sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Deus dos leigos

Vista da cidade de Mariana, MG.
 
 
Não me considero autoridade no assunto. Nem por isso no entanto deixo de refletir sobre as religiões, um tema universal, que nenhuma cultura ou civilização deixou de lado.

Sempre tive grande dificuldade de acreditar, não propriamente em um Deus – “o Deus”, como dizia Clarice – mas no que alguém chamou com propriedade de os amigos dele. Para mim, todas as religiões são verdadeiros obstáculos a esse sentimento reconfortante que é a fé. Dogmas, promessas de castigo eterno e coisas no gênero me parecem muito mais um discurso humano do que divino, ao menos no que se refere ao único Deus que consigo imaginar. E na verdade, as religiões, todas ou quase, vivem e prosperam sobre os fundamentos da ameaça e de uma forma de chantagem – ou você acredita e obedece, ou – e lá vem ira divina, cólera do todo-poderoso e frases aterradoras tiradas do antigo testamento. Frases escritas por homens dos quais se afirma terem sido inspirados por uma luz divina.

O que me parece mais cruel nas religiões é a invasão da liberdade individual e, acima de tudo, a exploração do que há de mais vulnerável na natureza humana – a falta que todo homem carrega consigo vida afora, e o leva a se apegar a qualquer pessoa que lhe pareça apta a preenchê-la. Essa incompletude, a sensação de abandono, o medo da solidão e seus derivados deixam o homem à mercê de quem souber tirar partido deles. Todo homem é um indigente afetivo, incluindo os que se julgam mais espertos, se aproveitam da fraqueza dos outros e depois têm que conviver com a culpa e o medo de sanções. Encontramos gente assim em toda parte. Conhecemos esses seres confusos e escorregadios, que precisam viver sempre alerta para não serem apanhados em flagrante nas ações que sua esperteza os impele a cometer.

Sei bem que dentro de cada religião existe gente sincera e sensível, gente que chega a ser abnegada por dedicação genuína ao próximo. Fui educada dentro de uma religião, frequentei a igreja durante minha infância e juventude, participei de atividades das quais nunca me arrependi. Mas a gente amadurece e aprende a ser um pouco mais crítica em relação aos acontecimentos e ao comportamento das pessoas. Uma religião institucional, por mais respeitável, abre muitas brechas para a impostura, a hipocrisia e o preconceito. Das menos respeitáveis, essas que se inventam da noite para o dia, nem é bom falar. Mesmo porque, quase sempre o mau caráter de seus fundadores e arautos fala por elas.

Por tudo isso, e porque a gente sempre se sente um pouco órfã em relação a esse Deus que é mais um desejo intenso do que uma crença tranquilizadora, o poema do catalão José Palau mexeu comigo. Porque ele diz exatamente o que eu gostaria de ter dito, se escrevesse um poema a esse respeito. Ao menos pela beleza das palavras e das frases, que falam dessa humana necessidade de alguém maior em quem se possa descansar a certeza da plenitude.
  

Canto espiritual


Não creio em ti, Senhor, mas tenho tanta necessidade de crer em ti, que muitas vezes falo e te imploro como se existisses.
Tenho tanta necessidade de ti, Senhor, e de que sejas, que chego a crer em ti – e penso crer em ti quando não creio em ninguém.
Mas depois desperto, ou me parece que desperto, e me envergonho de minha fraqueza e te detesto. E falo contra ti que não és ninguém. E falo mal de ti como se fosses alguém.
Quando, Senhor, estou desperto e quando adormecido?
Quando estou mais desperto e quando mais adormecido? Não será tudo um sonho e eu que, desperto e adormecido, sonho a vida? Despertarei algum dia deste duplo sonho e viverei, longe daqui, a verdadeira vida, onde sonho e vigília sejam uma mentira?
Não creio em ti, Senhor, mas se és, não posso dar-te o melhor de mim a não ser assim: senão dizendo-te que não creio em ti. Que forma de amor tão estranha e tão dura! Que mal me faz não poder dizer-te: creio.
Não creio em ti, Senhor, mas se és, tira-me deste engano de uma vez.
Faz-me ver bem a tua cara! Não me queiras mal pelo meu amor
mesquinho. Faz com que, sem fim e sem palavras, todo o meu ser possa dizer-te: És.


José Palau, poeta catalão, traduzido por Augusto de Campos.



16 comentários:

UMA MULHER disse...

Olá estou lhe fazendo uma visita, gostei muito do seu trabalho.
Sinta se a vontade para me visitar
http://araretamaumamulher.blogspot.com/
fique na luz e na paz

Gerana Damulakis disse...

O poema de Palau realmente coloca uma questão dura: a necessidade de uma prova, sinal de quem não tem fé. Porque a fé não admite questionamentos.
Seus textos e seu poder de articulação têm uma capacidade de plasmar o assunto de uma forma espetacular.

Anônimo disse...

Sempre tenho a sensação de estar espiritualmente - e mentalmente - mais lúcida, mais rica, depois de ler um desses textos do blog.
Aprecio essa visão de mundo tão ampla, essa tolerância e a compreensão com que você aborda os temas e os desenvolve. Não é pra qualquer um.

Beijo de muita amizade
Ana Luísa

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.

Rubem Alves diz ser impossível acreditar em um Deus que tem uma câmara de torturas chamada inferno.

Acredidto em um Deus que sorri, sem ameaças, sem teorias.
Vivo em cada sorriso, cada abraço,
cada olhar...

Linda semana para ti.

Kanauã Kaluanã disse...

Dade,

O discernimento e a propriedade com que discorres sobre o tema traz ao teu post uma inegável lucidez.
Só te posso dizer o que já disse num post do Pássaro do Sul, intitulado "Espiritualidade"
http://passaro-do-sul.blogspot.com/2009/11/espiritualidade.html
Nele, também refletia sobre o conceito de religião.

Óbvia a existência de pessoas que honram e dignificam o que creem, mas por seguirem princípios que, infelizmente, não são o essencial nem o cerne da religião. Esta nunca deixou de ser uma forma dominadora, uma forma de domesticar pensamentos e fazer pessoas reféns através de sua influência psicoemocional.

A submissão feminina impressa em tantas escrituras. A soberania masculina sempre claramente imposta. O nos querer sempre ovelhas passivas e obedientes.

Como se pode adotar dadas religiões quando se sabe que em nome delas se praticaram e praticam inconcebíveis crimes, que deixariam perplexos Cristo, Maomé, Moisés ou qualquer que seja o ícone... Vivem-se inquisições diárias e nem se percebem...

Penso que a experiência individual, pessoal com o que consideramos sagrado, deva ser uma procura muito nossa, nunca um ato condicionado.
E é justamente isto que difere a experiência liberta de instituições da religião: o condicionamento.

Eu não acredito em nada em que não me permita um questionar, um refletir, um pensar constante.
Não quero obter respostas sempre, mas quero poder fazer perguntas sem que me deem verdades absolutas como respostas.

Então, também me visto com a transparência da minha visão, colhendo do que acho seja permeado da Lei maior: o amor e o olhar sobre o outro.

Parabéns pelo blog e por propores esta reflexão.

Um beijo.

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Katyuscia.

Pássaro disse...

Desculpe-me irromper aqui assim, mas foi a minha menina, que me trouxe pela mão...
Concordo plenamente com o que disse e deixo-lhe o que penso eu e já postei um dia destes...

Espiritualidade

Religião é como tantas outras palavras uma invenção. Um nome dado a um conceito.
E a origem etimologica dela (A palavra portuguesa religião deriva da palavra latina religio... ...religio referia-se a um estilo de comportamento marcado pela rigidez e pela precisão... fonte Wikipédia) leva-me a pensar, que na sua origem, um ser humano mais inteligente, sentindo a espiritualidade existente em nós, criou uma conduta, a religião, que serviu no fundo como primeiras regras, códigos de conduta, ética...
Sinto que foi uma necessidade, nos primórdios da humanidade, de criar condições para se poder viver em comunhão, em sociedade.
Mas o ponto fulcral no meu pensamento, está aí mesmo, tudo que foi criado, inventado pela humanidade, foi na intenção de suprir necessidades, de estabelecer regras, separações, diferenças. Existindo a necessidade premente de poder explicar o que na altura, não tinha explicação, de dar um fio de conduta a quem se sentia desorientado, o conceito religioso, nasceu fundado na espiritualidade que nos é inerente, pelo menos na maioria.
No entanto, foram ao longo dos tempos, nascendo novas religiões, umas vezes "filhas" de outras já existentes, outras em conflito, com todo um modo de pensar circundante, mas se nasceram, foram-no tambem para suprir alguma necessidade.
De qualquer modo, sabemos que algumas delas se fundamentam em dogmas, e acreditar sem ter uma explicação lógica é algo que só é possivel, sentindo e descobrindo dentro de nós ou por pura estupidez, sem pensar sequer ou por em discussão.
A estupidez, já levou e continua a levar a inumeros conflitos. Em nome da religião, morreram e morrem seres humanos, foram criados e continuam a existir inumeros preconceitos, baseados em livros e leis, circunstanciais, escritos fruto da sua época, que embora de grande interesse historico, agora perdem sentido. Percebo por isso o crescendo do Ateismo, dos agnóstico e cépticos. O avanço da ciencia, da tecnologia, foi dando resposta a muitas perguntas, a comunicação, a transmissão de dados à distancia em segundos pòs em campo uma discussão universal, a informação é enorme. Hoje em dia, quem tenha acesso a um minimo de informação, poderá viver a sua espiritualidade, de forma consciente e sem dogmas impostos. Sim, porque acredito e sinto, que mesmo os por assim dizer ateus, têm no intimo um sentir espiritual, a sua centelha do divino, lá dentro. Porque cada um deve descobrir a "sua" forma de sentir, perceber, acreditar. Respeitando os outros.
Eu acredito em Deus, com fé, a minha, à minha maneira. E respeito a vossa. A de cada um de vós...

João Miguel, O Pássaro do Sul

Maria Teresa disse...

Dade:
De novo Razão e a Fé, de novo a encruzilhada nossa de todos os dias. Como você diz, o amadurecimento às vezes faz com que percorramos com mais certeza um caminho em detrimento de outro. E assim prosseguimos, neste emaranhado de dúvidas...
Bjos

Gerana Damulakis disse...

dade: não consigo localizar o e-mail que vc me mandou. Como ele estava na pasta Spam (sei lá a razão de ter surgido ali e não na Entrada), simplesmente já sumiu com a limpeza automática.
Vc perguntava sobre meu livro em torno da poesia de Sosígenes Costa: precisa de uma edição nova e com a maturidade de agora (o livro é de 96, eu não ligava para revisão etc). Por favor, mande outro e-mail para mim.

Em@ disse...

Gostei, Dade.
Vem de enconro às minhas reflexões.
Gosto de vir aqui. Saio sempre acompanhada nos meus pensamentos.
Beijo

Érico Cordeiro disse...

Dade,
Esses insondáveis mistérios!
Daqui a dois mil anos continuaremos a discutir e promover embates entre a razão e a fé. E daqui a dois mil anos continuaremos a não ter resposta alguma...

b disse...

Copiei o poema-oração. Maravilha, assim como tua postagem como um todo.
As religiões politeístas são mais flexíveis nessas coisas de bem de mal de castigo de coluna do meio e gosto delas.
E tomando a maior referência do "religare" - que é o Mestre Cristo Jesus, Ele mesmo deixou esta proposta:"Amai ao TEU DEUS acima de todas as coisas e ao próximo e etc"
Descomplicou - pois o TEU DEUS é a partícula "divina digamos", que há no cerne de nossa essência e isto nada tem a ver com a instituição religião. Que na maioria não religa coisa alguma, sendo este um desafio sutil e pessoal.
E sincero - como o poeta.
1 abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

Lindissimas linhas, Adelaide.

Amanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Nãoo sei Deus, mas a questão é mesmo eterna ;-)

Beijo
César

tarciso disse...

Belíssimo poema. Diversamente do autor eu cri no início, depois descri e ora novamente creio. Meu credo, entretanto, já não é refém absoluto dos dogmas pois que comporta todas as dúvidas. No entanto, apesar de tudo... creio!

Jens disse...

"Todo homem é um indigente afetivo".

Magnífica postagem, Adelaide. Para a gente pensar, refletir e tentar se encontrar.

Um beijo.