domingo, 14 de outubro de 2007

Água que te quero água


Asfalto após a chuva. Autor desconhecido.

O tempo, corpo abstrato dividido por nós em anos, meses, dias, minutos e segundos, parece um ser sem existência, um nada – e no entanto é uma espécie de casa do Universo. O mar, metáfora aceitável do tempo, existe: é muita água, agita, embrabece, espuma e fura diques – que o diga a Holanda. Gota a gota, caminha de águas acima até os furos mais altos, e um dia pode carregar um país num bojo azul de gota. A água, que forma a maior parte do planeta em que vivemos, é tão essencial à vida quanto o tempo e toda a natureza que nos cerca.
Informam os entendidos que, se o calor dos humanos delírios de ambição continuar degelando calotas polares e geleiras, muitos litorais podem vir a ser engolidos, o que inclui nossas amadas cidades do Rio de Janeiro, Angra, Paraty, Arraial e Búzios, sem falar nas praias do Nordeste (não façam isso com Recife, Natal, Fortaleza, o Farol da Barra, Itapoã!), e o Sul (Floripa não, por favor!), os surfistas, a ilha do Mel, a serra do Mar com Morretes e Antonina, minha cidade de sonho, e tudo mais. Sem falar do resto do mundo: Nápoles, Veneza e as ilhas gregas, o Caribe, o Havaí... E não só as praias, que o litoral é mais do que esses paraísos do sol. Uma vez que o tempo é uma entidade abstrata, nós, entidades concretíssimas e operantes, preparamos uma armadilha para o futuro.
Na outra ponta da insensatez, jogamos água fora – a água de beber para humanos, animais e vegetais; a água essencial para manter a saúde, lavar nossas mazelas, conservar a vida na Terra. Já fomos avisados sobre a escassez que aumenta, mas isso teve um efeito desproporcionalmente pequeno sobre o desperdício. Incorrigíveis, continuamos achando que a água não tem fim, e poluímos, corrompemos, secamos nascentes e deixamos de aproveitar as chances de legar um mundo melhor para os que vêm por aí.
Enquanto isso, o tempo que parece passar por nós distrai o olhar e acalenta a vida, que vai se afogar ou morrer de sede. O tempo chega, pelo mar ou pela terra estéril, mas chega e nos afeta sempre. O que fazemos a cada momento, dia ou ano de nossa vida tem sempre conseqüências, boas ou más. Achamos que o tempo foi domesticado porque o prendemos no calendário e nos relógios, e que por isso temos algum poder para consertar depois as leviandades de agora. Mas nosso domínio sobre o tempo é ilusório; verdadeiro é nosso descaso.

3 comentários:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Bem, sou um pessimista inveterado; logo, não acredito em solução para o gravíssimo problema da água.

Mas queria comentar é a postagem anterior. Não sobre os livros de I. Allende (que, confesso a ignorância, nunca li); mas destacar este trecho, que dá pano para manga:


"Para mim, é a isso que um escritor (diferente de um escrevente, que pretende narrar um fato em sua objetividade ou esboçar uma teoria) deve ambicionar, mais do que à lista dos mais vendidos: ficar na memória, deixar um traço, ser uma evocação prazerosa na vida de algum leitor."

Permita-me copiá-lo e usá-lo numa postagem que realizarei antes do final do ano?

Aguardo resposta. Um abraço.

Halem Souza (Quelemém) disse...

Ah, lógico que indicarei a fonte.

Vais disse...

Olá Adelaide,
muito bacana. É inquietante a degradação. Penso que o começo é fazermos nossa parte, falo com relação ao lixo, por exemplo, hoje, vejo que não basta jogar o lixo no lixo, estamos nos tempos da coleta seletiva, e isso deve ser implantado, o trabalho de despertar de consciências neste sentido da necessidade da preservação.
Lixo é um assunto que me toca.
Bejão Adelaide.