segunda-feira, 19 de abril de 2010

Do mercenarismo e suas vicissitudes



Sou uma revisora arrependida. Deus sabe – hélàs! – como gostaria de não ter empregado tanto tempo em tão desgastante função. É um meio de vida como outro qualquer, porém mais trabalhoso e sofrido do que acredita a maioria das pessoas. Os profissionais que conheci no setor eram em geral pessoas competentes e dedicadas. Mas quase todo mundo ouve falar dessas ocupações distraidamente e tem apenas uma vaga idéia do que fazem copidesques e revisores.
Copidesque e revisor são assim como empregada doméstica: só chama atenção pelo que não fez. É um ofício que funciona no negativo. Quanto mais você ralar, quanto melhor ficar seu trabalho, menos vão reparar em você (exceto talvez no que diz respeito a seu chefe imediato, e assim mesmo nem sempre). Não tem representatividade; não acrescenta nada; não cria e não progride na carreira, a não ser que o coordenador editorial se demita e seu chefe acredite que você está apto para o cargo. Isso quase certamente significará um acréscimo simbólico em seu salário e um aumento caudaloso de responsabilidade, trabalho braçal multiplicado e dores de cabeça cotidianas por conta dos setores envolvidos no processo.
Além disso (felizmente por pouco tempo), fui ghost-writer. Mais fácil de entender, o trabalho ficou ainda mais conhecido depois que Chico abordou o tema de modo tão fiel, embora meio caricatural, no ótimo Budapeste. Mas só quem passa pela coisa ao vivo e em cores alcança o grau de angústia que ela pode provocar.
Para mim, ao menos, era como ter um filho e cuidar dele para depois entregar aos pais de adoção sem me deixar identificar. É mais ou menos como alugar a barriga, engravidar, parir e amamentar "a serviço". Quem escreve sabe do que estou falando.
Há quem contrate os serviços de um ghost-writer e passe a se considerar mentor de seu trabalho, confundindo a propriedade do texto com a de quem o realiza. Em casos mais difíceis, seu contratante (doravante assim chamado no contrato de trabalho) passa automaticamente à condição de seu amo e senhor em horário integral: você pode ser procurado no meio de um casamento – ainda que seja o seu –, numa sessão de cinema, na academia onde estiver malhando, durante as refeições e/ou às três da manhã, esteja ou não fazendo o que se costuma fazer a tais desoras, inclusive dormindo.
Se a obra for de ficção ou quanto mais o contratante acreditar que seu texto lhe abrirá as portas da fama e da riqueza, fácil, fácil se estabelece um conflito que acaba afetando a sintonia fina da relação, porque ele ou ela odiará você por estar lhe usurpando o prazer intransferível de escrever uma história que é dele (ou dela), usando suas idéias, bens infungíveis de sua propriedade, e – ainda que inconscientemente – estará arrependido de tê-lo contratado, julgando que você não corresponde às expectativas e está vilipendiando sua obra-prima.
Você poderá até se tornar persona non grata aos olhos do contratante, que, no entanto (saco!), precisa de seus trabalhos, de sua redação, de suas palavras, enfim, desse ser desprezível que demora a consumar a obra brilhante que se esperava dele. E como ele ou ela está lhe pagando (em sua opinião regiamente) para desmanchar seu (dele) prazer, exigirá que você produza no mínimo um best-seller que o torne um autor de fama internacional e uma pessoa abastada para o resto da vida.
Ele ou ela vai esperar isso de você ainda que o tema ou o enredo a ser desenvolvido seja pífio e sem consistência. Você pode ainda descobrir, lá pelas tantas, que a matéria-prima a desenvolver não passa de um plágio descarado – como me aconteceu uma vez. Contratante também pode carecer de ética, e aí contratado precisa estar atento pra não embarcar numa furada.
Ghost-writer que se preza sabe muito bem que, se alguma coisa puder dar errado, vai dar: sua atividade é regida pela lei de Murphy. Ele, que não recebe elogios pela boa qualidade de seu trabalho, na certa será solidário para responder por alguma possível ilicitude ou ofensa provocada pelo texto que ajudou a criar.
Bem feito. Mero e simples escriba mercenário, que se vire com seu amor às palavras, seu apego ao texto, seu prazer masoquista e pervertido de escrever mesmo em circunstâncias assim mesquinhas e ainda se regozijar (em segredo, por favor!) com o sucesso que possa alcançar esse filho bastardo.

10 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Dade,
Deveríamos usar o termo escritores fantasmas, até pelo fantasmagórico da função que você tão bem relata. Feliz daquele que teve um texto seu como se fosse dele.
Beijo

Celso Ramos disse...

Olá Dade!!!

Viver na invisibilidade deve ser difícil mesmo..mas você tem a felicidade de trabalhar com o que te da prazer...isso não tem preço!
Tô lembrando um dia em que peguei o ônibus e trocador me falou assim: ___ 15:00h,queria eu largar essa hora!!
Ao que lhe respondi:
__Se você enfretasse a turma que enfrentei agora, acho que agradeceria por seu trabalho!!
Vou recorrer ao oráculo contemporâneo que diz:
"ado aado cada um no seu quadrado"
Araços!!

Graça Pires disse...

Por aqui acabou há muito a função de revisor. E a falta que faz...
Claro que ninguém lhe dava importância e só repartavam quando algum erro passava. Agora passam erros e mais erros... Gostei de ler o texto. Um beijo.

Janaina Amado disse...

Dade, sua melhor profissão é a de autora de seus ótimos textos, como este. Beijos.

Maria Teresa disse...

Dade: nunca fui revisora, mas professora de redação, sempre. Entendo bem sua angústia diante das palavras mal posicionadas e maltratadas. Mas como o Celso Ramos acima disse, apesar de tudo, você tem privilégios por ter "penetrado surdamente" no mundo a que bem poucos têm acesso, pois conhece muito bem os segredos da fechadura.
Bjos

Gerana Damulakis disse...

Eu gosto de fazer revisão, mas concordo (e achei a analogia muito boa) que o trabalho só aparece quando se deixa passar algum erro.

Chorik disse...

É duro ser responsável pelo esgoto. O trabalho só aparece quando fede. Quanto ao gost-writer, tô precisando de uns textos pro meu blog...rsrs

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga Dade.

Hoje a minha visita é para agradecer.
Nestes dias que celebro a minha vida,
tenho certeza de que a mesma
não teria o brilho de hoje,
se não fossem os amigos e amigas
que a tornam valiosa
mesmo que distantes.

A ti gostaria de dizer obrigado:
Obrigado pelas visitas ao meu blog.
Obrigado pelas palavras semeadas.
Obrigado por sentir os meus textos
com os olhos do coração.

Sou eternamente grato a vida,
por mais estes presentes
que de modo gentil
deixas em minha vida,
fazendo de mim uma pessoa melhor,
e pleno de felicidade.

Lindos dias de vida para ti.

Diego Cosmo disse...

http://dcosmo.blogspot.com/ - Nova postagem! "cosmo a pé"

Mafalda Santos disse...

O destinatário nem sonha com o que está escrito há muito no meu blogue!

Gostei muito deste blogue.
Beijo, Boa semana