segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As palavras nos lambuzam



Chocolate é uma dessas coisas que se valorizam pelo nome. O poder da palavra, quase sempre associada à imagem, é mesmo a base de toda propaganda; a propaganda se nutre de palavras, e nós acabamos engolindo o que ela nos empurra pelos olhos e ouvidos.
Elas não querem nunca dizer exatamente o que dizem, mas como dizer sem elas? Por imagens, ideogramas? É possível até certo ponto Mas tudo sempre acabará em palavras, vozes ou letras, para nós que falamos línguas literais. Até no sonho, quantas vezes se levanta contra nós uma maldição de palavras inexatas, aflitivas, nem trevas nem luz, um meio-termo contra o qual não dá para lutar – não há como lutar contra o sonho e o que ele quer nos dizer.
Quem conhece todo o poder das palavras?
As línguas vivas, faladas ou escritas, usam as palavras de tal modo que sempre lhes acrescentam ou modificam o significado, e nisso parece consistir a presença da criatividade na linguagem humana. Mesmo as referências, os termos arcaicos, monossílabos ou textos mal construídos podem falar de modo estranho, mas são sempre passíveis de decodificação.
Palavras agradam ou não; podem ser entendidas menos ou mais rapidamente. Mas todas sem exceção descrevem arcos de significados, associativos, denotativos ou conotativos. Todas têm algum sabor, e o mais fantástico: nunca o sabor de uma será igual ao de outra. Às vezes uma mesma palavra pode mostrar muitas faces, se você parar, concentrado, à frente dela. Como já disse o poeta, muito analisada uma palavra acaba ficando nua na sua frente.
Para quem ouve ou lê, cada palavra se associa a uma cor, um cheiro, uma sensação, um fato de memória. E mais: as palavras são bumerangues de percursos desiguais, mas acabam sempre voltando às mãos ou à cara de quem as diz ou escreve.
Com licença, vou lavar as mãos lambuzadas pela propaganda enganosa desse chocolate, que nem era lá essas coisas. Argh.

Texto reeditado

8 comentários:

Halem Souza disse...

Palavras:"bumerangues de percursos desiguais". Adorei isso!

E com essa sua crõnica, lembrei-me daquele poema do Drummond (Procura da poesia) no qual ele diz:

"Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta/ pobre ou terrível, que lhe deres:/ Trouxeste a chave?"

Um abraço

sandra camurça disse...

Ah, Adelaide, fui atraída pelo título da postagem e pelo chocolate...rs... muito bom o texto. Sabe uma palavra que eu adoro? Burburinho, gosto da sonoridade. Evidentemente tem muito mais.
Beijos.

Huckleberry Friend disse...

Gostei... acho que até engordei a ler isto. E fiquei com um desejo de ir comer chocolate... realmente, as palavras têm poderes ocultos.

Tania regina Contreiras disse...

Ah, eu sou chocólotra (sob controle, porém) e palavólotra...rs
Beijos, querida...

Angélica Lins disse...

Que coisa deliciosa...Desde o blog ao texto.

:)

Jorge Pimenta disse...

ora aí estão duas coisas que me ajudam a lavar o corpo de todas as maleitas: chocolates e palavras. chocolates apalavrados. chocolates de palavra. chocolates? palavra! palavra de chocolate.
afinal, ainda há coisas que ajudam a tornar as mãos nos verdadeiros mapas de sonho.
beijinho, dade!

CAROLINA CAETANO disse...

A comparação com o chocolate foi das melhores. E também a parte do sonho me fez retomar muitos pensamentos em relação à tar da palavra.
Lembrei-me do Artaud, quando ele fala sobre a criação dever ser estimulada por imagens como as imagens oníricas.
Tá incrível esse texto, tocou num assunto do qual, geralmente, eu fujo a escrever.
Um abração!

Djabal disse...

você, eu, nós em suma, seus leitores, somos apreciadores dos mais diversos sabores das coisas transformadas em palavras. cada uma delas é uma metáfora. e o que as torna tão atraentes é a inesgotabilidade. que vai desde o mais profundo amargo até o mais descabelado doce. beijos e uma ótima semana.