sexta-feira, 14 de março de 2008

Mulher escrevendo


Clarice Lispector.

Escrever era só a sobra. O que restava depois que o dia ia se cumprindo e ela cumpria seu papel – a casa bem cuidada, as garotas na escola, o almoço tão bem temperado, a roupa limpa e guardada, não fossem os vizinhos – ou pior, o marido – chamá-la de relaxada. Tinha uma reputação a cuidar. Dias ainda havia para as compras, estantes e tanta coisa por limpar e arrumar. E sempre, sempre os eternos ciscos, migalhas nas bancadas da copa, poeira aqui e ali, a gordura mal limpa no fogão. Tinha empregada, sim, mas essas empregadas cada dia querem fazer menos e sair mais cedo, uma lástima: todas relapsas.
E ao fim do dia, os momentos de ócio necessários para azeitar as idéias e deixar fluir certa energia semicósmica – porque em parte vinha era de dentro. Nem sabia se era mesmo energia: era mais concreto, como liberar alguma coisa física, um miniparto. E porque nada ainda estava dito, era então preciso colher palavras, limpar a terra, o sangue, a aura estranha e revirá-las sobre o teclado e plantá-las no monitor entre as outras, em seqüência de alguma lógica, às vezes nem isso. Sentir e pesar seu efeito, seu tempo de validade, porque às vezes ficavam murchas, pobres, indigestas ou indigentes de sentido, caso em que nada resolviam de sua necessidade: as palavras são como as cores para o pintor. Há um efeito final a levar em conta que, esse sim, vem de dentro, e é preciso ser fiel a ele. Então deixava passar um tempo e voltava a elas, as palavras. Assim podia ter uma idéia mais clara do que estariam fazendo ali, corrigir algum rumo sem destino como um piloto em vôo. O vôo era sempre meio cego.
Havia tardes e noites em que as palavras pareciam fluir tão facilmente, e ela enchia páginas e páginas seguidas, contente, realizada, achando o tempo um sonho. Mas não durava muito e a dor secreta dos dias voltava a se insinuar. A dor era sempre, não cessaria nunca e se expressava de um jeito sonso, devorando as entrelinhas. Chegava de leve, depois aumentava de intensidade e afinal causava um mal-estar que a obrigava a se curvar como quem carrega um peso maior que suas forças. Então às vezes apareciam poemas no monitor.

5 comentários:

Halem Souza disse...

Escrever como sobra da vida e, se bobear, ainda aparecem poemas. É, os escritores e escritoras sempre continuarão a refletir sobre este estranho impulso que leva ao ainda mais estranho ato de escrever. Só os tempos é que são outros; ao invés de resmas de papel, arquivos do Word. Muito bacana esse seu texto.

Vais disse...

Adelaide,
que coisa é esta vida, ser dona de casa, mãe, correr atrás dos trocados, e nos intervalos ter manias de escrever, bordar e pintar o 7 (risos)...
A da foto é a Clarice? e o texto é seu?
Se não se importa qualquer hora destas levarei este para o canto.
beijos

adelaide amorim disse...

É, Vais, a da foto é Clarice em Nápoles. O texto é meu mesmo (suspiro), quem me dera!

Câmera Digital disse...
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Marcelo F. Carvalho disse...

Adelaide, se não fosse pela palavra: monitor... Sei não... Estava em dúvida.
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Clarice (e isso já não é nenhuma novidade) é muito especial pra mim (aliás, nome da filhota).
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Adorei o texto!
Abraço forte!