sexta-feira, 3 de julho de 2009

Nunca é uma palavra de muitas frestas

As cores, assim como os sons, variam quase ao infinito. Tons e tonalidades são muito mais numerosos do que se imagina. O sol tem matizes e variações, é só prestar atenção para ver: o sol não mostra sempre a mesma face – às vezes está furioso e queima com raiva, mas às vezes acaricia a pele que nem homem enamorado. Os dias podem parecer iguais naquilo que os outros – do trabalho, da família, do governo, da comunidade – exigem da gente; mas nossa paisagem interna muda a cada hora do dia. É bom ficar atento a essas mudanças.
As diferenças que uma pessoa apresenta ao longo da vida, dos anos e até das horas se explicam pelos sentidos, que deixam entrar sempre o que interessa mais no momento. Se digo “nunca”, e na mesma hora meus poros se abrem, é porque na verdade o nunca queria dizer outra coisa e não era tão definitivo como se supõe. Nunca é uma palavra com muitas frestas. Quantas vezes entendemos uma frase de um modo bem diferente do sentido que lhe quiseram dar, ou nosso olhar modifica uma imagem. É fácil enganar-se com as aparências; basta que nosso desejo (que tem raízes inconscientes) prefira se iludir ou interpretar a realidade a seu jeito.
Mais complicado é se comprometer com o sempre. Quem escolhe o sempre como norma de vida, às vezes precisa repensar suas posições, sob pena de virar pedra. Se decidi pertencer a um partido, uma escola filosófica, uma religião, minha opção pode valer – até para toda vida – contanto que eu não perca a capacidade de avaliar minhas posições com revisões periódicas. Se o partido mudar de direção e adotar posições com as quais não posso concordar, está na hora de discutir e, quem sabe, mudar de rumo. Modos de pensar, religiões e ideologias são obras humanas. Mesmo no caso das religiões, que se gabam de sua origem divina, as instituições são coisa de gente e falham; podem se tornar opressivas, formar pessoas preconceituosas e crueis, porque facilmente tendem ao que hoje chamamos de fundamentalismo.
Diferente de virar a casaca por conta de interesses imediatistas de dinheiro ou de poder, diferente de ser oportunista ou trair uma corporação por falta de lealdade, mudar nossas posições diante do mundo é um direito humano dos mais legítimos. O que não é justo nem salutar para ninguém é arrastar uma posição insatisfatória, permanecendo em um lugar que não seja o escolhido. Assim como a roupa deve ser agradável à vista mas também nos dar conforto e bem-estar, é bom ficar alerta e, se for preciso, procurar o solzinho que entra pelas frestas do nunca para ver mais claro. Ninguém consegue ser generoso ou solidário se andar pela vida dentro de uma camisa-de-força.

Foto H. Cartier-Bresson.

11 comentários:

Anônimo disse...

Olá! O blog "O que elas estão lendo!?" está com sorteio. Como você é nossa seguidora, viemos aqui te lembrar que amanhã é o último dia para concorrer ao livro "Lemniscata" de Pedro Drummond.

Como participar? Só deixar um comentário dizendo: Eu quero participar!

Depois é só cruzar os dedos!

beijos e boa sorte

Equipe "O que elas estão lendo!?"
www.elasestaolendo.blogspot.com

Bia Pontes disse...

Bem, bem... o que dizer?
Ímpar, adorei.

beijos, querida!

Adriana disse...

gostei de tuas metáforas da roupa...é isso,deixar o sol transpassar.

b disse...

Nunca e sempre são questionáveis, porque NÒS somos questionáveis mas isso nem é ruim, porque a flexibilidade é saudável.
Prefiro estar andando em círculos mas em movimento do que estar num dos ângulos de um quadrado. Um canto.
Gostei.

Barbara disse...

RECADO IMPORTANTE NO BLOG
POR FAVOR REPASSE

Sandra disse...

Vi seu comentário em blog Uma interação de amigo e vim lhe agradecer a visita.
Com carinho
Sandra

Euza disse...

Andar numa camisa-de-força é limitar-se a viver pela metade. Nunca é tempo demais, mas é tb relativo, como o próprio tempo, né? Melhor ir construindo laços e desatando nós - assim a gente tece a vida de uma forma muito mais gostosa.
Texto excelente, Dade!
Beijocas

hfm disse...

Belíssimo, amiga. Que saudades!

Marcelo Novaes disse...

Dade,



Hum...


Deparei-e com o blog dos relativismos...



Certo!




Foi bom vir aqui.







Beijos,








Marcelo.

Regis Marques disse...

Oi, vim agradecer. E, surpreso, encontrei um verdadeiro tratado sobre a liberdade de escolha. Ou será sobre a dicotomia ser ou não ser? Muitas vezes me vi achando que meus achados eram para sempre. Noutras, não achava nada, nunca. Preferi continuar minhas buscas antes de estagnar em algum canto entre o espaço temporal dos meus quase 56 anos.
Foi bom e belo vir. Aliás, NUNCA mais deixarei de vir. Juro, é para SEMPRE! (Ou não, rsrs)
Beijo e obrigado pelo carinho lá no Palimpinóia.
Ps. Posso linkar?

Gaby Pardal disse...

Muitoooo bem articulado seu textoo. O secredo para se viver bem, é saber que não somos donos da verdade. E que apesar de dizerem que não a verdade pode ter muitas faces. É preciso ter personalidade para não se deixar levar, mas flexibilidade pra navegar por outras idéia.

beijos