quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ela




Sabe quando tudo te interessa e de repente, não mais que, deixa de interessar, assim no atacado? Pode ser leve ou heavy, mas é a famosa deprê.
Não dá pra brincar com ela. Sabe gato que às vezes surta e te mete dentes e unhas? A diferença é que gato você faz assepsia das feridas e toca a vida numa boa. O mesmo porém não se dá com a supracitada. Digamos assim como um gato hidrófobo, mas de uma raiva mansa, apagada, toda recolhida dentro de teu tubo digestivo, no oco do músculo cardíaco, devagar se espraiando pelas enzimas e apagando sinapses. Ou não. Pode saltar, agitar todos os sistemas, te deixar alterado, acelerado, atento a tudo e a todos enquanto desmorona num vazio de dentro, maninho, derrubado, carcomido, e quanto mais agita mais se demole, até cair feito fantoche sem ninguém pra mover os fios, boneco de ventríloquo sem o amo pra falar por ele.
Se dá pra morrer? Depende. Que dá, dá sim, não vou te enganar. Mas é lento, sofrido, dói muito. Tipo suicídio, sempre, mas pode ser ativo (você mete a cabeça no forno quem nem a Sílvia Plath fez, corta os pulsos ou entra no rio com os bolsos cheios de pedras, feito Virginia) ou passivo (mais comum úlcera gástrica, duodenal, enfarte, pneumonia fulminante, tuberculose braba ou câncer metastásico generalizado).
Mas pode ser branda, de duração menos ou mais longa. Sempre muito triste. Sempre sofrida porque te deixa a pé, te corta do tempo, da vida, te desliga do próximo, que fica distante léguas e léguas. Tira a vontade, sabe como? Nem banho, nem comida. Sair então, nem pensar. Um peso branco que te trava todo e nem te dá vontade de morrer, razão pela qual você continua vivo, mas assim, a contragosto. Aliás, depressão é contragosto mais do que desgosto. Desgosto supõe algum élan vital e em geral tem uma explicação. Ela não, ela vem e senta nos teus movimentos, os pensamentos ficam aguados, você quase não fala. Você chora. Nem Deus sabe por quê, mas você chora.

9 comentários:

Eduardo P.L disse...

Adelaide, SEM DEPRÊ!!!! A vida é bela!

Muito obrigado pela visita e por SEGUIR o VARAL

Bjs estou SEGUINDO você!

Graça Pires disse...

Contra a depressão recomenda-se bons passeios à beira-mar ou pelo campo. Ou então escreve-se um diário...
Beijos.

Louize du Lac disse...

depressão é a pior coisa que existe à face da terra.
e a poesia não cura.
:>
blog interessante. :)

DE-PROPOSITO disse...

Você chora.
________
Por vezes é bom chorar. O choro nos alivia de muita coisa.
Fica bem.
E a felicidade por aí.
Manuel

~ Lucas Monteiro ~ disse...

Depressão não leva nada a ninguém... Eu sei é fácil falar.. mais saia mais divirtasse logo logo tudo passa !

nina rizzi disse...

oi adelaide :)

fiquei um tempão (na verdade desde a sua lisonjeira visita) tentanto entrar nessa página, mas nunca abria. quer dizer, ficava tudo um breu branco.. rsrs..

gostei daqui. deve ser porque direto e nem tão teo eu fico assim, deprê sem porquê.

um beijo :)

€ster disse...

Que belo achado o seu blog!

Suas fortes palavras tem um eco não sei aonde em mim,

quero reprise, muitas...


bjs!

Mara faturi disse...

Que texto visceral e muito, mas muito real... "nem Deus sabe"...Gostei muitíssimo de sua arquitetura da depre; PERFEITA! Muitas vezes penso que a poesia passeia entre a vida e a morte e o que nos salva é uma linha tênue... a linha das páginas por onde escorremos em forma de poesia nossas dores e amores;)
* O prêmio pico foi muito bem repassado;) me encantando com tudo por aqui,
bjos

Mara faturi disse...

*Ahh...adoro esse nome; ADELAIDE, o nome de minha avó;)