quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Viver e suas variantes



Elliot Erwitt. Mother and child.


A dupla dor-delícia de ser quem se é e a serenidade são gêmeas bivitelinas. Conhecemos bem as diferenças entre ambas, e no entanto nos passam certo sentimento de univocidade – como dois conjuntos matemáticos com uma área em comum que de algum modo os define. São duas, mas uma precisa da outra para existir inteira.
A experiência mais completa de existir e a serenidade são semelhantes ao que os químicos chamam de elementos simples, irredutíveis. Convivem em harmonia e criam intervalos de prevalência; equilibram-se na gangorra dos dias, uma ajudando a definir e identificar a outra. Fertilizam a argila de que somos feitos como o adubo e a água fazem com a terra que recebe uma planta.
Só se vive plenamente sendo capaz de mergulhar nessas duas instâncias. Uma é necessária à outra; são como espelhos com sinais trocados, e por isso podem se contemplar e fortalecer mutuamente. Sem serenidade a experiência de estar vivo é menos intensa; os acontecimentos não se desdobram de todo, não mostram todas as faces que resultaram naquele e não em outro acontecimento. Entendem-se os motivos pela metade, criam-se julgamentos apressados, falhos, e fica muito fácil distanciar-se das pessoas por não ser capaz de compreendê-las. Sem serenidade (essa paz de dentro, que independe de sossego externo e até da própria paz social), o ego toma conta da situação – e o ego pode ser considerado uma instância emburrecedora por excelência.
Nem é tão difícil criar esse estado interior a que chamamos de serenidade. Começa com um olhar sinceramente interessado no que vai dentro de si; olhar-se como se fosse “de fora”, imaginando ver outra pessoa e suas alternativas.  Outra vantagem da serenidade é recriar a solidão como quem decora uma casa, ver novidades até no dia-a-dia, reavaliar a rotina, tornar o tédio um sentimento mais distante. Sozinho ou acompanhado, é possível aproveitar melhor o que a vida oferece de bom quando se é capaz de relativizar os maus momentos.
E como é improvável, senão impossível, que alguém consiga atravessar a vida sem sofrimento, ao menos vai encontrar em si um espaço mais confortável para seu próprio uso e para quem estiver próximo, porque a serenidade é resultado de uma espécie de ginástica interior, e dá força e agilidade mental a quem a conquista.

23 comentários:

macer disse...

Gosto muito do seu blog.
Obrigada.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Cara amiga.

Muito profunda esta leitura.
Penso que o sofrimento não deve ser visto como algo comum, mas embora raro, é necessário para nos tornar mais fortes, e entender a beleza da vida em sua plenitude.

Semana de muita ternura para ti.

Estela disse...

Vim lhe desejar um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de Amor.
Bjs.

Renata Luciana disse...

Dade,

uma vontade de sorver... fui lendo e me apropriando das vírgulas, não queria o ponto final, precisava de um tratado sobre o tema, mergulhei profundamente.

Obrigada!

Gerana Damulakis disse...

Muito bom. Adorei ler este texto, trouxe uma mensagem boa, um lembrete, um alerta. Vc é ótima.

Remeto a postagem Lisboa nos habita para seu blog, a próposito de Enrique Vila-Matas.

Nilson disse...

Oi, Dade, tenho buscado a serenidade (ops, rimou!) como uma espécie de mantra. Talvez tendo fé, o que eu tenho e não tenho! Gostei do seu blog, dessa reflexão em processo. E adorei a sua visita ao Blag!

Fred Matos disse...

Maravilha, amiga.
É sempre um prazer vir ao seu blog.
Beijos

Mara faturi disse...

Muito bom... ginástica mesmo, há que se exercitar ... acho que já o fazemos um pouco através da poesia não querida?
Gosto imensamente daqui;)
bjo grande!

Graça Pires disse...

Gostei imenso deste texto sobre a serenidade, essa que só dentro de nós se encontra e é até capaz de recriar a solidão.
Um grande beijo.

Maria Teresa disse...

Dade:
Agora não vou ler mais nada, para deixar a serenidade que captei aqui continuar comigo. Essa ginástica, busco-a diariamente; é a que exige maior empenho e a que oferece os melhores benefícios.
Adorei seu texto.
Beijo.

I.Moniz Pacheco disse...

Estou fora por uns dias, dei apenas uma passadinha rápida para agradecer sua visita. Gostei muito do que ví aqui.
Obrigada e Boas Festas.

Lord Broken Pottery disse...

Dade,
Gostei do texto, como sempre, mas me parece um pouco a busca da utopia. A serenidade é um estado transitório, pode durar mais e menos tempo. O ser humano é ansioso por natureza. De qualquer maneira é um bom alerta. Não há dúvida de que felicidade e serenidade estão muito ligadas. Só não tenho certeza quanto a qual dos dois estados chega primeiro.
Beijo

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Olá amiga.

Passei novamente para desejar-te um feliz natal.

Que o Natal reafirme em ti a certeza:
Não somos parte do amor,
somos o próprio amor.
Que possamos envolver nossas famílias, amigos e humanidade com a força deste sentimento.

Estrelas de paz brilhem em ti.

Doroni Hilgenberg disse...

Dade,

Boa reflexão
É o sofrimento que nos deixa mais forte e nos dá coragem para enfrentar desafios. E acho que é com a vitoria que sentimos aquela dor-delicia que nos trás aquela serenidade tão almejada.
A você e sua familia meus votos
de um F ELIZ NATAL pleno de luz e muita saude.
bjs

maria guimarães sampaio disse...

Dade, vou chegando aqui com a sensação de chegar atrasada. Vim agradecer sua visita, encontrei muitos é-amigos nos comentários. Por enquanto vi o texto de hoje. Pretendo voltar. "a serenidade é resultado de uma espécie de ginástica interior, e dá força e agilidade mental a quem a conquista"
Valeu!

cristinasiqueira disse...

Oi Dade,

Meu pai era um ser sereno assim admiro por gosto a serenidade.E você a detalhou tão bem.Fui caminhando com você na trilha deste estar em serenidade,entendendo ,alargando a consciência .Obrigada,você me agra
ciou com o tom da serenidade.



À você que me lê com o coração,

Suspiro pelo ano que se encerra e nos permite tempo de pausa para reflexão.
Durante um tempo longo fui sentindo,sentindo... as vibrações que circulavam ,claras e obscuras,
rápidas demais,fortes e frágeis,distintas e misteriosas,espertas e inocentes,confiantes e assustadoras,enfim
carreguei por todos os lugares um texto ,um amarrado de palavras que a cada noite se desvanecia,depois se encorpava,até que finalmente em uma tarde
se fez nascer ..."ANTES de TUDO".Senti alívio e o contemplei prosa a se dizer poema com olhos amorosos de mãe quando vê seu filhinho pela primeira vez.
Agora este texto é seu,meu presente de Natal,leia sem pressa,o examine lentamente,deixe-se ser tocada por êle.
Envolva-se com a sinceridade transparente com que o escrevi, com a delicadeza,com o tom suave e meditativo.
Compreenda o amor e a dor do texto,o luto e o nascimento ,a coragem a clamar por bravura,a solenidade,o consolo,a humanidade em nós semelhantes.
"Antes de Tudo"...postei no www.cristinasiqueira.blogspot.com

Feliz Natal

Cris

Janaina Amado disse...

Dade, pra dizer que é sempre MUITO BOM visitar seus blogs e textos. Estava com saudade, e lá da minha nuvem envio um abraço caloroso de Natal e Ano-Novo.

Érico Cordeiro disse...

Cara Dade,

Desejo a você um Natal repleto de alegria, saúde, paz e, sobretudo, muito jazz.

Um Feliz 2010, cheio de felicidade, sucesso e realizações!

Gerana Damulakis disse...

Dade; um Natal feliz. Receba meu beijo e minha admiração.

Gisela Rosa disse...

Um grande, grande abraço Adelaide!

Tudo, para si,
Gisela Rosa

Lord Broken Pottery disse...

Dade,
Volto para desejar Bom Natal, e feliz 2010.
Beijo grande

Dainty disse...

Bom texto. Valeu a pena lê-lo.
Obrigado.

Letras Express !!! By Aline Braga disse...

Que lindo! Amei o texto e tb a foto desse momento mágico e único em que a mãe contempla sua cria...show!

bjs e feliz 2010!