sábado, 20 de fevereiro de 2010

A cidade é a terceira casa


Começa por uma casa, primeiro espaço, interface com o mundo. O primeiro móvel de que se tem memória, os pratos com aquelas figuras engraçadas, a cortina que fazia um barulhinho quando corria. Lá estavam os retratos dos parentes que a gente não conheceu, os primeiros livros, as histórias que a vó contou. Primeiras imagens, comidas, rostos e as paisagem da janela.
Depois se vai mais longe: a pracinha, os brinquedos e as calçadas, carros, árvores e postes, prédios de nossa rua e de outras ruas, muros, flores de um jardim. Logo se chega à escola, pátios, tombos, salas e colegas; os primeiros amigos, recreios e correrias, a merenda, a cantina e a viagem de volta com aquela mochila velha de guerra. A parada no caminho, a brincadeira na rua, chegadas e saídas. As idas ao médico, ao dentista, ao cinema, e logo o shopping, o carro do pai, as casas de amigos.
Repetimos nossos caminhos – a rua que gostamos de olhar, aquele prédio onde mora uma amiga, um garoto que nos olha diferente, o vizinho, o conhecido do pai ou da mãe. A pé, de bicicleta, na condução, as pequenas mudanças na paisagem, uma árvore cortada, uma trepadeira que se encheu de flores, uma obra na rua, o lugar onde outro dia um cachorro foi atropelado, a calçada onde uma velhinha caiu e ralou os joelhos. Da casa ao bairro e a outros bairros, caminhos aos poucos ampliados; parques e brinquedos desconhecidos, e visitas tios, primos, festas e compras.
O primeiro namorado, a cidade transfigurada, os lanches inesquecíveis, os cinemas de mãos dadas, o primeiro beijo, e descobrimos novos lugares, o restaurante do outro lado da cidade, os passeios longe de olhos indiscretos.
Da casa da infância passa-se à segunda, que é o bairro, e chegamos à terceira, a cidade, que decoramos, percorremos a cada dia, vamos reconhecendo como nossa, cada vez mais longe, e da qual saímos rumo ao mundo, quem sabe, outros países, pessoas que falam diferente, caras estranhas que aprendemos a reconhecer e até a amar.
É bom cuidar da casa, do bairro. É bom pertencer a um lugar. É bom amar a cidade onde crescemos e aprendemos a interagir com o mundo, com os outros. Compete a nós cuidar desse lugar que nos acolhe na volta de cada viagem, ainda que tenhamos passado anos longe. Sempre uma alegria voltar às origens. Não é propaganda eleitoral, não. Só estou nostálgica de um Rio que vai pouco a pouco se perdendo. Tenho medo que ele deixe de existir.

11 comentários:

Kanauã Kaluanã disse...

Querida escritora,

Este "lugar" mora em tantos outros lugares espalhados pela nostalgia de cada um.
Li e revivi imensas lembranças; embora a cidade seja outra, muitas das descrições são comuns.
Só te posso agradecer por esse momento. E dizer que feliz é o Rio de Janeiro que tiver alguém como tu a habitá-lo.

Um beijo.
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Katyuscia

Celso Ramos disse...

Realmente o mundo vai mudando e em certo sentido algumas coisas vão se perdendo...mas percebo também que esse fluxo continuo é necessário e até sádio...o que me incomoda mais é a transformação no trato.. a impessoalidade com a qual, cada vez mais, tratam-se uns aos outros, esses nossos semelhantes.
Ps. "Quebrou tudo" nesta trilha sonora aí!! è Charlie Parker ou Jonh Coltrane? Eu adoro Jazz!!

Janaina Amado disse...

Ah, podem até tentar destruir nossa cidade natal, mas nossa primeira casa sempre permanece, não é mesmo, Dade? Muito sensível este seu texto. Beijo.

Érico Cordeiro disse...

E aquela história de que a aldeia é que é universal - cantando-a, falamos para o mundo - é mais que verdadeira.
As ruas, as praças, os becos de São Luís - cheios de histórias e de memórias. Acabo de passear por eles, graças ao seu texto.
E o Rio não vai acabar nunca. São Sebastião não permitiria!
Um fraterno abraço, Dade!!!

May disse...

Perfeito!

Gerana Damulakis disse...

Mais que perfeito!


Como sempre.

Anônimo disse...

Penso igualzinho a você, Dade - o Rio tá fazendo água.

Beijo
Ana Luísa

Graça Pires disse...

Belo texto em que as memórias se passeiam... É bom cuidar dos lugares que amamos.
Um beijo.

Marcelo F. Carvalho disse...

Foto e texto formando um poema!

Mari Amorim disse...

Olá Dade!
Perfeito!
se vc puder
Está acontecendo até o dia 07/03
a BlogagemColetiva,
proposta pelo blog http://fio-de-ariadne.blogspot.com
Meu Oscar Vai Para:
Venha conferir e comentar minha participação no:
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Boas energias
Mari Amorim

Maria Teresa disse...

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."

Sinto o mesmo aqui na "minha aldeia" paulistana.
Beijos