Como acontece com todo mundo, a imagem de sua
consciência tinha vinte anos menos. “Não sou para mim o que sou para os outros”
– pensava sempre, e isso era estranho, porque esse pensamento lhe dava uma espécie
de paz. Reconhecer um mal-estar ou sentir necessidade de alguma coisa que
melhore a vida e nos torne mais livres não é apenas um bom começo: é o que pode
levar a uma transformação duradoura. Quando se chega a esse ponto, é sinal de que
já se desencadeou um processo de mudança, talvez imperceptível no início.
Não queria os quinze minutos de glória que tanta
gente ambiciona. Pressentia que, com o passar do tempo, essa conquista só lhe
traria tédio. Depois dos tais quinze minutos (ainda que durassem uma semana ou
três meses), sua vida cairia no vazio. Era inteligente e um pouco sofisticada;
seu ideal de vida não era habitar a casa do BB nem posar para o Paparazzo; queria um reconhecimento
sólido, um pouco além do exigido pelas normas da sociedade. Nenhuma lipo ou lifting conseguiria esse efeito e, embora
não se descuidasse da aparência, sabia que isso era apenas a ponta visível do iceberg.
Era uma pessoa mediana – dona de casa, mãe de família,
trabalhando num emprego que pagava bem, mas não dava chance de renovação ou
quebra da rotina. Nem ela mesma sabia por quê, sentia-se incompreendida, ansiosa
por alguma novidade, mas qual?
Vivia numa prisão invisível para os outros, e não sabia
por onde escapar. Para os padrões vigentes, sua vida era muito boa – tinha uma
casa confortável, frequentava boas diversões, comia em bons lugares, viajava de
vez em quando e vestia roupas escolhidas sem grandes restrições de preço. Mas
isso não era tudo. E não era mesmo: para se sentir digna da existência e
contente consigo mesma, uma pessoa precisa de recursos materiais para o
essencial ou muito pouco mais. O resto é outra conversa.
A proverbial afirmativa de que a verdadeira riqueza
está no espírito pode até ser verdadeira, mas não esclarece muito. Espírito é
um conceito muito amplo, abstrato, e sua questão era pragmática. Sabia que o
melhor da vida não é fruto do tão falado “pensamento positivo”. Nada vem a
nosso encontro de graça ou por mágica, muito menos a felicidade sem preço de se
sentir confortável consigo mesmo e entre as gentes. Muito mais eficaz é procurar,
refletir, experimentar.
Acostumou-se à intuição de que, a qualquer momento,
uma coisa aconteceria em sua vida que lhe daria um novo sentido. Essa sensação
não a tornou uma otimista incurável, ao contrário: aumentou sua ansiedade,
levantou dúvidas quanto ao que se passava em sua mente e a deixou cada vez mais
inquieta.
Mas talvez fosse esse o plus que faltava. Pouco tempo depois que essa certeza secreta se
instalou nela, teve o que lhe pareceu um estalo do padre Vieira, diante da
fotografia original e extraordinariamente bonita de uma paisagem do interior do
país. Achou injusto que não tivesse sido ela a autora da foto. Num impulso que
surpreendeu a si própria, foi procurar uma máquina fotográfica profissional e
fez um curso intensivo que a tornou uma mulher encantada e feliz, de bem com a
vida e pacificou suas inquietações.
Principalmente depois do sucesso da primeira
exposição, das encomendas e da mudança no ritmo de seu dia-a-dia. Pintaram
viagens com que ela sempre sonhara sem esperança. O marido e os filhos, já
taludinhos, viajam com ela, quando é possível.
Talvez nem tenha sido a mudança da rotina ou a fama que começa a despontar em torno dela. Aposto nesse fato aparenetemente simples de ter encontrado alguma coisa tão exclusiva, intransferível, que ninguém mais poderia fazer. Poderia ter sido a moda, a culinária, a pintura, a costura. Importa pouco saber em que ela se realiza - mas é essencial saber que se realiza.
Chama-se Flora Jardim, grave bem. Talvez você já
tenha ouvido, ou vá ouvir em breve, falar dessa fotógrafa quase famosa,
mas principalmente muito contente com a vida e consigo mesma.
12 comentários:
"Aposto nesse fato aparenetemente simples de ter encontrado alguma coisa tão exclusiva, intransferível, que ninguém mais poderia fazer."
Eu também aposto, Dade. É nesse intransferível de cada um que se encontra a realização.
Beijos
AnaG
puxa, agora quero ver as fotos dela! Devem ser muito especiais para gerar texto tão belo.
Dade, um beijo de ano novo bem grande. Sempre te lendo por aqui, mesmo que eu não comente muito!!
"Não sou para mim o que sou para os outros"
Estas palavras ficaram gravadas! *
Mas isso é sacanagem, Dade! Cadê as fotos da Flora Jardim? Foi só pra gente ficar com vontade, água na boca?
PS - Sacanagem mesmo. O google imagens só me dá "Chácara Flora", "flora amazônica" e que tais! Quero a verdadeira Flora Jardim, rs.
Se a fotógrafa for tão boa quanto você é como grande , digamos, cronista, ou prosadora - enfim, como escritora; então, queremos apludi-la.
Mais um ótimo texto, dade.
Dade,
Dali não é necessário comentar,feliz escolha parabens,
saudades,
Boas energias
Mari
Dade querida, é a primeira vez que leio sua prosa. Já conheço os poemas e faço questão de ficar em dia com o Inscrições.
Aqui é uma outra experiência, e pelo jeito vou precisar estar sempre em dia com esses textos de mestre.
Bjs,
Giovanna
Dade,
Uma belíssima crônica, sobre a felicidade e suas inúmeras possibilidades.
Acaso ou destino?
Bom, como disse a Milena, deu vontade de conhecer as fotos da Flora.
Quem sabe não fica aí a sugestão para uma nova postagem?
Um fraterno abraço e um 2010 cheio de paz, ventura e realizações!
Amiga.
As prisões invisíveis são as piores, pois é preciso buscar uma força interna que as vezes já não acreditamos existir, para quebrar as grades e libertar a vida.
Semana de sonhos para ti.
"Principalmente depois do sucesso da primeira exposição, das encomendas e da mudança no ritmo de seu dia-a-dia. Pintaram viagens com que ela sempre sonhara sem esperança"
gostei da mistura conto e crônicas
Um belo texto. E onde estão as fotos?
Beijos.
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