segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Universo em expansão e a novela das nove

         

Tela de Jacek Yerka.

           
Novela é uma ficção em câmera lentíssima, que se arrasta por meses inumeráveis pra contar uma história que caberia em uma semana. Ou, porque afinal tem muitos núcleos, como diz o pessoal da produção, em quinze dias no máximo dava pra matar aquele drama de gente de família, sem família e antifamília que se engalfinha, associa, trai ou vira as costas uns aos outros. Isso se percebe acompanhando o folhetim desde o começo, todo dia, pulando semanas ou de dois em dois meses, porque é incrível o quanto um autor de novela consegue esticar a trama, repetindo situações, repisando coisas já ditas e reditas, explorando a paciência dos atores, alguns dos quais ótimos profissionais que mereciam melhor destino.
Existem as do tipo pastelão, as “sérias” – que em geral viram chatas mesmo – ou as razoavelmente assitíveis, quando existe um roteiro bacana, algum suspense bem articulado, humor inteligente ou emoção genuína. Coisa rara. Quase sempre a novela escorre ralinha, escorada em um visual que atrai – paisagens, decoração, arquiteturas, modas, gente bonita – e serve para encher o tempo e refrescar os olhos de quem gostaria de frequentar os restaurantes mais caros da zona Sul (o que se come em novelas tipo a das nove é uma grandeza), tomar aquele café da manhã todo colorido, dar festas de arromba e comprar os modelitos que as moças desfilam. Pra não ficar doce demais, tempera com algum sofrimento em cenários de luxo e prova com uma cena de sangue que viver na favela não compensa (pano rápido, por favor, que ninguém precisa ficar poluindo a visão com essas baixarias).
Mas enquanto os personagens ruminam seus dramas pessoais, quase sempre bem mesquinhos, o mundo em geral passa em brancas nuvens (exceto quando chove no script) e se engorda o hábito alienante que as pessoas têm de relegar ao limbo da indiferença o que não for de interesse imediato.
A gente vive num planeta de uma constelação de uma galáxia de um universo, do qual – surpresa! – se diz que é plano e avança sem parar entre espaços negros que não se descobriu ainda em que consistem. Sabe-se pelas mídias que o planeta Terra está aquecendo, tem mostrado um mau humor literalmente tempestuoso e as geleiras, que sempre dormiram quietinhas em suas montanhas polares, estão de repente soltando pedaços, icebergs que derretem e fazem subir o nível da água dos oceanos, mudando climas e estações. Há quem culpe a ambição capitalista por suas emissões de carbono, mas há também quem acredite simplesmente que se trata de um ciclo na vida do planeta, tipo dos que se sucedem há milhões de anos. Pode ser que as duas coisas estejam pesando, mas não queremos pensar nisso.
Enquanto tudo acontece, nós, os noveleiros, ficamos diante da tv ligadões no drama de Luciana, na chatice de Isabel e da maluca da Ingrid ou no mau humor de Jorge. Não interessa saber que bicho vai dar ou vai sumir, como os dinossauros sumiram em uma era passada. Preferimos não pensar no assunto, que afinal cabe aos cientistas estudar e explicar. Mas será que é melhor esquecer que moramos numa grande área de risco, não uma encosta aterrada sobre um lixão, mas uma terra que treme, se abre, e que o mar pode engolir?
Nada disso precisa nos arrasar e deixar pessimistas ou aterrorizados. Afinal, é provável que esse ciclo demore séculos, que o homem aprenda a lidar melhor com as catástrofes naturais e que se descubram meios de ampliar ainda mais o tempo da vida humana, porque as pesquisas e a ciência têm feito verdadeiros milagres. E se isso não acontecer, continuamos a ser os mortais de sempre – grande novidade – só que agora com um estímulo a mais para descobrir coisas novas, que nem as novelas, o consumismo ou o voyeurismo vão nos dar. Já que a vida tem fim, ao menos vamos aproveitar o que ela nos oferece de melhor que os subprodutos da televisão.

12 comentários:

Celso Ramos disse...

Pois é Dade....
credito que agente vai levando a vida assim como a assistir uma novela porque do jeito que as maracutáias acontecem, as catastrofes se anunciam e os paises ricos continuam explorando os pobres que pensam que estão em desenvolvimento..só mesmo um roteiro de novela. A semelhança entre o roteiro de tv e aquele que agente vive no dia-a-dia é que já sabemos o final de muitos núcleos nesta teia em que nos encontramos!!!!
Belo texto, abraços!!!

Halem Souza disse...

Atire a primeira pedra aquele que nunca foi "noveleiro"...

Mas o meu tempo passou... As últimas assistidas - capítulo a capitulo - têm mais de vinte anos (Vale tudo e Que rei sou eu?.

Outra coisa, Dade: além de "refrescar" a vidinha, tem mais um treco que me encasqueta em telenovela: ninguém trabalha! Tirando as do Dias Gomes, nunca se mostra as pessoas exercendo suas profissões. As personagens que têm empregos ou acupações (raras), estão sempre em casa e, quando no local de trabalho, ficam sempre papeando...hehehe...

Bem, eu acho que esse planeta não tem mais solução mesmo... Será que devo voltar a ver telenovela ou "tocar um tango argentino"?

Um abraço

Nadine Granad disse...

Escreves bem!

Rs... não há como não rir, porque não há como não encontrar abrigo em suas linhas!

Abraços =)

Maria Teresa disse...

Ai, ai, ai, Dade! Já vi muita novela e, no momento, estou longe da telinha. No entanto, funciona como aquele vício que embriaga e faz cair: não posso ver um único capítulo...
Bjos

Inês disse...

Bom texto!
Essa lengalenga novelística infelizmente veio da época da Ópera (ou provavelmente de antes), quando os atos eram muito repetitivos pra que a aristocracia pudesse entender a história ao mesmo tempo que se dicava à desfilar, fofocar e bisbilhotar.
Dureza!
Quanto à minha personagem...
É tudo verdade mesmo.

Um beijo!

Kanauã Kaluanã disse...

Dade,

Tivesse eu um jornal ou revista, tu serias a colunista, cronista principal.

Muito bem discorrido e fundamentado teu texto. Penso que toda programação de massa influencia como um tornado o pensamento coletivo. E percebo nas novelas tudo o que relatas, falas cada vez mais pobres, fúteis; tramas previsíveis, apelação à baixaria, enfim, o que poderia ser "arte" vira mais um pacote de lixo da mídia.
E o que muito me revolta é uma frase feira que sempre ouço, seja quando veiculam músicas vulgares e decadentes, seja quando a baixaria assola Big Brothers e novelas: "mas é o que o povo gosta!"
Não. Definitivamente não é.
A mídia, como já disse, é formadora de opinião, pode injetar na consciência social antítodos contra a alienação ou o seu veneno.
Já vi o "povo" correr a procurar nas lojas de disco por músicas de qualidade porque estas foram apresentadas num programa de auditório, por exemplo, no domingo. Ou mesmo fazem parte da trilha sonora de uma novela e querem de repente saber quem é aquele artista da MPB conhecido só no exterior.
Quantos da nossa geração não conhecem nossos grandes nomes da MPB? Muitos! Um país que não se conhece pelo que tem de bom. E a mídia é culpa disto.
Gostava muito de uma frase do Herbert de Souza que dizia de como a mídia controla a sociedade, e esta não tem nenhum controle sobre a mídia. Controle, como ele queria dizer, não é censura. Não. É apenas ter o direito de querer qualidade no que adentra ou invade o nosso lar.

Dade, desculpa prolongar-me tanto, mas como professora eu via o tempo todo o desinteresse das nossas gerações pelo que realmente interessa, e é triste gerações sem ídolos, sem sonhos, sem heróis, ou pior, quando estes heróis são os anunciados pelo Bial.

Beijos.
.
.
.
Katyuscia

Anônimo disse...

Desproporções existem, e como.
Mas vai demorar pra convencer a galera. Não mata ver novela, mas se virar fixação é perda de tempo e emburrece.

Besos!
Kelly

Elza Fraga disse...

Dade, eu me ative ao subtexto [desculpe mas depois que mudaram as regras do portugues nem sei mais se é assim que se escreve subtexto, rsrs]
E o que me apavora é saber que a Terra se rebelou depois de tanto mal trato, deu um piti, entrou em rota de colisão com o ser humano.
E se sacode ensandecida pra que a gente se desgarre dela.

E pena que isso não é só novela, é terror em tempo real.

Parabéns pelo belo texto!
Bitokitas, paz e luz.

Graça Pires disse...

Gosto deste seu jeito de olhar as coisas. Isso das novelas é mesmo assim...
Beijos.

Nadine Granad disse...

Dade:

Eu quem agradeço!
Sua presença é que brilha como jóia rara!

Seu blog é fabulososo!

Abraços carinhosos =)

Fred Matos disse...

"...é incrível o quanto um autor de novela consegue esticar a trama, repetindo situações, repisando coisas já ditas e reditas..."

Faz muito tempo que não vejo um único capítulo de novela, mesmo antes de aderir à tv a cabo, mas confesso que acompanhei muitas novelas, sobretudo as de Dias Gomes, e me recordo agora de "O Bem Amado", "Saramandaia", "Bandeira Dois" e "Roque Santeiro" que, creio, foi a última que acompanhei. Acho que o gênero perdeu muito com a morte de Dias Gomes.

Sempre bom te ler.
Ótima semana.
Beijos

Em@ disse...

belo texto, Dade.
eu quando quero descansar a minha cabeça e sossegar o meu coração prefiro ver uma sitcom e rir, rir, rir. nunca fui muito de novelas e últimamente nem sequer vejo tv.leio 1 jornal diário, uma revista e jornal semanais e chega-me!Claro que se souber de algum assunto importante vejo os noticiários.aprendi a defender-me assim, porque se não stress dava cabo de mim.

beijo

ahhhh, no Em@ há uma coisa à sua epera. procure, por favor.