segunda-feira, 6 de agosto de 2007

De incunábulos e labirintos



Para os não eruditos ou iniciados, vale o recurso a pai Aurélio. Alguém me cutuca e pergunta de que terreiro. Vade retro, alma crédula. Falo do dicionarista mais famoso do Brasil, o Buarque, avô de Chico.
Incunábulo quer dizer origem, começo, livro impresso nos primeiros tempos da imprensa ou impresso produzido nos primórdios de qualquer sistema de gravar, compor ou imprimir. Vem do latino incunabulu, que significa berço. A palavra me pareceu tão engraçada da primeira vez que a li, que fui catar seu significado e nunca mais deixei de me ligar quando o assunto aparece.
Dito isso, vamos ao incunábulo que me inspira – o Hypnerotomachia Poliphili, de 1499. Ouvi meu pai fazer uma referência a esse livro nem me lembro quando, e fui à Wikipédia saber mais do que ele podia informar. Essa outra salvadora dos ignorantes e aflitos diz que é um dos livros mais enigmáticos da época renascentista. O título traduzido seria mais ou menos A luta amorosa de Poliphilo em um sonho, mas o autor é desconhecido, embora haja quem o atribua a Francesco Colonna. O jovem Poliphilo procura em sonho por sua amada Polia, uma ninfa. Isso o leva a passar por misteriosas florestas, cidades e labirintos onde encontra deuses, ninfas e outros seres mitológicos.
Lendo isso, imediatamente fiz a ligação de Poliphilo com a Ofélia do Labirinto do fauno, que acabo de rever. O filme foi co-produzido por México, Espanha e EUA, com roteiro e direção de Guillermo del Toro. Três Oscars e três indicações, uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, faturou o Independent Spirit Awards de melhor fotografia, além de indicado para melhor filme; teve três premiações no Bafta, além de indicado para várias categorias; ficou com sete prêmios no Goya: incluindo diretor e ator (Sergi López, o sanguinário capitán Vidal) e a atriz (Maribel Verdú, aquela maravilhosa Mercedes).
É curioso como os lugares fantásticos atraem autores e leitores de todos os tempos. Mas Labirinto vai muito além da fantasia e combina com mão de mestre a mais crua violência da guerra Civil da Espanha com o mundo de magia em que Ofélia se envolve enquanto vive a dupla angústia da guerra que a rodeia e da perda da mãe.
A fantasia não é gratuita. O mundo imaginário da menina alegoriza a resposta do roteiro às questões mais cruéis que o mundo dito real nos impõe. Se você é daqueles que não suportam filmes de fantasia, não deixe de ver. Além do visual perfeito e oportuno, longe de ser uma fuga, o mundo de Ofélia tem tudo a ver com o que acontece fora do labirinto.

5 comentários:

Analuka disse...

Adelaide, às vezes fico pensando que o limite entre os mundos "reais" e "inventados" é tão tênue que mais parece um limiar: quantos monstros e ninfas encontramos em nossos caminhos diários e labirínticos, todos os dias?... Diria, ainda, que vivemos em trânsito entre eles, eterna e etereamente entre, entre, entre... Abraços azuis alados, querida.

*Quero te fazer um convite, mas enviarei por e-mail!

Analuka disse...

Querida, tu conheces o professor Raúl Antelo?... Algo em teu texto me fez pensar nele... não apenas porque escavas e interligas significados, ou porque falas em labirintos... Mas há algo mais, por trás do véu da escrita, revelando céus e abismos, a partir da magia das letras aladas e da porta-palavra... Abraços!

Meneau disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Halem Souza (Quelemém) disse...

Bem, eu sou dos que adora filmes de fantasia, mas nunca vi O labirinto do fauno. Fica a dica (ih, rimou!). Já vou correr atrás. Quanto ao incunábulo citado, deixo pra quando eu ficar mais sabido (e torço que isso aconteça um dia). Um abraço.

Lord Broken Pottery disse...

Adélia,
Adoro filmes de fantasia que é, me parece, a alma da ficção. Sei que é pouco importante a informação mas o Aurélio não é avô do Chico. O parente importante dele é o pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. O Aurélio é alagoano, bem distante dessa turma inteligente aqui do sul.
Beijão