sexta-feira, 11 de julho de 2008

No princípio eram as férias


No princípio eram as férias de julho, que duravam um mês inteirinho pra gente se divertir, esquecer as obrigações de todo dia e aproveitar as festas que sobravam de junho. Agora muitas escolas tiram de uma a duas semanas do mês, o que é pouco pra quem deu duro desde fevereiro. Vão dizer que as horas de aula aumentaram, que é preciso cumprir o programa, que tantas férias são dispensáveis. Tudo bem, não vamos discutir isso. Dizer que é bom ficar de férias não significa ignorar ou negar as necessidades do ensino. Estou só lembrando o quanto era bom. As férias de fim de ano também encolheram um mês – iam do final de novembro ou início de dezembro a março, três meses cravados. Pode ser que houvesse perda de tempo, que fosse um exagero, mas particularmente posso dizer que a gente torcia muito para chegar o dia.

As férias pra mim sempre foram como a luz para a natureza. Pouco antes delas, já não dava conta dos deveres escolares com muita facilidade. Talvez porque eu fosse mais nerd do que devia, talvez porque levasse o estudo muito a sério. Mas entrar de férias para mim era a melhor de todas as festas. Não sei exatamente dizer por quê, mas acredito que, mais que os passeios, as praias, as horas de sono a mais e o cinema durante a semana, a delícia das férias estava na sensação de liberdade, de não ter um professor cobrando trabalhos ou a obrigação de vestir um uniforme que eu detestava e aturar inspetores mandando entrar na fila, sair da fila, subir pra sala ou ficar calada.

Talvez isso se deva também a um temperamento meio desorganizado que, mesmo depois de grande, nunca me permitiu ser capaz de repetir a mesma rotina todos os dias da semana. Ainda que haja horários a cumprir e funções determinadas no trabalho, não me lembro de ter vivido um dia igual ao outro. A disposição muda, as tarefas têm um peso ou uma ordem diferente a cada dia.

No trabalho, sempre fui uma espécie de estagiária ou voluntária, e era assim que cumpria melhor a minha parte. Qualquer função fica mais leve se for realizada com certo espírito lúdico. Tive a sorte de conviver com gente criativa, e podia até mudar um pouco a arrumação de minha sala de vez em quando. E quando dei o azar de esbarrar com um chefe autoritário com vocação para tirano, dei um jeito de mudar de setor e me ver livre dele. Ganhei muito mais trabalho, o que não me incomodou em absoluto, mas ganhei também amigos que nunca mais perdi de vista e algumas experiências de vida inesquecíveis. Foi como num desses jogos em que quem perde, ganha.

Nem sei por que estou contando tudo isso. Acho que é porque hoje, como me acontece com freqüência, acordei de férias.

10 comentários:

Lucia disse...

Adelaide:

Viajei lendo o seu texto. Assim como você, férias para mim eram um acontecimento. Por ter crescido numa cidade muito pequena, no interior de SP, cinema não fazia parte das minhas férias; em compensação, tinhamos uma espécie de "gangue"..rs. Como nós eramos felizes!!
Obrigada por me fazer lembrar de momentos maravilhosos.
Um beijo

L. Rafael Nolli disse...

Olá, Adelaide! Eu vivo até hoje essa expectativa de férias - esse tempo em que as aulas ficam longas, o relógio insiste em não doar os seus preciosos segundos. Vivi intensamente essa deliciosa espera por longas e merecidas férias quando era aluno, e tenho vivido também agora que sou professor! O seu texto me deixou sorrindo, e isso é muito, muito bom!

Marcelo F. Carvalho disse...

Aqui em Mesquita, na Baixada, fárias só dia 18... Mas lembro que, quando era estudante, as férias eram bem mais longas... Entendo os públicos serem assim, mas, agora, até as particulares param tarde.
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Aliás, ótimo texto, como sempre.
Abraço forte!

CRIS disse...

Essa tua ultima frase : quem perde, ganha , tem martelado nos ultimos meses na minha cabeça.
Voce falou da magia das férias que realmente acabou, Adelaide.Antes como aluna, agora como profissional.

beijo de ótima semana.

Bia Pontes disse...

Eu adoro vir aqui e ficar aprendendo um pouquinho este escrever que você transpira com tanta naturalidade.
Férias... também um estado de alma, não?

beijos!!

Huckleberry Friend disse...

Que sorte acordar de férias e recordar mais férias! Parece que elas duram mais, assim... beijinho, adelaide!

Graça Pires disse...

Excelente o texto. Que boas eram as férias...
Um beijo.

andrea augusto - angelblue83 disse...

Nem sei qdo tirei férias de 30 dias. la no trabalho eles cortam os dias que enforcam, é mole?
Bom, mesmo era as férias do colégio! ô expectativa boa!

bjimm querida
angel

kilder disse...

oiii....lindo o texto

Cris disse...

OI, Adelaide...

Bom fim de semana pra você.As férias que não aconteceram estão acabando, amiga...

Beijão procê