sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Bons propósitos


Foto Carlos Matos.

O imenso mal de minha vida, motivo de algumas frustrações, mas também de alegrias que só eu conheço, é que não deixo nada pra depois. Se alguma coisa me atiça muito, entro nela e me atolo até o nariz. Obviamente, há coisas que não podem ser tratadas desse jeito. Quase nada pode. Sei bem que para cada coisa que se faz deve haver um tempo de preparação, um tempo necessário em que se ronda, cheira, toma conhecimento do projeto, por mínimo que seja, como uma fera ronda a presa, antes de entrar no assunto propriamente.
Quando se trata de escrever, é absolutamente desastrado sair produzindo dois ou três textos ao mesmo tempo, porque o resultado vai ser o de sempre: você vira autor de dois ou três fragmentos, dos quais pelo menos um vai ficar esfriando na gaveta até ser retomado – e aí será um prato frio, e vai ser preciso um tempo e alguma força de vontade pra não abandonar o que se começou. Mas quem disse que a sensatez habita meu micro? Meu micro é um pequeno caos dividido em diretórios nos quais bem que me esforço para organizar um pouco a sopa de letrinhas de meus arquivos.
Mas se nem nesse domínio estritamente meu consigo estabelecer uma ordem apreciável, que dizer das atividades que não dependem só de mim? Não contando com os afazeres do dia-a-dia e passando ao espaço da agenda, tenho que fazer justiça a essa pobre agenda incompreendida, que só falta falar pra me lembrar das horas marcadas que não anotei e esbaforida lembro na última hora. Justiça seja feita: em geral lembro. Mas às vezes – se o que a agenda registrou é muito apelativo ou importante para mim – lá vou eu remarcar a dentista, minha vítima predileta.
Como estou ficando crescidinha, resolvi recondicionar esse lamentável comportamento, ao menos quanto a meu trabalho. Não interrompo mais um texto nem que chova bala perdida. Se começar, vou até o fim. Palavra de quem nunca foi bandeirante nem muito menos escoteiro. E mesmo que o ano novo esteja longe, escrevo sobre bons propósitos. Deve ser por causa da doce alegria de estar ouvindo, no DR Netradio, My foolish heart, piano e voz de Bill Evans – que, Deus sabe, é um néctar dos deuses para os ouvidos cansados do rock gótico que a adorável adolescente da casa costuma escutar.

4 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Adelaide,
Acho que você não tem do que se queixar. Os textos que escreve são ótimos. Esse caos criativo a que você se refere deve ser sempre invocado, procurado com persistência. Os vários fragmentos acabam se juntando, servindo de base para outros e formando, no final, um inteiro coerente e bom. Escrever é isso mesmo. Angústia e dor. O prazer só chega bem depois.
Grande beijo

Vais disse...

Olá Adelaide,
FELIZ ANO TODO! lembrando da Acantha.
Adorei. A foto é linda, eu adoro andar de bicicleta.
Beijo

av disse...

I'm back, Adelaide.
E retomando os bons hábitos do ano que passou: um deles é ler estes seus textos, que já não dispenso.
BOM ANO de 2008, e escreva muito (fragmentados ou não, são óptimos!)

Beijinho
Ana

Só Magui disse...

De qualquer forma sai sempre textos excelentes como este.Para os seus leitores, é o que importa.
http://somagui.zip.net