terça-feira, 13 de abril de 2010

Em dois mil e cinco








Sim, estamos em 2010, não delirei.

Mas levando em conta que o arsenal de energia nuclear do Irã – e sabe-se lá se outros – volta a preocupar o mundo com suas ameaças latentes; que a tensão no Oriente Médio não relaxa: que o terrorismo instituído não só não sumiu da face da Terra como continua a nos fitar com aquele olhar gelado dos fanáticos; que o homem não se corrigiu de lá pra cá e continua retaliador e violento; que - apesar de pequenas variações ainda insuficientes – os interesses de mercado continuam pondo o lucro acima de qualquer outro valor. Considerando que o procedimento dos políticos mudou muito pouco nesses cinco anos, se é que mudou mesmo (às vezes parece que, sentindo alguma pressão e vendo um ou outro arruda sofrer as consequências de seus atos, eles aprendem a dissimular um pouco melhor aos olhos dos eleitores incautos). Enfim, considerando a humana capacidade de perseverar no erro e exercer a irresponsabilidade ad nauseam, reli a crônica aí abaixo e senti um gosto ruim de nada-mudou.

Na dúvida, fui escovar os dentes e passar um listerine nas mucosas bucais. Mas o gosto continuou, e então queria testar com meus quatro leitores se é isso mesmo ou se já ingressei na fase da rabugice mais aguda.

Vejam só: substituindo 2005 por 2010 e 2006 por 2011, parece que no conjunto mudamos bem pouco.

Dois mil e cinco foi embora como o ano da grande frustração, do recrudescimento da guerra e das grandes catástrofes – culpa do homem, quase sempre. A coisa foi tão desastrosa que se teve a impressão de ter dado um passo atrás, rumo aos tempos bíblicos ou medievais.

Desejar mil venturas para 2006 talvez fosse um pouco excessivo. A expectativa possível era a de que apesar de tudo a democracia continuasse a vigorar no país e em todos os outros onde já existisse; que as encrencas resultantes da fraude, da triste tradição da corrupção endêmica e da esperteza generalizada encontrassem exemplares mais light entre políticos e cidadãos em geral e que aos poucos se tomasse consciência de que não é por aí; que ao menos os apetites fossem moderados, o que bem podia acontecer se as eleições respondessem com um bom gelo e  falsários e ladrões perdessem as benesses e o emprego.

A esperança era eleger o menor dos males em 2006. Não me perguntem como se chama esse senhor, porque nem desconfio. Mas podia ser o início de uma aliviada em nosso pesadelo, não custava sonhar um pouquinho numa data como essa.

Pena que o iceberg malcheiroso que despontava em 2005 continua emergindo até hoje. Nossa esperança não vingou.

Quanto ao resto, já era isso mesmo de agora: o planeta reage ao vírus chamado homem, que o deixa doente de secas e inundações, que desequilibra o andamento natural das coisas com seu olho desmesuradamente grande e sua ambição desmedida, que serve a poucos e deixa cada vez mais gente sem o essencial pra viver com decência.

Por tudo isso, neste ano ainda não vai dar pra desejar mil venturas. Sejamos realistas, é melhor. Nada de achar que nada disso importa, porque essa filosofia de vida só nos leva cada vez mais pra dentro de um buraco sem fundo. Melhor mesmo é ficarmos atentos, conscientes do que nos rodeia e nos ameaça, como por exemplo o comportamento de nossos dignitários.

Na pior das hipóteses, de olhos abertos e ouvidos afiados, ao menos preparamos o espírito para aguentar o tranco, que não nos pegará de todo desprevenidos – o que às vezes é essencial, vejam o que aconteceu com quem conseguiu prever o tsunami e por isso escapou com vida.

E na melhor delas, ao menos poderemos sorrir de novo com alguma esperança diante de um indício de que as coisas estão mudando para melhor. E também podemos ao menos desejar que cada um de nós e cada família tenha um ano mais propício, porque às vezes acontece. Amém.

9 comentários:

Gerana Damulakis disse...

O nada importa parece o caminho mais fácil. É preciso ficar ligado, concordo.

Maria Teresa disse...

Dade:
O pior é que tudo aquilo que ficou pra lá há cinco anos parece coisa de somenos, diante da problemática gigantesca do que vinga por aí. No entanto, parece que as palavras ajudam a minimizar as angústicas. Ainda bem!
Beijos

Graça Pires disse...

Um texto para meditar. É verdade. Nada muda. Os homens continuam retaliadores e violentos...
Um beijo.

Janaina Amado disse...

Esse início de século - e lá se vai uma década - está sendo mesmo de lascar. Por isso a esperança, para existir, tem de ser teimosa e um pouco burra. Senão, a gente não agüenta.
Beijo, com carinho e sem bomba.

Anônimo disse...

Quanto ao planeta, não sei se ainda existe saída pros estragos feitos. Quanto à política, bem - já assinou a petição do Avaaz?

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Amiga.

É verdade que o mal
parece estar ganhado o jogo.
Mas há muitos exemplos de bondade
que fazem a diferença no mundo.
Não nos é dados o direito de desanimar.
Somos o contraponto
a tudo o que não faz sentido.
e podemos inspirar novas formas de ver e e respeitar a vida.

Uma linda semana para ti.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Dade, não dá pra discordar. Basta a genial manobra de mudar o ano e tudo continuar igual, para calar algum incauto.

Mas sabe, eu acredito(eu, pra mim, longe da verdade) que as mudanças são pessoais. Não haverá mudança grupal, ou sazonal, ou o escambau, rsss. Cada um tem que dar conta de si, ficar ligado, bem como vc disse.

Marcelo F. Carvalho disse...

Que assim seja!

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

" arsenal de energia nuclear do Irã "
o problema não são os arsenais que estão aí aos olhos, o pior são os que não conseguimos notar