quinta-feira, 19 de junho de 2008

Nosso passado no Caribe



Como disse Ítalo Calvino em abençoadas palavras, as cidades se parecem muito com as pessoas. Umas são briguentas, irritadiças e perigosas. Algumas comem em excesso, algumas são rancorosas, e outras existem ainda que de tão lindas atraem muita gente, o que às vezes complica suas vidas e lhes tira a paz. De risonhas paisagens, no entanto, parecem estar sempre de bom humor, dispostas a viver a vida até as últimas conseqüências. Acredito que o Rio de Janeiro esteja entre estas, sempre assolado por gente de todos os tipos e latitudes. Muitas dessas gentes não têm onde morar, não conseguem ganhar dinheiro, e acabam engrossando as legiões inadimplentes dos moradores de favelas e bairros esquecidos de Deus e dos políticos depois que passam as eleições.
Diferente desse estatuto migratório e social, Havana é também uma cidade vital, alegre por natureza, embora não tão explicitamente quanto essa urbe sem superego que é o Rio. Superegos à parte, havaneses e cariocas têm em comum um passado colonialista quase fatal, a simpatia, o misticismo de raízes misturadas, o calor humano, a sensualidade e o jeitinho que quase tudo consegue, permite e encobre. Não é pouca coisa. Não depende de normas ou medidas governamentais.
Mas há um estágio desses dois povos que se encontra fora do tempo oficial, e que aqui no Rio tem hoje um sabor de coisa antiga que a gente vê em fotos cor de sépia e que as gerações chegadas depois dos anos 70 não testemunharam o suficiente para perceber sua natureza. Em Havana, ao contrário, essa fase perdura há décadas sem previsão de mudanças a médio prazo. O fato a seguir, narrado por um turista norte-americano, mostra que é forte o bastante para marcar uma semelhança fraterna, ainda que assimétrica, entre as histórias privadas de nossas cidades.
O turista em questão conta que seu despertador parou de funcionar quando estava em Cuba. Pensou em comprar outro no dia seguinte. Perguntou à dona da casa em que se hospedara onde encontrar uma relojoaria pelas imediações, mas a mulher abanou a cabeça sorrindo. “Não seja bobo. Pra que comprar outro? Leve o despertador a um relojoeiro aqui perto, ele conserta e pronto.” Mesmo sem fazer muita fé, o turista fez o que ela dizia. Entrou numa das lojas do ramo nas imediações e alguém lhe indicou uma gasta bancada de madeira iluminada por uma forte lâmpada e coberta de ferramentas e instrumentos do ofício, diante da qual um profissional trabalhava, os olhos protegidos da luz por uma pala preta. O turista, um engenheiro americano, identificou quase todos os instrumentos espalhados sobre a mesa. O homem pegou o relógio de sua mão e o examinou curioso. “Nunca tinha visto um desse tipo”, comentou com grande interesse. Depois o depositou na superfície a sua frente e habilmente checou a bateria, removeu o miolo, os pinos, olhou tudo cuidadosamente e tornou a montar o mecanismo. Nada. O relógio continuava parado. O homem refez a manobra toda, ainda mais atentamente.
Dez minutos depois, o engenheiro, acostumado ao pragmatismo que o mercado cultiva com afinco e eficiência em proveito próprio, perguntou se não seria melhor desistir, e tentou convencê-lo de vez oferecendo-lhe de presente as peças novamente dispersas sobre a bancada. Disse-lhe sorrindo que não perdesse seu precioso tempo com aquilo, não valia a pena. Já ia se despedir do relojoeiro e voltar à porta da oficina, mas o homenzinho o olhou com um misto de espanto e leve indignação. “Como assim, desistir? O senhor não trouxe seu relógio para consertar? Estou aqui para isso. É com isso que ganho minha vida; fui treinado para consertar qualquer relógio, e mesmo esse, um pouco diferente dos outros que conheço, pode ser consertado. Palavra de profissional.” O turista ficou calado, respirou um pouco mais fundo e resolveu esperar. Percebeu que estava ferindo os brios do homem e que, além disso, ele jamais compreenderia que o dono de um objeto passível de conserto se dispusesse a gastar mais dinheiro comprando outro. Recostou-se pois à lateral da bancada e ficou olhando.
Se fosse um natural da terra, com certeza iria tomar um trago na esquina e aproveitar o tempo olhando as mulheres que passavam ou fumando um cigarro. Mas não era, e sofria dessa retidão esterilizante dos homens pragmáticos, que não sabem gozar as aparas de liberdade que o tempo às vezes nos oferece de graça. Ficou portanto ali durante quase meia hora, comprazendo-se em ver e rever tudo que havia na oficina, concentrado na destreza do relojoeiro, o qual, tendo montado e desmontado as peças vezes incontáveis, soltou um grunhido de discreta satisfação. “Achei”, anunciou sorridente. “Entrou um tiquinho de umidade na máquina e ela emperrou.” Remontou o relógio em poucos segundos e o pôs a funcionar diante do dono. Tudo em ordem: bateria, mecanismo com movimentos regulares, ponteiros deslizando sem problemas, alarme em absoluto sincronismo e sonoridade. Cobrou sete pesos – trinta centavos de dólar. “Foram os 30 cents mais divertidos que deixei em 0Cuba”, diz o americano, até hoje encantado com o episódio, recomendando que ninguém deixe de recorrer aos maravilhosos profissionais em que o país é pródigo, “só pelo prazer de ver seus objetos sendo consertados por esses experts”, além de aprender ao vivo o valor que podem ter as coisas usadas e vislumbrar o enorme potencial de reciclagem que deve existir no mundo desenvolvido, onde há muito mais o que consertar.
As cidades vivem simultaneamente em tempo diversos. Talvez Havana seja nosso passado morando numa ilha do Caribe. Porque já vivemos nesse tempo em que a maioria acreditava que as coisas usadas têm um valor intrínseco e é sempre melhor consertá-las quando é preciso, porque sai mais barato; porque os objetos quase sempre são para seu dono algo que escapa à visão do deus burro, ávido e imediatista que é o mercado; porque é útil para o povo que haja espaços de trabalho tão acessíveis como os de relojoeiro, sapateiro, costureiros sem grife, profissionais que podem viver de seu trabalho sem pedir nada a ninguém e sem precisar de formação acadêmica.
Pode ser também que o turista americano tenha sido tocado de modo decisivo por algo de que ele nem ousou se aperceber claramente, porque não lhe é familiar a não ser mediado pela assepsia de palavras impressas ou imagens projetadas da poesia do obscuro, do dia-a-dia sem glamour, do velho neo-realismo italiano ou dos romances russos. Um estado de espírito que já vivemos intensamente, e subsiste apenas em uma faixa cada vez mais estreita da classe média baixa. O resto há muito já embarcou naquele trem de pobres festivos, consumistas e encalacrados, que preferem constar de todos os serasas da vida a cair de novo no limbo de uma vida sem dívidas e sem tevê digital.

3 comentários:

Cris disse...

Um texto como esse numa manhã fria de inverno faz completa diferença, Adelaide.Que delícia.

Beijão.

Cris disse...

Adelaide...
Timidamente, e por incentivo de uma pessoa querida, coloquei lá no sítio uma historinha de infância. Tua opinião é super importante pra mim.Se preferir ( se estiver muito ruim rsrsr) aí está meu email: urbe@flash.tv.br

beijão.

Anônimo disse...

Adelaide, me fez lembrar de um tempo em que havia sapateiros, relojoeiros e lojas de consertos de diversas coisas em nossa cidade. Ainda hoje, no interior, muitos desses profissionais existem e vivem desse tipo de serviço. Mas as cidades maiores já não têm lugar para eles, infelizmente. Em compensação, abriram espaço para todo tipo de picareta que se possa imaginar, querendo vender, vender e vender de tudo para todos.
Beijos nossos
Enylton e Célia