terça-feira, 23 de junho de 2009

Perspectiva às vezes engana


Paul Bracey. Mind prison.


A boneca está meio desconjuntada, braços de pano pendentes, cara de nada absoluto. Que bobagem, isso é uma contradição em termos. Como pode ser o nada absoluto, se é uma boneca, mesmo assim, quase se desfazendo? Verdade que existe o tempo – parte dela já virou pó, já não é a boneca que foi a princípio. E se não é mais aquela do início, começou a navegar no nada. Fico solidária mas um pouco assustada. O nada absoluto está em meu rosto também.





A formiga carrega seu pedaço de folha pelo caminho de pedra. Está no jardinzinho bem tratado, cheio de cores, que fica bem no centro do planeta e bem debaixo do pedaço da Via Láctea que protege nossos telhados.




Para mim ele está lá, mas o lá onde ele está é o aqui dele. Então podemos concluir que todos nós estamos em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo. E ainda dizem que só santo Antônio tinha o dom da ubiquidade.




Daqui do escritório, tenho a sensação nítida de que lá dentro, na sala e nos quartos, talvez na cozinha, estão meus pais, meu irmão que morreu novinho, meus tios e avós. Experimento a sensação bem viva dos primeiros anos, quando morava com eles. Às vezes havia alguém mais. Não posso afirmar nada, já que estou aqui no escritório e não dá pra ver o resto da casa.




Perspectiva e seu grande amor, Sofisma, moram em bairros separados, Razão e Imaginação. Têm uma bela prole que aumenta toda vez que um deles vai visitar o outro. Uma de suas filhas, chamada Mentira, ficou muito famosa e tem numerosos imitadores. Mas a filha que mais influencia as pessoas é Ilusão, uma linda moça de enormes olhos verdes, que anda sempre viajando no Mundo da Lua.

15 comentários:

Sarah Villas disse...

oi, adorei tudo, as perspectivas, muitas vezes nos levam a lugar algum, ou não! tudo depende de como encaramos os fatos.
bjuss!!!!!

Vieira Calado disse...

Olá, amiga!

Passei para ler e deixar beijoca.

Marcelo F. Carvalho disse...

"Para mim ele está lá, mas o lá onde ele está é o aqui dele. Então podemos concluir que todos nós estamos em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo..."
_________________________
AdÊ, que coisa mais bonita da porra (perdão)! Estou completamente identificado, do meu jeito, com essa passagem.
Estar distante e perto ou manter-se perto, mas distante é a ubiquidade de todos nós, acho.
___________________________
Abraço forte!

O Profeta disse...

Nasceu!
Nascem a todo o instante
Os sentires vindos da alma
Tatuados a cada semblante

Um beijo na tua procura
Um abraço fica suspenso
Um sorriso desponta da tristeza
Um olhar prende o momento


Bom fim de semana



Doce beijo

Graça Pires disse...

Várias perspectivas que podem levar ao engano de quem não estiver atento aos pormenores.
Gostei.Um beijo.

costacarvalho disse...

Adelaide:
Muito bom, muito mesmo!
Também gosto muito do que você escreve. Talento e originalidade não lhe faltam.
Obrigado por sua visita e espero por seu retorno.
Bj.

lupussignatus disse...

geo.métricas

micro

narrativas



[para nos

lermos]

Paulo Tamburro disse...

Excelenete seu blog, com textos nteligentes e de alto nível
intelectual,difícil de se ver na blogosfera.

Estou achando, muitissimo bom e aos
pouco voltarei a comentá-los.

Serei seu seguidor.

Um abraço

Sandra disse...

Oi Adelaide!
Achei este e os outros textos,muito inteligente...Você sabe utilizar as palavras com maestria,pois há qualidade em cada linha.Parabéns!
Com certeza voltarei ao seu espaço,para acompanhar cada postagem!
Fica com DEUS moça!Abraços e bjs!Té daquí à pouco!

Chris disse...

Gostei de conhecer este seu espaço.
Parabéns
Chris

Barbara disse...

Nada em sânscrito tem o sentido de infinito.
Donde podemos concluir que o nada é o tudo.
Perspectivas?
Todas ou nenhuma.
Depende, não é?

Dalton França disse...

Olá Adelaide!
Os devaneios do bem, a nulidade do mal e a sustentação literária da coluna do meio aqui estão sábia e elegantemente reunidos. Parabéns!
Um abraço!

Beth Cerquinho disse...

Ammmei tudo aqui no blog..parabéns..
Bjka e uma mega semana

O Profeta disse...

Uma paixão desapaixonada
Uma razão desencontrada
Uma palavra vazia de sentido
Uma inquietação gerada do nada

A calmaria é o fim da tempestade
Ou será o princípio da tormenta?!
As velas recolhem o vento
Minha alma acolhe o que o coração inventa



Bom fim de semana



Doce beijo

Janaina Amado disse...

Texto(s) maravilhoso(s), Adelaide. E muito bem complementado, em outra chave de discurso, pelo post seguinte.
Beijo!