andy Warhol.
A criação literária é o momento privilegiado da palavra, quando se convocam imagens e estados subjetivos em função de uma criação única e intransferível, em tudo semelhante ao processo onírico. Não significa que o autor tenha a intenção de contar fatos autobiográficos, mas sim que a obra de criação é, como no sonho, autobiográfica, ainda que não seja confessional. O que se manifesta na obra de criação tem suas raízes firmemente cravadas na subjetividade. Há uma forma de sonho na obra de criação.
Palavra e imagem se fundem num texto que irá afetar de modos diferentes seus leitores. As pesquisas sobre o tema demonstram que a recepção individual do texto literário se dá em uma zona de condensação organizada pelo inconsciente e sua subjetividade. Os elementos que contam para o indivíduo que lê vão além dos conceitos vigentes da cultura e dos preceitos de sua sociedade – embora esses fatores sejam de grande importância e quase sempre determinem o sucesso ou o fracasso de uma obra em termos objetivos. Uma pesquisa puramente conceitual, no entanto, não dá conta do literário, assim como somente uma pesquisa psicanalítica não o conseguiria.
A explicação disso se deve em parte à disjunção palavra-coisa. É como comer o fruto proibido: a palavra ingênua quer designar a coisa, e uma vez perdida a inocência e percebida a precariedade da identificação entre elas, descobre-se que a coisa não está onde a palavra a designara, que já não há redução possível de uma à outra. Descobrimos que fomos vitimados por uma série de separações, quando acontecimentos como perdas, mortes ou omissões se reduziam a palavras que deixavam escapar seu verdadeiro sentido. O passado não cabe nas palavras com que o evocamos porque não foi e não será como o recordamos ou falamos dele. Também não podem prometer nada para o futuro, porque será sempre fantasia tudo que disserem a esse respeito. As expressões se gastam ao ponto do lugar-comum: terra natal, terra prometida, o céu na terra e seus análogos só nos dão a certeza de que “uma coisa sem nome nos acompanha” que não é “nem nossa origem nem nosso futuro” e que por isso é “nosso horizonte permanente” e também a garantia única de alguma “tensão da palavra no momento”**.
Por sua vez, a imagem pode exibir acontecimentos em outra dimensão, mas a ilusão de seu poder também é um risco. Não vale mais nem menos que a palavra: é diferente. Os limites, os vazios, as imprecisões e a multiplicidade das palavras e da linguagem têm uma espécie de contrapartida na imagem. As palavras reduzem e atenuam o real que a imagem resgata. Mas é bom estar atento a um engano também nesse domínio. A imagem reproduzida e divulgada ao ponto que a vemos na propaganda e na mídia se destina a criar novas ilusões, porque a experiência que ela oferece não é a experiência do real. Enquanto representação do real, a imagem merece respeito. Rebaixada a vendedora de ilusões e propagadora da mentira, é uma fraude lamentável, que faz da ilusão uma razão de viver.
Como em tudo nesta vida, o real tem que ser a medida de todas as coisas.
*Texto reeditado.
 
** Pontalis, J.-B. Perdre de vue. (1988) Paris: Gallimard.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Do português e outras providências



A língua portuguesa, a do Brasil em particular, vai sendo carcomida com rapidez e eficiência. No ritmo que vai, breve estará etimologicamente irreconhecível, gramaticalmente liquidada e sintaticamente mais deformada do que madame depois da décima plástica.
Não falo de expressões e regionalismos, que são parte da bagagem de qualquer idioma. Também não me refiro à gíria, às conotações que vão colando nas palavras naturalmente e só enriquecem a língua falada e até a escrita, dependendo do rumo escolhido. Estou pensando é na leviandade com que se escreve em alguns casos. Ninguém é obrigado a saber tudo. Mas dicionários e gramáticas existem para tirar as dúvidas que surgem na hora de redigir. E para o caso de projetos literários, existem técnicas, assim como para tocar piano e fazer massagem.
Somos todos ignorantes em muitas coisas. Passada a Antiguidade, mesmo os mais sábios entre os homens seriam incapazes de dominar todos os campos do conhecimento. Depois de séculos de avanço e efetivas conquistas, nossa ciência não deve saber ainda meio infinitésimo da realidade. Isso explica por que o conhecimento se tornou tão fragmentário, dividido em especialidades cada vez mais restritas, e por que são necessários conselhos regulamentares ou instituições que disciplinem cada setor. Excetuando-se os espertinhos de plantão, todo profissional que se preza sabe disso e respeita as normas de sua atividade.
Uma coisa no entanto me intriga: por que profissionais competentes em outras áreas acham que para escrever um texto não é preciso mais que juntar letras? Escrever um bilhete de qualquer jeito é compreensível e até perdoável, se você estiver com muita pressa. Uma carta, um parecer ou um artigo exigem um mínimo de decoro, assim como, com mais razão, fazer literatura.
Ouvi o contista Luís Vilela falar sobre isso, revelando que alguns jurados de concursos literários eliminam certos textos "pelo cheiro". Diante de um conto ou poema que comece mais ou menos como "o astro-rei subia no azul do céu", só resta um rápido exame para verificar se o texto em questão é uma paródia, gênero válido e digno de atenção. Não sendo assim, pode ser empilhado sumariamente com 80% das obras recebidas, todas escritas no mesmo tom menor. Falta atualização, conhecimento do métier, e muitas vezes o mais comezinho conhecimento da língua. Inspiração é um conceito meio mágico e, a não ser que se esteja falando do processo respiratório, em geral má conselheira. Tem que ser servida com molho de autocrítica, lastro de leitura e disposição para a pesquisa. Sem o que a gente pode se perder nos labirintos do verbo e ir parar no limbo cinzento e viscoso onde o astro-rei sobe no azul do céu e os autores sobem no telhado.