quarta-feira, 11 de junho de 2008

Fingidores


Menina a ler. Sem menção de autor.

"Poesia não vende", frase que é o lema de tantos editores e motivo de desalento para tantos autores, deve ter alguma explicação. Não acredito que só os doutores em literatura sejam capazes de apreciar um bom poema. Bem ao contrário, muito saber pode fazer um bom crítico, mas dificilmente fabricar um bom poeta ou leitor de poemas.
Também não creio que o tema seja causa de sucesso no gênero. Às vezes angústia, amor, solidão rendem bons poemas. Mas um poema depende menos do tema escolhido que do modo como é escrito. Boas intenções não fazem bons poemas, dizem os entendidos. Inversamente, um tema sem brilho e até escatológico pode vibrar de poesia. Exemplos mais à mão: Manoel de Barros: "Todos lhe ensinavam para inútil/Aves faziam bosta nos seus cabelos." É ainda ele quem nos ensina: "Há certas frases que se iluminam pelo opaco."* Rimbaud fala de si próprio como "o rapazinho ébrio do mictório da taverna, encantado com a planta diurética que dissolve um cálculo!"** Ezra Pound extrai da palavra usura um canto sombrio e lindo, que é como um baixo-relevo.***
Um poema é a expressão de uma vivência recriada. Tem tudo a ver com a concretude das coisas, os sentidos – "Quero apalpar o som das violetas./Ajeito os ombros para entardecer."* – e é servido pela música das palavras, pelas dobras onde as palavras escondem sua riqueza. Um poema não é desabafo nem panfleto, não está comprometido com um fim fora dele mesmo. É um trabalho artesanal e suas matérias-primas são sensações, percepções, memória, afeto represado (não necessariamente afeto no sentido de amar ou querer bem, mas no de ser afetado por alguma coisa que movimente a energia vital, a libido).
Pessoa diz que "o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente." Acontece que a poesia, eu acho, é uma forma de viver, de ver o mundo. A realidade é uma mina de poesia, à qual é preciso descer e se dispor a explorar – e quem desce a uma mina já sabe que vai enfrentar passagens estreitas, sujar a roupa, machucar as mãos e eventualmente corre o risco de ficar soterrado. Se o metal valer a pena...
A poesia está onde o senso comum nem desconfia. Quem vira a cara para não ver o mundo através de um olhar próprio, peculiar e intransferível (um pouco como o olhar das crianças); quem se acomoda no conforto do convencional, de certezas e verdades sem saída, não será capaz de reconhecê-la. "Desaprender oito horas por dia ensina os princípios."*
Por tudo isso, acredito que o pouco sucesso de livros de poesia no mercado se deva mais à formação deficiente da sensibilidade das pessoas do que à forma da expressão poética. E para começar a mudar isso, nada seria melhor do que incentivar, muito e desde cedo, a simples leitura de textos que não fossem auto-ajuda nem afins. Se a gente observar bem, verá que o caminho da poesia já se esboça em textos que não pertencem formalmente ao gênero: boa literatura, prosa bem construída, ficção de qualidade trazem sempre um traço de fantasia, linguagem criativa e boas imagens - ou seja, sementes de poesia.

*Barros, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 1993.
** Rimbaud, Jean Arthur. Uma temporada no inferno. Trad. Paulo Hecker Filho. Porto Alegre: L&PM, 1997.
*** Pound, Ezra. The Cantos. The Pocket Book of Modern Verse, s.d.

8 comentários:

Carol Timm disse...

Querida Adade,

Que belo texto sobre a poesia!!

Fiquei pensando... (sempre penso muito) "poesia não vende" porque as pessoas ainda não perceberam que o gênero literário que pode ser mais relido é a poesia. Jamais reli um poema e senti ou percerci as mesmas emoções de antes.

Um romance também pode ser relido, claro. Mas reler um poema é ser acordado por ele de outra forma.

Talvez falte aos pequenos sim, olhos com que ver o mundo da poesia, mas porque a poesia dos dias só se aprende no dia a dia.

Preciso dizer que se pudesse compraria todos os livros de poesia?

"O poema, essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face". Mario Quintana

Feliz retorno para ti. Que voltes da viagem com o coração pleno de poesia do sul.

Beijos,
Carol

Cris disse...

Boas intenções não fazem poesia, Adelaide ? Imaginava mesmo que não - elas ( as boas intenções ) só enchem o inferno, não é??? rsrsr
Muito linda tua reflexão sobre poesia. Eu sou uma fã sem talento, gosto de ler como o poeta lê a vida.

Beijão, querida.

Halem Souza disse...

Adelaide, adorei a postagem, principalmente este trecho: "A poesia está onde o senso comum nem desconfia"
A mediocridade é cada vez mais reinante até nos meios intelectuais onde ela antes era execrada; assim, não há poema que resista. Pessoalmente, também acredito que boas intenções não fazem bons poemas. E, sinceramente, não sei se é o caso de uma "formação deficiente para a sensibilidade"; de forma um tanto pessimista (como é comum nos minhas opiniões), diria que é simplesmente uma recusa total à educação estética e, por conseguinte, à educação para a sensibilidade. Ótimo texto mesmo. Um abraço.

Cris disse...

Oi, Adelaide ..Começando a semana. Talvez não mais consiga postar durante ela. Sobre o poeta, eue e meus alunos demos uma outra definição..rsrsr

beijão pro cê.

Marcelo F. Carvalho disse...

Pô Adelaide, há muito não fico assim: "poetizado" com um texto.
Obrigado por escrevê-lo,
Desculpa por roubá-lo!
_________________-
Abraço fortíssimo!

Vais disse...

Olá Adelaide,
prazer grande de ter lido seu texto, e vou com o Professor Halem neste destaque "A poesia está onde o senso comum nem desconfia"
quebrou tudo Adelaide, e o outro Professor, o Marcelo tem um ótimo gosto.
tudo de bom
beijo

Sofia K. disse...

A poesia é mesmo um estado de alma, uma realidade recriada e renovada. Creio que venderia se os leitores estivessem preparados para o 'deleite' que a poesia nos pede: a melodia das palavras, a cadência dos versos, a beleza da mensagemn escondida como os segredos dos amantes! É preciso tempo e estado de alma para a ler... é fruição!

Belo texto o seu.

Bijinhos

Marcelo Amorim disse...

Fico feliz que tenha gostado daquelas linhas, Adelaide. É bom saber que temos algumas afinidades, além do sobrenome ;-)
Vou voltar aqui com mais tempo, porque já vi que tem coisa muito boa por esse canto.