quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Uma pequena história do Não







Enrique Vila-Matas. Bartleby e companhia. Trad. Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

Partindo de “Bartleby, o escrivão”, conto de Herman Melville, autor de Moby Dick, Vila-Matas fala de nomes menos ou mais famosos de todo o mundo, que sucumbiram ao que ele chama síndrome de Bartleby. Não o faz porém em um texto corrido, mas sob a forma de notas, que hipoteticamente pertenceriam a trabalhos sobre esses autores. Em todas essas notas, o espanhol Vila-Matas discorre sobre as razões que teriam levado tais autores a desistir ou renegar a literatura ou algum tipo de arte, depois de haver produzido uma obra promissora.

O próprio autor das notas, um personagem fictício, seria ele mesmo um adepto da literatura do Não. Seu texto, fragmentário e fissurado, compõe uma imagem física da hesitação e do desalento que levaram esses autores à desistência e à pura contemplação. Assim como acontece com Bartleby, eles parecem repetir “preferiria não o fazer”, quando por exemplo Kafka, em um domingo chuvoso de julho, “sente-se invadido por uma total paralisisa de escrita e passa o dia olhando fixamente para seus dedos, presa da síndrome de Bartleby”.  Ou quando, com a Segunda Guerra Mundial, “a linguagem ficou também mutilada, e Paul Celan pôde apenas remexer uma ferida iletrada, em tempos de silêncio e destruição”.

O “espanhol velho e corcunda” inventado por Vila-Matas para escrever esse livro sui-generis – e delicioso – tem uma longa nota sobre Jerome David Salinger, que deixou de escrever depois de publicar quatro livros “tão deslumbrantes quanto famosíssimos”. Comenta ainda o artigo de Borges a respeito de seu conterrâneo, o poeta Enrique Banchs, também autor de quatro livros – inclusive o famoso La Urna – publicados no início do século XX, após os quais silenciou durante 57 anos, até sua morte em 1968.

Até um dos heterônimos de Pessoa, o suicida barão de Teive, autor de um breve e único livro, A educação do estóico, “fala dos livros que teria escrito, não fosse o fato de ter preferido não escrevê-los”.  O barão se matou, e para isso parece ter contribuído “a descoberta de que até Leopardi (...) estava impossibilidado para a arte superior.” E pior, Leopardi fora capaz de escrever uma bobagem como “sou tímido com as mulheres; logo, Deus não existe”.  Para o barão, isso provava que, em matéria de arte, “não havia nada a fazer, apenas reconhecer uma possível aristocracia da alma”. Ou talvez tenha pensado: “somos tímidos com as mulheres. Deus existe, mas Cristo não tinha biblioteca, nunca chegamos a nada, mas ao menos alguém inventou a dignidade”.

8 comentários:

Janaina Amado disse...

Dade, está lindo o novo visual do blog. Obrigada pela indicação de "Bartleby...", que não conheço, mas pela sua descrição parece fascinante. Um beijo daqui do outro lado do mundo.

Halem Souza disse...

Mas que ideia genial! Daquelas que dá uma inveja na gente do tipo "por que eu não pensei nisso antes?".

Numa época em que a (boa) Literatura dificilmente sobrevive sem falar de...Literatura, este livro é perfeito!

Muito grato pela dica. 13º chegando, mais um pra lista de compras. Um abraço.

costacarvalho disse...

Sei sobre o conto Bartleby, devido a sua fama. Nunca o li. É uma pena que, quando insistiram para que eu lesse Moby-Dick (leitura que comecei e nunca terminei), não me mostraram o conto Bartleby. Se não me engano, esse conto sobre o escriturário do “eu prefiro não fazer”, oriundo de um “escritório de carta morta” (não é isso?), fez de Melville precursor indiscutível do que ficou conhecido por “absurdismo”, o que, não se restringindo à literatura, alcançou a Filosofia e muito se colocaram em questão importantes aspectos da relação Ciência-verdade. Em suma, qual a importância de procurar o significado do universo, se esse significado não existe, exceto para o homem, quem o constrói?
Adorei essa postagem, com toda a sinceridade, adorei!
Muito valiosa!
Bjs.

Maria Teresa disse...

Dade:
Não vai dar para não ler o conto de Bartleby e companhia. O caso da empatia com as palavras é um universo sempre cheio de mistérios, que inspira, abre portas e caminhos. Adorei seu post.
Beijos.

Lord Broken Pottery disse...

Dade,
Sua indicação me fez lembrar de Raduan Nassar, outro grande escritor que desistiu da literatura. disse-me, recentemente, que agora é apenas fazendeiro.
Beijo grande

Gerana Damulakis disse...

Se vc gostou tanto, não deixe de ler O mal de Montano. E, se também gostar, vale a leitura de Paris não tem fim, A viagem vertical e os contos de Suicídios exemplares, porque Enrique Vila-Matas tem uma estética sofisticada que vicia.

Barbara disse...

A dignidade, esta , como você entitulou de "Uma pequena história do Não".
Lembro de García Marquez ter dito algo sobre essa síndrome numa entrevista com Roberto D'Avila mas não tão explìcitamente como você o faz agora.
Muito boa postagem.
1 abraço aí.

Ilaine disse...

Dade!

Fiquei imensamente feliz com sua visita no ensaios. Espero que tenha gostado e que volte mais vezes.

Está lindo aqui. Vou ficar um pouquinho mais para conhecer seus escritos.
Abraço, com carinho