domingo, 2 de setembro de 2007

Identidade se conquista



Quando saí do país pela primeira vez, estava muito preocupada com o trabalho que havia deixado inacabado no Brasil. Era o final dos anos 80 e rolava uma olimpíada de conhecimento em Birmingham, Inglaterra. A empolgação do pessoal durante as competições e os eventos acabaria por me envolver na torcida brasileira.
Também aprendi muito com eles. Só mesmo simplicidade, disponibilidade e trabalho constante podem levar a um final que se possa considerar feliz sem ajuda de um QI (quem indica). Falo daquilo que para o próprio sujeito constitui um êxito, uma vitória sobre si mesmo, o resultado de uma luta cuja intensidade e duração só ele conhece bem.
Em qualquer tempo ou lugar, é preciso partir de uma escolha, com os pés em terra firme e um plano na cabeça. O dinheiro e o sucesso são resultados incertos, e é preciso que seja assim para que não se perca o estímulo inicial.
Em matéria de identidade, o que acontece às pessoas acontece também aos países. Usando seus próprios recursos e valores, os chineses, primitivos e submissos durante séculos, têm enfrentado a vida a seu modo, e nestes tempos de globalização têm crescido diante do mundo como uma nação de cultura multissecular e características inconfundíveis. Os astecas realizaram uma obra intransferível; os maias, capazes de tanta crueldade, deixaram as marcas de uma civilização admirável. Os povos nativos remanescentes das Américas, que não usaram os metais como os saxões e são economicamente menos importantes, nem por isso abrem mão de suas tradições. Misturados aos feitos culturais e civilizatórios, nem todos os atos foram louváveis, nem todas as intenções foram retas a nossos olhos. Mas é preciso entender que, na prática, mentalidades e convicções variam, evoluem ou se deterioram pelos séculos afora. É a identidade de cada nação e sua cultura que sobrevivem e importam à história como dados positivos.
Entre os próprios europeus, a Inglaterra se conservou imperial sem deixar de pertencer à modernidade; a França construiu um bom socialismo democrático e a Alemanha ressurgiu das cinzas e reconquistou a identidade, desperta dos pesadelos que a oprimiram. Portugal e Espanha poeticamente preservaram certo primitivismo, embora de características diferentes, o primeiro mais ingênuo que a segunda; e a Itália às vezes parece um Brasil mais antigo, sacana e bem-sucedido.
Durante meu tempo na Europa, me senti integrada a alguns aspectos desse mundo velho. Os códigos de lá me faziam sentido e seus valores eram familiares. Mas a minha geração, que nasceu e cresceu no Rio, com sua arquitetura, religiões, hábitos e ideais ainda alimentados por ilusões do tempo da colônia, experimentava às vezes um desejo meio enrustido e arraigado de chegar lá. Com o passar do tempo, alguns traços tipicamente cariocas se acentuaram, e o Rio pouco a pouco foi ganhando jeito de cidade adulta – incluindo aí a violência e os maus hábitos ambientais. Houve também o enfraquecimento de uma classe média que rapidamente perdeu parte de seu espaço. A cultura de cunho muito mais popular, genuinamente carioca, foi ditando modas, músicas, costumes.
A vida me convenceu de que pessoas, cidades ou nações têm que apurar sua identidade, se conhecer e se gostar para conseguirem realizar alguma coisa que mereça um lugar ao sol. No Brasil, parece que ainda não aprendemos a cultivar nossos valores – que são tantos, neste país enorme; conquistar direitos e cumprir os deveres da cidadania, que em muitos casos mal conhecemos, ainda é privilégio de poucos. As causas disso são muitas e complicadas, mas a que parece mais atuante é o comportamento da própria classe política e dos governantes que desconsideram as necessidades do povo e quase sempre se elegem para tirar vantagens que, quanto maiores para eles, mais acentuam as carências da sociedade. Às vezes me pergunto se esses políticos não são, eles mesmos, uma das mais tristes conseqüência da má qualidade do ensino e da cultura anti-ética que há séculos vigora entre nós. Isso não os absolve, mesmo que explique o fenômeno, porque caráter pode existir mesmo sem uma educação adequada.
Acima de tudo, nada justifica esse sentimento oceânico de auto-suficiência, que nos leva a acreditar no poder da trapaça, tão cultivado por aqui. Não é nisso que consiste o verdadeiro "jeitinho brasileiro". Somos criativos, inteligentes, temos jogo de cintura. Temos uma cultura rica, produtiva e diversificada, mais do que o suficiente para garantir uma imagem digna de respeito perante o mundo. Sem ufanismo nem devaneios. Quae sera tamen.

4 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Adelaide,
Conhecer a Europa me faz mal. Acabo me sentindo estrangeiro no Brasil. Os banhos de cultura que tomo quando por lá passo, tornam-me exigente demais. Sofro de um mal um pouco sem solução, vontade irresistível de abandonar essa nossa terra sem jeito, e mudar para o primeiro mundo. Um dia, quem sabe, conseguirei cumprir esse ideal.
Beijo grande

ana vidal disse...

Cuidado, Lord, a velha Europa é hoje um mundo gasto e delabré, a braços com problemas gravíssimos de integração e ferozmente limitado por ancestrais preconceitos. Ou seja, esgotado. Tem o encanto da cultura e da história, admito, mas viver aqui também não é fácil.
Nós, europeus, muitas vezes temos o desejo inverso: partir para mundos novos, onde ainda haja coisa novas por fazer e que não tenham o peso insuportável das tradições.

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