segunda-feira, 14 de junho de 2010

Filosofia, poesia e gente



Uma dessas coincidências que chamam a atenção da gente aconteceu neste mês de junho, de quase-inverno insolitamente gélido (hoje, 11 graus no Rio!).
No dia 4, uma sexta-feira, o Segundo Caderno de O Globo publicou um artigo do antropólogo Hermano Vianna, que tem livros dedicados à cultura popular sobre o funk e o samba. Nesse artigo, no entanto, ele trata de um tema bem diferente: o texto tem por título “A nova metafísica”, e fala do livro Depois da finitude, editado em Paris, pela Seuil, em 2006, escrito por Quentin Meillassoux, que começa assim: “A teoria das qualidades primeiras e segundas parece pertencer a um passado filosófico irremediavelmente caduco: é tempo de reabilitá-la.” A partir daí, dado o sucesso que o livro tem alcançado, passa a comentar o fato de que o pensamento filosófico pós-68 já não anda tão firme como se tem propalado desde que Deleuze e Derrida publicaram suas obras. Ideias como o “correlacionismo” perdem sua força. O “correlacionismo”, numa explicação grosseira, defende que só conhecemos das coisas o que experimentamos pelos sentidos, que traduzem nossa relação com elas, mas não temos como conhecer as coisas em si mesmas. Ou seja, sentimos gostos, cheiros e vemos imagens, mas o que está “do lado de lá”, o real ou coisa “em si”, seria para sempre impossível de conhecer.
Mesmo levando em conta as teorias que a elite intelectual tem defendido desde aquele período, e admitindo a influência dessa linha de pensamento sobre o comportamento das sociedades ocidentais de modo geral, acredito que a ideia da metafísica tenha estado sempre infiltrada na visão de mundo das pessoas comuns e que sua influência nunca tenha se diluído completamente na vida dessas pessoas.
Em parte, talvez principalmente, isso acontece por causa dos conceitos religiosos, que remetem à existência de uma realidade extrassensorial. Se grande parte aceita a relativização da ideia de realidade, por outro lado existe para muitos a noção de seres a que se deve obediência, e acima de tudo a noção da criação, que dá às coisas que nos cercam um sentido sagrado. E se alguma coisa é sagrada, ela existe e é governada por leis que estão acima de nós. A enorme diferença é que nesse caso não se trata de uma convicção racional, mas de uma crença baseada na fé. E como a fé religiosa tem cores emprestadas da experiência infantil do desamparo e sua motivação é predominantemente afetiva, ligada à presença do pai e da mãe, percebe-se que, mesmo não se tratando exatamente da metafísica de cunho filosófico que vem dos gregos, elas, as duas formas de metafísica, se comunicam.
Cada qual a seu modo, ambas existem por causa da fragilidade humana, pela necessidade de alguma certeza em que se possa confiar: a dos gregos, falando figuradamente, a certeza de que se pisa num chão verdadeiro, que não vai nos engolir de uma hora para a outra numa ilusão de solidez; no caso da religião, a certeza de não estar sozinho e abandonado no mundo, mas poder contar sempre com a ajuda de um Pai ou uma Mãe celestiais, santos ou seres em que se possa acreditar incondicionalmente.
Mas lá no início do texto eu falava de uma coincidência. Pois aqui está o segundo termo dessa coincidência: descobri, alguns dias depois do artigo de Vianna, o poema de Nílson Galvão, em que ele fala desse mesmo fenômeno, dessa vez na linguagem de sua boa poesia:


O peregrino dos dias
                        Nilson Galvão
 
A eternidade está morta,
dizia o filósofo com os dentes
cerrados. Quanto a mim,
creio ter assistido a seu enterro
naquele dia fatídico. As pessoas,
inocentes, não suspeitavam de nada
e seguiam cultuando esse grande
e poroso espírito, a eternidade.
Fiquei ali perplexo, enquanto bebia
a morta. A eternidade exalava
distâncias. Meu coração escutava
miríades de estrelas e mistérios
da luz. Cantava junto com as
carpideiras, imitava seu ofício.
E ali a eternidade, em meio às
 flores amarelas e brancas
a murcharem. Meu coração escutava
o trespasse, fiquei velho da noite
para o dia, fiquei cego como têm se
tornado cegos os que insistem. Andei
pelo mundo com a lanterna inútil,
clamei por algum alento e nada:
a eternidade estava morta, era
inarredável, estávamos órfãos
em definitivo.

15 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Só passei pra avisar que estarei lançando o meu último livro aí no Rio, na quarta-feira. Os dados estão lá no blog.
Beijo

Anônimo disse...

E pensar que o centro de todas as celeumas é a gente!
Muito bom, Dade, como já se espera e supera. E o poema do moço é um achado, ilustra o texto com louvor.

Beijos do César

Celso Ramos disse...

Olá Dade!!!
Não pude ler a maréria no jornal, mas concordo contigo que teremos sempre a existência de metafísicas a acompanhar o homem nesta caminhada...uma caminhada que incluí a construção do real. Agora você deverá concordar comigo que o caminho do pensamento filosófico contemporâneo em grande parte advoga um mundo sem Deus, Vide Luc Ferry (frança). Como acredito em Deus e nas coisas incodicionadas, aquelas que estão para além de uma explicação racional, pareço estar então enquadrado entre os caducos!!! Como o conceito de progresso do é estranho ao pensanto filosofico, estou tranquilo no que acredito.

« Katyuscia Carvalho » disse...

Dade,

Sempre um dar as mãos a uma boa reflexão o estar aqui.

O post também me remete à ideia de "mito", que acompanha a humanidade mesmo antes da religião [esta, quase um mito doutrinado].
Praticamente todos os povos, em seu sentimento de abandono num mundo hostil, tinham os seus [inclusive nossos indígenas, para não esquecer os africanos, até hoje]... embora a mitologia grega seja a que se oficializou.
Fico a pensar que a eternidade talvez não morra, mas mude!
Fico a pensar também em que mitos, fora do cunho religioso até, acalentam as sociedades hoje.
Todos nós, de uma forma ou de outra, precisamos de algum em determinadas fases da vida. Um povo sem "heróis", sem "ídolos", sem "ícones" fica um tanto érfão de identidade... Por isso penso que sempre existirão. O problema é: que caráter tem os "mitos" que por exemplo surgem perante os nossos jovens hoje?

Dá o que se discutir, Dade.
E que bom que você abre o mote!

Um beijo, com toda admiração.

Em@ disse...

Como sempre gostei. Incluindo da 2ª coincidência : o poema de Nilson Galvão.
Ah e deixe-me dizer-lhe que também adoro o novo figurino (para mim é novo pois não venho cá há algum tempo)e isto,porque gosto de lagartixas, jacarés e osgas, livros e pássaros e fundo tem a cor do deserto.;)
beijo , Dade!

Nilson disse...

Oi, Dade, é interessante. Mesmo não tendo lido o texto em O Globo, e tendo pouca intimidade com a filosofia em si, concordo com a ressonância. "Matei" a eternidade pensando no deus morto de Nietzsche, e também nos orientais, ou nem tanto, como J. Krishnamurti (conheces?). Nós, desamparados, em busca desta certeza projetada para além da nossa própria morte. No mais acho que as minhas questões no poema casam de fato com as que você descreve. Até porque, sem querer tirar onda, é isso mesmo, as construções intelectuais mais sofisticadas, aparentemente tão distantes dos deuses, acabam emulando o que há por trás destes e de seus reinados: a necessidade de permanência. Mas ela não existe!

Gerana Damulakis disse...

Bacana. Nilson é um poeta incrível.

dade: acabando g4 (talvez ainda hoje), cada vez mais certa que merece mesmo, vc sabe.

Barbara disse...

Identifiquei-me.
Pode estar certa de que fostes certeira - como sempre mas agora, estou eu a reler e estarei mais.

Alice disse...

Vc escreve mto bem .

FerMarPin disse...

Olá !
Continuo visitando você aqui, pois o badalar do sino não cessa.
Na minha recepção este blogue encrava (imobikiza-se) frequentemente, mas as crises vão findando passados alguns minutos.
Fernando

Mari Amorim disse...

Passei para ler e desejar um excelente final de semana,
Boas energias,
Mari

Fabrício Santiago disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog Universo Íntimo. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs



Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.


Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.


Abraços

http://narroterapia.blogspot.com/

evandro mezadri disse...

Belo texto e bela poesia postada, gostei do blog, muito rico, serei um seguidor.
Grande abraço e sucesso!

Fernando Farias disse...

Espetacular. Que alma bonita você tem. Viajei no teu blog. Senti inveja. Achei ima maravilha e outros adjetivos legais. Achei por acaso. Que sorte.
Fernando farias – Recife

Analuka disse...

Texto lúcido e instigante, Adelaide! Aliás, as visitas aqui dão sempre o que pensar... Sim, de incertezas e fomes, suspiros e sonhos, somos tecidos e são urdidos nossos dias e histórias!... E, se tantas vezes os seres humanos inventam suas muletas e verdades para espantar os medos, o certo é que pouco e quase nada sabemos sobre o enigma de nossa existência. Contudo, ficam os rastros da ternura, da doçura e da delicadeza, sejam quais fores as crenças ou descrenças defendidas. De minha parte, creio na importância de se viver com amor, intensidade e coragem, a despeito dos vazios, incertezas e abismos... Beijos pintados e alados, querida.