quarta-feira, 11 de março de 2009

Ultrassonografia




Andei fuçando uns comentários antigos e achei um que me chamou a atenção. Nem sei por que não lembrava mais dele e até me surpreendeu, nessa pequena volta ao passado de apenas dois anos. Primeiro porque nunca mais recebi outra mensagem dessa pessoa, que não vou identificar por motivos óbvios. Depois, porque me pareceu intenso e sincero. Com a imaginação ativada, começam as conjeturas – quem poderia ser? Será verdade ou ficção? O link que deixou naquele comentário não corresponde a nenhum site, o que pode indicar que seu dono desistiu de ter um blog, que se escondia em um falso personagem ou que não está mais entre nós.

Era quase um lamento, mas não pedia nada. Na terceira pessoa – ele – falava de não ter com quem trocar as opiniões mais importantes e não receber nunca o olhar ou o simples gesto de uma partilha; da falta que faz um abraço desses estreitos, que relaxam mais que qualquer sessão de ioga ou medicamento de última geração. Falava acima de tudo da necessidade que todos temos de achar quem ouça com atenção nossas preocupações, dúvidas e angústias; de um semelhante que nos acolha quando de repente o fato de viver sozinho pesa demais e a tristeza começa a fazer ruir as estruturas que nos mantêm em atividade.

Haverá com certeza uma meia dúzia de gozadores interpretando essa história como mera cantada ou artifício de um cara mimado querendo “aparecer”. Pode até ser, sabe-se lá. Mas o tom não era esse. A versão da cantada pode ser posta de lado, porque o comentário foi único e ficou lá, esquecido num canto do blog, coisa que não acontece em casos que tais. Uma cantada nunca vem só. Além disso, não havia indício de sedução, ao contrário: pra quem quer conquistar alguém, ser tão pouco convidativo nunca dá certo. Um texto meio seco que, embora sugira carência afetiva, fala em tese.

Hoje, relendo as doze linhas desse comentário, vejo um pequeno poema em prosa. Um poema bem construído, sem açúcar nem afeto, mas sem amargura. Uma pequena imagem que fala por si, e lembra muito a ultrassonografia de um feto, com o coração pulsando como uma pequena estrela no meio do corpo, que ainda não é quase nada, mas sem saber testemunha sua sede de carinho.

6 comentários:

Gisela Rosa disse...

Que beleza de comentário o seu Adelaide! Gosto muito da sua escrita! Das suas ideias! Obrigada pelo seu comentário no meu blog, é muito carinhoso! Um grande abraço

Marcello disse...

Ah! Este universo virtual..., por onde transitam seres que às vezes me lembram o 'Horla', aquele personagem enigmático e invisível do conto de Maupassant...

Bia Pontes disse...

E mesmo cercados de pessoas, a gente se sente assim. É fascinante este elemento impalpável que não nos deixa sentir só, junto de alguém ou não.
Lindo post!
beijo, bonitona!

Lucia disse...

Adelaide:

Concordo com você: não vi resquicio de cantada, nem nada do genero. Posso estar enganada, mas acho que, ao fazer o comentário, quem o fez sentiu-se menos sozinho. Acredito sim que o texto escrito por você levou-o a identificar-se de tal forma que foi quase como se ele dissesse: Enfim, achei alguém que pode entender o que sinto.
Parabéns, não só pela postagem de hoje, mas por aquela que, mostrando sinceridade, levou alguém a diminuir um tantinho sua solidão.
Beijos

Graça Pires disse...

Muito bonito o teu texto.
Há por aí tanta solidão...
Um beijo.

zymboo disse...

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