domingo, 16 de dezembro de 2007

Tempo de utopias

"Caminho dez passos, ela se afasta dez passos.
Corro cem metros, ela se afasta cem metros.
Por mais que eu a persiga, jamais a alcanço.
Então para que serve a utopia?
Serve para isso: para fazer caminhar."
(Eduardo Galeano)

Fim de ano é tempo de bons votos e festas que dedicamos à esperança.
Mesmo sabendo que o mundo continua o mesmo, ou muda muito lentamente para nossas expectativas, continuamos a acreditar que o ano que vem será melhor.
Mas para que isso aconteça, é preciso caminhar, ou seja, mudar as condições que levam o mundo a ser essa fábrica de sofrimento para os homens. Não só para os que estão lá longe, sobre os quais ouvimos e lemos notícias aterradoras de guerras e genocídio. Por diferentes que possam ser seus costumes e suas etnias, são feitos de carne e osso, capazes de amor e ódio – iguaizinhos a nós, que até há pouco acreditávamos que o Brasil era imune a guerras e catástrofes naturais, no temperamento pacífico e cordial de nosso povo e outras balelas desse tipo.
Temos tudo para provocar as iras de uma divindade justiceira - uma das piores distribuições de renda do mundo, hábitos coloniais arraigados, preconceitos e uma mentalidade em tudo parecida com a dos coronéis donos de terra do sertão do século passado. Sorrimos com superioridade dessas mazelas, principalmente nas megalópoles, acreditando que ficaram para trás.
Então tá. Vamos combinar que consideramos nossa doméstica igual a nós, respeitamos os garis de nossa rua tanto quanto nossos parentes e cumprimentamos diariamente os porteiros de nosso edifício, agradecendo toda vez que facilitam nossa vida ou abrem o portão do estacionamento. Não vale objetar que eles são uns grossos ou que estão sempre prontos a dar um golpe e nos passar a perna: são argumentos genéricos, que jogam no mesmo saco todo tipo de gente só porque se trata de serviçais. Podemos até sentir pena de pessoas desfavorecidas, mas isso não muda em nada sua condição, apenas nos redime da culpa (mesmo inconsciente) que essa condição nos provoca. Ter pena de alguém é como ter medo de chegar perto e se incomodar com seu infortúnio.
Respeito, atenção, gentileza e solidariedade, além de atestarem uma boa educação, fazem todo mundo se sentir um pouco melhor. É bem pouco. Mas é um começo, um modo eficaz de produzir bem-estar, e pode nos proporcionar surpresas muito agradáveis a respeito de gente que até então nos passava despercebida - e se sentia humilhada com isso.

O texto a seguir, também de Galeano, pode parecer desporporcional ao que está dito acima. Mas ele fala apenas sobre outra localização geográfica da injustiça. Nem mais nem menos cruel que a injustiça praticada entre nós; a grande diferença é o calibre das armas usadas e a oficialização da violência. Não estamos muito longe disso.


Pai libanês segura filho morto nos ataques de Israel

"Os terroristas se parecem entre si: os terroristas de Estado, respeitáveis homens de governo, e os terroristas privados, que são loucos soltos ou loucos organizados desde os tempos da Guerra Fria contra o 'totalitarismo comunista'. E todos agem em nome de Deus, seja Deus, Alá ou Jeová. Até quando continuaremos a ignorar que todos os terrorismos desprezam a vida humana e que todos se alimentam mutuamente. Não é evidente que nesta guerra entre Israel e Hezbolá são civis, libaneses, palestinos, israelenses, os que choram os mortos? Não é evidente que as guerras do Afeganistão e do Iraque e as invasões de Gaza e do Líbano são incubadoras do ódio, que fabricam fanáticos em série?
Somos a única espécie animal especializada no extermínio mútuo. Destinamos US$ 2,5 bilhões, a cada dia, para os gastos militares. A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, come os vivos e os mortos. Até quanto continuaremos a aceitar que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?"

Eduardo Galeano

3 comentários:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Estou justamente lendo Galeano por esses dias: De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso.

Adelaide, já não falo tanto de utopias. Nunca estive tão pessimista quanto agora (e olha que eu sou o rei do pessimismo). Ainda assim, concordo contigo, não se deve desistir de ser educado e civilizado no trato com quem nos cerca.

Um abraço.

Marcelo F. Carvalho disse...

Utopia e amor é o que ainda nos faz "humanizados".
Abraço forte!

sandra camurça disse...

Um outro mundo há de ser possível. Adelaide, vim te desejar boas festas.
Beijo grande.