quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O mesmo e o outro


Foto Jayme Serva.

Não há como fugir: os dias são iguais. São diferentes, é claro. Mas são sempre iguais em que se dividem – manhãs tardes noites madrugadas horas batendo martelo nos segundos, como um leilão do que você queria, mas só vai levar se perceber a música do martelo.
As cores mudam, tanto as do céu como as do coração, e os tons são inacreditáveis, de uma pessoa para outra e até para a mesma. A diferença na mesma pessoa é de mais claro-escuro, ton-sur-ton, e o fundo é meio repetitivo mesmo, fazer o quê? Cada um se faz repetitivamente recaindo no refazer do que mais procura evitar. E quando o sol aparece, por causa desse estado de mesmice aparente, pode dar a sensação de que tudo está igual.
O de fora pode estar igual. (Não no tempo que faz, que até o sol tem matizes e variações que só falta prestar atenção para ver: o sol não mostra sempre a mesma face, e às vezes está furioso e queima com raiva, mas às vezes acaricia a pele que nem homem enamorado.) Mas o de fora pode estar igual no que exigem da gente.
A coisa acontece assim: a gente se repete e recai e refaz o que já andou fazendo a vida toda. Quem vive a nosso lado também recai e repete. Quando alguém refaz seu refazer e ressoa em nossa alma, é a rotina. A rotina não é o que eu faço, mas o que os outros querem que eu faça, e eu faço, repetindo então – não o que eu quero e repito por minha própria conta, porque é meu e é dessa cor que eu sou, mas o que os outros querem que eu refaça por eles. Nisso consiste o poder de uma pessoa sobre a outra: ser capaz de ressoar sua própria repetição no outro. E quanto maior o poder, mais outros refazem a repetição do poderoso.
O que obviamente não é justo nem salutar para ninguém – nem os mesmos nem os outros.
Quem apenas ressoa o que o outro repete e refaz sem conseguir deixar de refazer é um candidato a passa humana. Quem não se libera da gaiola da repetição do outro, é pássaro morto dentro da gaiola sem ninguém para chorar por ele. Quem não olha em volta, procurando sintonizar o rádio para ouvir a melhor música que o outro é capaz de tocar, nem merece muito que se chore por ele.

2 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Adelaide,
Que se tenha na retina sua própria rotina.
Beijo

sandra camurça disse...

Ah, Adelaide, a rotina, a rotina. Ultimamente só no meu blogue eu consigo fugir à rotina...Bacana o texto.
um beijo.