
Charge de Coletti.
Nossos heróis morreram de overdose, como disse Cazuza em outro contexto. Como tudo nesta vida tem sempre um lado proveitoso, cabe refletir sobre o assunto, aliás nem tão misterioso nem tão contraditório.
Pode ser que dessa vez a gente aprenda a lição: ninguém é só do bem. Todo mundo tem seu viés canalha. Verdade que alguns exageram. Mas uma coisa mais uma vez ficou clara: não é o hábito que faz o monge, mas pode ser que a ocasião faça o ladrão em muitos casos insuspeitados. E vamos parar com essa mania de explicar as coisas pela latitude. Pode-se estar à direita do meridiano e ser gente boa, assim como podem alguns mais a oeste merecer estima e consideração. E até, por que não, confiança.
As conclusões que pessoalmente tirei das sucessivas crises nas quais andamos chafurdando foram basicamente duas: é indispensável conhecer o passado de um candidato a qualquer posto eletivo, em vez de acreditar nele de graça. E caso não consiga acesso a informações razoavelmente confiáveis sobre o fulano, não votar nele. Ainda que seja preciso votar nulo, o que também é um modo democrático de expressão.
O que me parece antidemocrático e muito ruim, neste momento em que a gente sente tremer a terra pátria, é desacreditar de todos os princípios ou pior ainda, em nome de generalizações capengas desacreditar de tudo e achar que todo mundo é igual. Toda crise, por pior que seja, tem começo, meio e fim. Coisas piores já passaram – duraram até vinte anos, e quem não foi exterminado pôde ver sociedade e história execrando o que durante aquele tempo interminável foi a dura realidade da lei do mais forte.
Ao contrário: agora é que a gente precisa de princípios, de um conceito claro e nítido do que seja ética, que é ciência da ação, onde se analisam como e por que agir de um modo e não de outro. Agora é a lei do mais rico.
O que norteia a ética é a figura do outro, aquele que precisa ser levado em consideração quando se decide fazer alguma coisa. É esse o conceito que as autoridades não se lembram que é preciso incutir nos alunos em nossas escolas, nos currículos das academias que formam profissionais liberais, nos cursos de administração de empresa e marketing ou do que se chama vagamente formadores de opinião. Dá pra entender, porque ninguém dá o que não tem.
Toda carreira tem sua ética própria e específica para viver em sociedade, interagir com clientes, colegas, alunos ou superiores. Mas o princípio é um só, vale pra todo mundo, formado ou não, em qualquer classe social – contanto que seja gente: ser capaz de se pôr no lugar do outro e pensar duas, três ou vinte vezes antes de fazer o que vai atropelar os direitos ou as necessidades desse outro. Seja ele quem for, e ainda que não tenha um rosto conhecido pra nós, nem seja simpático ou estimado. E mesmo que a dinheirama que vai servir a esses direitos e necessidades esteja aí, à vista e ao alcance da mão.
Talvez seja esse o jeito mais eficaz de controlar o viés canalha que todos nós – mas todos mesmo – possuímos.
3 comentários:
Adelaide,
Concordo, assino em baixo. As generalizações tornaram-se regra geral. Em todas, absolutamente todas atividades, existe gente honesta, do bem, querendo construir. Não podemos tirar os bons pelos maus. Até porque seria a maneira mais rápida dos canalhas vencerem.
Beijo
Realmente, há safardanas a leste e oeste (como sempre existiram ao norte e ao sul); a coisa está para além da posição ideológica e/ou econômica. E somos todos canalhas, é verdade, embora eu seja um pouco menos que a maioria (minha santa mãezinha que o diga). Mas o que me encasqueta nesse debate todo em torno do debate ético é justamente essa bola que você levanta: é preciso saber (e querer) se colocar no lugar do outro. Adelaide, eu que sou o rei do pessimismo, te digo: é aí que a porca torce o rabo.
Trabalho em escolas públicas há muito tempo e discussões éticas nesses espaços, por mais paradoxal que pareça, estão longe de avançarem, só para você ter idéia... Mas seque a vida. Um abraço.
P.S. Rock'n'roll will never die? Oh, yeah!
concordo com vc em gênero, número e grau, adelaide.
O pior do mal é o mal que ele desperta em nós, o que nos faz ignorá-lo, tanto do lado de dentro quanto do de fora.
´só reconhecendo nossa própria maldade podemos enfrentá-la eticamente - dentro e fora de nós.
beijão
Nina
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