quarta-feira, 13 de junho de 2007

O argentino de Arraial d’Ajuda



Se eu soubesse que pedaço da África me esperava em Arraial d’Ajuda há tanto tempo, teria chegado antes.
Sabia dos mares verdes da Bahia, Salvador do mercado, do elevador Lacerda, capoeiras, acarajés e vatapás - dos quais tanta gente de má-fé me dizia que ficasse o mais longe possível, e eu felizmente não dei a mínima e convivi com eles na mais completa intimidade do tubo digestivo e só me fizeram bem, só me deram alegrias e prazeres inesquecíveis. Itapoã, Abaeté, as igrejas, Pelourinho, tudo isso eu sabia. Sabia portanto que a África estava lá de corpo presente em sabores, ritmos e rituais, nas roupas que fazem um dos encantos de lá, no temperamento negro daquele povo lindo, que celebra a vida todo o tempo. A África da Bahia é um continente de alegria, é a realização do melhor dos sonhos do cativeiro.
Mas o pedaço da África que se espargiu docemente em Arraial d’Ajuda foi o mais suave. Lá se pode refletir sem despertar assustado com cento e tantos decibéis explodindo de um trio elétrico acionado em hora inesperada. Lá se pode contemplar. Aliás, Arraial d’Ajuda é fruto de uma contemplação constante - do mar, das praias, do céu aberto, amigável até na tempestade, dos povoados e casarios coloridos que parecem de mentira para adoçar a vida. Pintores, escultores, fotógrafos, decoradores, sutis chefs de cozinha e donos de restaurante com vocação para a beleza e os prazeres da gula encontraram lá a química do clima ideal e as pessoas mais cordatas e suaves para ajudá-los na missão de tornar essa África baiana um paraíso diferente de todas as idéias preconcebidas que a gente possa ter sobre o que seja o paraíso.
E não fica só nisso. Logo ali, pouquinho adiante, fica Trancoso, cidadezinha quinta-essência, onde Portinari encontraria nos Coqueiros o cenário mais perfeito para passear a poesia e a paz de seus cavalos pela praia. Depois de experimentar o mar de Espelhos, Coqueiros e Nativos, nada mais indicado e salutar que subir para o Quadrado, a grande praça das delícias, e sentar nas mesinhas espalhadas debaixo de árvores maternais, em volta do imenso gramado plano com a igrejinha branca, irresistível, lá no fundo, recortada contra um céu esbanjado que se exibe com certo descaramento, sabendo que o mar está logo ali embaixo.



Walter Merlini é um pintor argentino, conhecido em seu país, onde foi um livreiro influente e de onde saiu por causa da recente crise econômica. Atualmente ele e sua mulher, Sandra, são donos da pousada mais charmosa de Arraial d’Ajuda, a Tubarão, ao mesmo tempo ateliê e exposição permanente dos quadros dele e da decoração descontraída e poética de Sandra. A pousada, onde se pode ouvir boa música da discoteca de Walter e fazer a sesta na rede da varanda de seu aposento, fica no largo onde termina a rua Bela Vista, que começa ao lado da matriz da Ajuda.

5 comentários:

sandra camurça disse...

Oi, Adelaide, passando aqui pra conhecer teu blogue e retribuir tua visita. Gostei do teu texto. Voltarei. Um beijo.

Sandman of the Endless disse...

Oi, Dade! Você fez uma visita à minha queridíssima Lu Melo e de lá chegei aqui. Gostei muito do seu espaço; adorei a sua prosa; ri da sua verve... Continue assim! Beijocas ;)

Analuka disse...

Querida, é sempre um prazer re-pousar por aqui, em tuas paragens poéticas... Hoje estou pensativa, num espaço azul entre o sonho e o abismo do mundo real, exatamente, transitando na coluna do meio...
Bom relembrar que, apesar de tudo, existe a beleza, o encanto, a luz, a suavidade da natureza que ainda sobrevive, a despeito da destrutiva mão humana... Abraço alado!

Maria disse...

Como é bom ler as tuas prosas !!!! Me deu uma saudade de Arrraial...Há séculos não vou lá !!! Tb gostaria de um "surto" igual ao seu !!!
Grande beijo

Maria disse...

Gostei tanto dos seus blogs que linkei 2 deles, ok?
Beijos