terça-feira, 21 de julho de 2009

Literatura


Foto do lançamento do Blog de Papel.

Literatura é um pequeno abismo portátil onde de vez em quando a gente se joga. Vicia mais que qualquer droga. Às vezes, dependendo do regime de governo, pode ser até proibida. Serve para viver a fundo as coisas em que uma pessoa sensata não mergulharia, ou porque são repulsivas, ou porque não têm importância nenhuma de ordem prática.

É mais fácil dizer o que a literatura não é: não é útil, não dá dindim, não é pragmática, nem lógica nem relaxa ninguém. E ainda por cima às vezes tira o sono. Para o senso comum, literatura é coisa de maluco mesmo.

Mas quem precisa do senso comum? Para quem escreve, ela é fonte de alguma coisa que fica entre a alegria, o consolo, o alívio, a autoafirmação, o bem-estar do espírito, o refrigério do intelecto e a inefabilidade de um lado e, do outro lado, o trabalho árduo e persistente, para o qual se precisa muito tempo, paciência e solidão. Com o tempo, é quase a satisfação de uma necessidade orgânica. Sem falar no prazer que é ver um livro publicado, lido e comentado. Mesmo que o escritor faça aquela cara de modesto (é mentira, nenhum escritor é modesto), ele estará se sentindo orgulhoso de sua obra, compensado por ver aquele filho de papel e tinta multiplicado, circulando nas mãos de amigos e estranhos. Para ele, cada exemplar é O Livro. Ou, como diria Cortázar, todos os livros, o livro.

11 comentários:

Anônimo disse...

Dade querida, acho que é isso mesmo que você diz...

voltei das andanças lá longe.
Que tal um café na quinta?

Beijo enorme e muita saudade
AnaG

Barbara disse...

SU CES SO!

Sandra... disse...

Oi Adelaide!
Que linhas,héim?!Sua escrita esboça senso,sobre o que deseja expressar!
****************************
Obrigada!
Fica com DEUS e té+!
Beijos!

Maira Parula disse...

oi, menina, vc disse bem. no mais, só deus sabe o que move um otário a escrever. rs. bons tempos na foto. estou menos anta agora, adelaide. perdi uns litros. será que a inspiração se acabará? kkk
bjs pra ti

Maira Parula disse...

ah, sim, perdi litros pq agora sou AAA, alcoólica anônima autônoma.
tchau

Bill Falcão disse...

Cortázar sabe das coisas!
Bjooooooo!!!!!!!

Janaina Amado disse...

Adelaide, dizer alguma coisa bela e nova sobre literatura, como você fez neste texto, é proeza pura!

Marcelo F. Carvalho disse...

Adelaide, como diria Sartre: "a arte é uma generosidade inútil", mas conseguimos viver sem ela?
___________________-
Abraço forte, Adelaide!
E sucesso

Gerana Damulakis disse...

É exatamente tudo isso. Concordo com cada frase.

Halem Souza disse...

"Nenhum escritor é modesto"? Será mesmo? De todo modo, pulemos todos neste abismo. As outras opções estão longe de serem melhores. Um abraço.

Victor Colonna disse...

È isso aí Dade.
Texto fantástico! Fala exatamente o que move um escritor. Obrigado pela visita ao meu blog. Estou acabando de publicar meu segundo livro de poesia (Cabeça, Tronco e Versos). Seguem aí dois poemas do livro.

Grande abraço!


CURTO-CIRCUITO (Victor Colonna)


De repente eu paro e olho: é ele!
E desengato marcha-a-ré crescente
Meu rosto fica roxo, vermelho
E desamarra-se o elo da corrente.

Curto-circuito, incêndio, tragédia!
E meu cabelo arrepiado espeta
E meu pulso desencapado te choca
E meu corpo endiabrado, capeta.

E meu peito pega fogo: vida
Um calor que se desprende e solta
Amor é caminho longo: é ida
É só ida. Não tem volta.

SUJEITO OCULTO (VICTOR COLONNA)


O problema são as conjunções desconjuntadas
As interjeições rejeitadas
Os adjetivos desajeitados
Os substantivos sem substância
As relações de deselegância entre as palavras.

É preciso superar o superlativo:
O absoluto sintético
E o analítico.
Achar o verso
Entre o verbo epilético
E o pronome sifilítico.

Falta definir o artigo inoxidável
O numeral incontável, impagável.

Resta procurar o objeto direto
Situar o particípio passado
E o pretérito mais-que-perfeito

Desvendar a rima
Desnudar a palavra
Encontrar o predicado
E revelar o sujeito.