quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Lembranças do útero



Adélia Prado. Filandras. 2 ed. Rio de Janeiro-São Paulo, Record, 2002. 155 p.

Filandras, de Adélia Prado, é um passeio por uma região de Minas Gerais. Não a Minas de BH, cidade grande que diluiu aquele jeito ingenuamente esperto, ou espertamente ingênuo, de ser que ainda persiste nas pessoas do interior. Não a Minas histórica, monumento tombado pela ONU, com ares de superioridade cultural. Nem a Minas do vale do Jequitinhonha, produtor de um bonito artesanato e torturado por muitas fomes.
A Minas Gerais de Adélia é a da infância feliz, dos rituais familiares repetidos e no entanto tão doces de lembrar. A Minas da fartura sem culpa, da comida caseira feita para o prazer de ver em torno da mesa as faces queridas, ouvir as vozes confortadoras trocando histórias de um mundo onde o grande luxo consiste nas certezas sem arrogância, na fé transparente e humanizada, no corpo instalado na vida como quem participa de uma festa.
Adélia escreve em estado de graça. Não porque se aliene da realidade dura do mundo e se recuse a sofrer com ele, mas porque aceita, com naturalidade e sem medo, fruir a vida e as alegrias que apesar de tudo ela pode dar. Escolheu dividir o que tem de melhor – o sentimento de uma poesia pacificada e pacificadora que diz sim ao amor, à amizade, às diferenças e ao prazer. Mas o que move essa aparente – e efetiva – simplicidade é uma personalidade estruturada com a firmeza dos alicerces das casas seculares de sua cidade.
Para quem está acostumado à austeridade e à frieza da cidade grande; às mensagens permeadas de violência que esse convívio nos manda todos os dias; à indiferença, ao primado das aparências, aos apelos do consumo, esses textos podem soar como a referência a uma espécie de paraíso impossível, em que muitos não acreditam mais ou nem chegaram a experimentar – a não ser talvez como uma lembrança confusa do útero materno.




O pé-sujo dos livros

Ainda que a gente se encontre desse jeitinho – através de nossas máquinas quadrilaterais, vocês diante de seus monitores em Carangola de Minas, Cruz Alta do RS, no Canadá ou no Nepal, e eu aqui no Rio de Janeiro –, sem precisar do corpo presente do livro impresso, estamos falando de textos, e por extensão de livros.
Precisamos deles em miolo e capa, e é uma pena que o tempo seja tão curto, os livros tão caros e que aquele livro que a gente queria tanto, mas tanto, não se encontre em mega nem pequena livraria nenhuma. As livrarias exibem os estoques de última geração que as editoras desovam e que às vezes nem chegam a vender, porque a divulgação e a propaganda andaram mais devagar que a produção. Mas sempre há um jeito de dar a volta nas leis frias do mercado. No caso dos livros, funcionam trocas, e-books, empréstimos, livros comprados por um grupo que irá partilhá-lo, doações ou sebos.
Leitores inveterados, obsessivos, pesquisadores, sem grana ou curiosos vão aos sebos da cidade onde moram e esquecem do tempo descobrindo exemplares que nem planejavam comprar, mas que uma vez descobertos viram objetos de desejo. Sebos – incluindo as feiras do livro – têm isso de bom: além de gastar muito menos, com sorte a gente encontra aqueles esgotados sem chance de nova edição. Em matéria de clima e rituais, o bom sebo está para a livraria assim como o pé-sujo está para o bar da moda.
As bibliotecas podem quebrar bons galhos sem despesa ou quase. Mas o livro que você traz pra casa não vai dormir em sua estante por mais de quinze dias. E se daí a três, quatro meses, ou até alguns anos depois, você ou alguém próximo precisar dele? E se te der uma louca vontade de rever aquele personagem, ouvir a música daquele texto? Livro é um objeto um pouco misterioso e tem isso em comum com as pessoas: se você for além da capa e tiver a curiosidade de conhecer o que existe dentro dele, pode ter boas surpresas. Por isso tudo, às vezes deixa saudades.

Se você digitar “sebos” no Google, vai achar à direita da página uma lista de patrocinados que é uma festa. Além dos outros todos – virtuais inclusive, que você consulta sem sujar as mãos. Para sebos do Rio de Janeiro, o site http://www.ruavista.com/sebos.htm traz uma boa lista.

9 comentários:

Bia Pontes disse...

Ah que vontade eu tenho de conhecer esta Minas! Esta e todas as outras. Meu encontro com ela está marcado, sem data.
Sobre os livros, recentemente consegui encontrar dois presentes que queria muito dar para o meu amor, assim, num sebo virtual. Uma poeta chamada Mônica Medeiros, que, por alguma razão, as lojas de livros resolveram não comercializar. Foi o sebo que me salvou, pois era um presente muito importante.
Bem-vinda de volta, viu!
beijo grande.

Cris disse...

OI, Adelaide, queridíssima

Que bom que vc voltou. A esperteza ingênua dos que moram no interior conheço bem. Sai da capaital há 23 anos. Sou uma caipira, já...rsrsr

saudades .

Francisco Sobreira disse...

Adelaide,
Obrigado pela visita ao meu Luzes da Cidade e pelo comentário lúcido. Um abraço.

Lord Broken Pottery disse...

Adelaide,
É sempre bom ver alguém falando de livros, talvez a a melhor coisa que a sabedoria humana produziu. E são tão poucas...
Beijo grande

Marilia Kubota disse...

Adelaide,

gostei do blog e teus posts. Sim, vamos nos linkar. beijo

Ivo Korytowski disse...

Obrigado! Boas Festas pra você também!

Janaina Amado disse...

Adelaide, também gosto muito da poesia da Adélia Prado, e da sensação de acolhimento que ela nos traz. Ótimo Natal e um 2009 com muitas alegrias e textos.

dácio jaegger disse...

Adelaide, a poesia é uma lingüagem especial dos e para os iniciados que entendem este mundo paralelo onde ela se desenvolve. Foi bom ter estado contigo os dias de 2008. Feliz Natal e um 2009 com muitas alegrias, saúde e mais sucesso. Beijos.

ana v. disse...

Gosto muito de ler Adélia Prado.
Obrigada por partilhá-la aqui, Adelaide.

Um beijo e Bom Natal!