quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Suco de gente

A noção de arte como “suco de gente” começou a frequentar minha cabeça a partir de um pensamento casual. Tinha tomado um suco de laranja delicioso e comecei a imaginar que aquela devia ser uma laranja diferente das outras, com mais recursos que suas semelhantes. Daí me veio a estranha ideia de uma laranja artista. Achei isso engraçado, mas logo esqueci.
Num texto sobre arte, a ideia volta à tona. Assim como a palavra “suco” sugere o melhor de uma fruta madura e gostosa, “artista” remete ao melhor de alguém. Mas como? – pensarão essas pessoas que exigem sempre expressões politicamente corretas. Então o fato de ser artista torna alguém melhor que os outros mortais? Afinal, nem todo mundo faz arte. E se a arte é o “melhor” de uma pessoa, fica implícito que o resto não tem esse melhor.
Nada disso. Há quem dê o melhor de si num consultório, num esporte, numa empresa, no comércio, na sala de aula, numa construção ou num almoxarifado. Ninguém é obrigado a ser artista para ser melhor em alguma coisa. A diferença está em que a arte é um dom que proporciona aos outros um motivo de prazer estético, ou seja, uma sensação intangível que se aproxima bastante da espiritualidade, porque, além de tudo, vem “de graça”.
Não que o produto da arte seja necessariamente místico, ao contrário: quase sempre a arte se refere e se alimenta da realidade mais concreta, do que se experimenta com os sentidos e nem ao menos corresponde ao que se convencionou chamar “o belo”. Sua afinidade com o que é espiritual vem do prazer que nos dá; porque o espírito participa do que dá prazer, mesmo que seja um prazer puramente físico. Isso parece um paradoxo dos mais empedrados; mas se desconectarmos a ideia de espírito do conceito religioso que ele costuma exprimir, vamos perceber com clareza que, ao nos suscitar um prazer autônomo e apontar para novos modos de entender e perceber o mundo, a arte enriquece nossa experiência de vida, afina a sensibilidade e amplia nosso repertório – ou seja, torna nosso espírito mais amplo e nos leva mais longe.
Mas é um pouco chato falar de arte com essa cerimônia toda. Porque a gente tem que viver e curtir arte no dia-a-dia, experimentar pelos sentidos o que ela tem de bom, em vez de só pensar nela. No quadro, no filme, no show, na música que ouvimos, no texto que lemos, no desenho de animação, no poema que nos toca fundo, a arte está ao alcance da mão. Tanto quanto o copo daquele suco da fruta mais doce, madura e deliciosa que nos faz tanto bem.

Imagem E.Manet. Carnations and clematis.

18 comentários:

Mari Amorim disse...

Adorei,
Passei para fazer essa deliciosa leitura,e desejar lhe
um ótimo final de semana,
Com Boas Energias !
bjs
Mari

Carlos disse...

Viver é a maior das artes e tem gente que faz isso com muito talento.

A sua arte é escrever, e vc tem muito talento também.

Sempre venho aqui, mas fico sem palavras pra comentar seus belos textos(eu sei, é um lugar comum, mas é verdade). Hoje resolvi deixar rastro.

Abraço!

lupussignatus disse...

o néctar

mais

im.
puro



*beijo*

Gerana Damulakis disse...

Adorei a ideia detonadora, o suco é o melhor da fruta. Lá em Portugal, fica mais significativo ainda: eles dizem sumo, em lugar de suco.
Como sempre, muito gostoso ler seus textos.

spersivo disse...

Grato pela visita e o elogio. Aprendi o caminho e vou voltar por prazer. Você tem muito bom gosto e talento. Abraços amazônicos. Silvio Persivo

KINHA disse...

Olá!
Gostei muito de seu blog com posts inteligentes e belas imagens.Se quiseres me seguir, ficarei muito feliz e te seguirei também.Espero sua visita.
BJKAS
http://amigadamoda.blogspot.com

Sandra... disse...

Bom dia Adelaide!
Como registrou o Carlos em seu comentário,concordo plenamente:"Viver é a maior de todas as artes",mas viver e saber extrair a beleza de tudo o que há e poder compartilhar tudo com humildade,é sábio!
***********************************
Passei para desejar um excelente domingão!Fica com DEUS e té+!
Beijos!

antonior disse...

A arte e os seus conceitos é um assunto interminável. Os filósofos modernos escrevem livros extensos para concluírem que não há conclusão. Acontece com Umberto Eco, com Warburton e outros. Como estou envolvido no meio, tenho ideias específicas acerca do assunto que, aliás, exponho nos primeiros posts do meu blog há cerca de dois meses atrás. No entanto, se não é possível fazer afirmações objectivas acerca do objecto de arte, no que toca à questão aqui colocada de que legitimidade dá o dote artístico a um ser humano para poder ser melhor que os outros, aí posso responder objectivamente. Nenhuma. Em termos de valores de dignidade somos todos iguais e iguais a tudo o que nos rodeia. Em termos do valor dos dotes específicos de cada um, todos eles fazem um conjunto que suporta a existência global. O artista precisa do pedreiro e este do cientista. Este último do médico e esse da peixeira....

Um abraço

Eliana Mara Chiossi disse...

Nossa, quando puder procure um livro chamado>
La mujer habitada...
Tem tudo a ver com teu texto.
Bj

Eliana Mara Chiossi disse...

acho que a autora é

Gioconda Belli


bj

Celso Ramos disse...

Ecos de Kant no seu texto....concordo contigo..a Arte aciona um real, ou seja, temos possibilidade de um outro olhar.
Ao me aproximar da filosofia de Heidegger foi que comecei entender este mecanismo. Ai eu comecei a pensar nestas possibilidades e desses pensamentos surgiram minhas baiontropifias (ler texto no blog).
Ref.
.HEIDEGGER. Origem da Obra de Arte, Edições 70.
Abraços,
baiontropifados.

Bill Falcão disse...

Perfeito, Dade!
A Arte faz uma falta danada! Ainda bem que a gente procura e encontra!
Bjoooooooo!!!!!!!!!

Barbara disse...

ISTO NÃO É POSTAGEM.
É AULA.
PARABÉNS.

Doroni Hilgenberg disse...

Adelaide.

Isso mesmo. Suco de gente,
basta um ingrediente fora do contesto para o suco virar saco!

Cada um da o melhor de si para
fazer a arte que melhor lhe convier.
Muitas vezes o ser humano não consegue exercer a sua arte, ou seja, passa a vida toda sem encontrar o seu verdadeiro dom para se dedicar aquilo que lhe dê prazer. É isso é como um ingrediente estragado na vida de
muitos, e é o que tráz a desmotivação para o exercicio de qualquer função que não seja destinada aquela pessoa.
Porque para mim,arte é produção bela e perfeita,é é comum a gente dizer: Ele faz de sua profissão "uma arte". Ou seja é perfeito no qu faz, não importa o que faça.
Nossa!! extrapolei...
bjs

Doroni Hilgenberg disse...

Corrigindo:
"contexto"

Adriana disse...

a arte como suco, que belas metáforas tens aqui.

Marcelo F. Carvalho disse...

Boa, Adelaide. Aliás, uma boa arquitetura também não é Literatura? E uma bonita e deliciosa comida? Não seria arte?
Pelo menos eu tomo artisticamente um cappuccino.
A Literatura está em tudo, até na "matemática".

Estela disse...

Oi Adelaide,
Gostei do texto,e deixo uma frase que li e guardei:
"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente." (Simone de Beauvoir)
Bjs.