sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Santa, Noel e as renas



Neste ano Papai Noel não saiu no trenó de renas, que as crianças adoram ver desfilar do alto de suas janelas. Repassou a correspondência volumosíssima a seu assistente imediato, encarregado de vestir o uniforme vermelho e cruelmente quente na noite do dia 24, para levar os presentes dos filhos da classe A, normalmente uma tarefa do chefe. Neste ano o assistente acumulou as entregas com as da classe B, sua atribuição regulamentar. Outros dois assistentes são encarregados respectivamente das crianças de classes C e D, além de um quinto, que coordena os trabalhos e orienta os componentes da equipe quanto a endereços difíceis de encontrar.

Impossível precisar dia e hora, mas tudo parece ter começado com São Nicolau, um bispo grego da cidade de Mira, que gostava de distribuir presentes aos pobres. Venerado por várias igrejas cristãs, é padroeiro de muitas profissões (incluindo os ladrões), crianças e estudantes em diversos países do Leste europeu; padroeiro de Nova Amsterdam, primeiro nome da cidade de Nova York, e da guarda dos imperadores bizantinos, encarregados de zelar por suas relíquias. De tão conhecido e estimado, acabou sendo identificado ao velhinho de roupa vermelha e barbas brancas – Santa Claus – que segundo a tradição distribui presentes na véspera do Natal a todas as crianças de bom comportamento. Até aí vai a lenda, porque a gente sabe muito bem que bom comportamento é uma exigência retórica, sem muita ligação com a realidade.

Há décadas Noel faz esse trabalho com grande satisfação. Terminadas as entregas, gosta de ver as carinhas saudáveis e bronzeadas dos meninos ricos diante da árvore iluminada e dos embrulhos, que rasgam com pressa de ver aparecer jogos eletrônicos, livros, bonecos, bichos, instrumentos de música, trenzinhos, bicicletas. Gosta em particular de ver a excitação dos mais taludinhos diante de jipes, cartes e motos. Até barcos e asas delta Noel tem entregado a garotos que mal entraram na adolescência, e sabe deus como irão usá-los. Alguns desses presentes o deixam mesmo apreensivo, mas é preciso cumprir sua missão com o mesmo ho ho ho para todos.

De acordo com a versão americana, Santa mora em sua casa no Polo Norte. Pela versão britânica, vive nas montanhas de Korvatunturi, na Lapônia, com Mamãe Noel – invenção de autores americanos – incontáveis elfos e oito ou nove renas voadoras. Uma figura anacrônica. Foi principalmente por causa do interesse comercial nos festejos de Natal que a imagem de Papai Noel ganha vida e vem falar com as crianças em shoppings, lojas e nas ruas do mundo todo. Alguns pais reforçam a lenda na noite dos presentes, para provar aos filhos pequenos a existência do velhinho de vermelho. Devia ser muito grato aos fakes que ganham uns trocados para confirmar sua existência e impedir seu ostracismo. Mas uma pessoa de existência perene não se preocupa muito com isso. Afora sentir-se quase equiparado a Deus, e portanto satisfeitíssimo consigo mesmo, deve achar bem chatos os humanos convencionais.    

Neste ano, Noel entrou em recesso, como a maioria dos funcionários públicos, parlamentares e empregados qualificados das empresas em geral. Mas ao contrário desses, seus dias de folga não foram motivo de alegria nem serviram para lindos passeios ou aventuras gastronômicas especiais. Nem pensaria em viajar nas últimas semanas do ano. Esteve todo o tempo ocupado em resolver os itens de seu litígio com a senhora Noel, pessoa de trato difícil, reunidos cada qual com os respectivos advogados para redigir os documentos da partilha dos bens e fixar a pensão dos filhos – dois gêmeos de onze anos que, à meia-noite do dia 24, receberam seus presentes pelas mãos do encarregado da classe média baixa à qual pertencem.

O problema familiar de Noel jamais atormentaria Santa. Mamãe Noel, sua senhora, séculos mais jovem, deve ser uma espécie de Virgem Maria. Ainda que fosse atingida pela morte, ressuscitaria inteira e mais viva que antes. Não subiria ao céu, e sim ao Polo Norte, para continuar sua existência naquela casa confortável e alucinatória. No mundo deles, nenhuma dificuldade. Talvez nem mesmo o dinheiro seja conhecido por lá. Quem convive no próprio quintal com figuras tão exóticas está acima dessas mesquinharias. A história não especifica até que ponto sua vida pode ser divertida, mas é difícil imaginar o tédio morando com eles. Talvez no período que vai do fim de janeiro ao início de novembro, quando começam as atividades locais. Ou não. O tédio deve ser um triste privilégio dos humanos, que precisam viver inventando agitos, festas e toda espécie de lazer e armações para não mergulhar na mesmice. Mas é difícil entender de que se ocupa um aposentado sem benefício na Lapônia.

Noel é um cara sensível, preocupado com a alegria das crianças, sempre atarefado em encontrar as coisas que lhe pedem antes do dia marcado. Seus ajudantes seguem seus passos, aprendem com ele a respeitar o desejo dos filhos dos outros como se fossem deles próprios. É verdade que nem todos os noéis de shopping e de rua têm tanto caráter. As falsificações se desdobram e crescem a cada Natal. Isso não o abala nem faz esmorecer. Noel incorporou sua missão e nunca relaxou, quando se trata do 24 de dezembro e dos dias que precedem o mês dos presentes.
Agora no entanto, pela primeira vez em toda a longa carreira, foi preciso delegar as funções que, de tão bem executadas, parecem determinadas pelo próprio Santa. Noel não é tão velho assim, não chegou a conhecer seu protótipo na ativa, mas ouviu muito falar dele, pesquisou e leu tudo que pôde a respeito. Quando a mulher lhe comunicou que decidira separar-se, quase caiu com o choque. Imaginava que, sendo ele quem era, também a senhora Noel se assemelharia àquele arquétipo de mulher perfeita e imperturbável.

Os personagens das lendas têm sua própria realidade, e até suas agruras, como os deuses antigos. No caso dos Santa, embora poucas coisas possam perturbar uma pessoa sem medo da morte, talvez tenham algum trabalho com uma rena de asa quebrada, um elfo de mau caráter, sabe-se lá. É complicado falar sobre a vida desse casal tão irremediavelmente bem ajustado. Não se sabe se tiveram filhos ou não. A palavra separação, porém, não consta com certeza do vocabulário deles, por inútil e até inexistente no dialeto lapônio.

O episódio da separação tem servido a Noel como parâmetro da distância, quase ou mesmo infinita, entre eles e os Santa. As duas semanas de preparação de ações, consultas jurídicas e sofrimento profundo, que precisa disfarçar diante dos meninos e dói ainda mais por isso, têm como agravante o sentimento da injustiça, da falta de equidade entre pessoas de funções idênticas e levadas a cabo com um perfeccionismo que vai muito além da simples competência. E essa agonia ainda vai durar pelo menos uns dois anos, até que tudo fique ajustado e os recursos e instâncias se esgotem. Sem falar na questão da partilha, que o preocupa e desanima. Não tem mais idade para recomeçar a vida, e seus bens, já tão poucos, serão reduzidos à metade ou menos que isso, na pior das hipóteses.

Santa é sem dúvida uma figura de recluso. A notícia de sua imortalidade deve ser uma das invencionices tão comuns em tais casos. Sabemos que as pessoas que somem de circulação – em geral artistas ou homens públicos a) cansados de bajulações e da incompreensão das massas e da mídia e b) fugindo de alguma sanção legal – deixam em seu rastro uma aura de mistério e um monte de boatos. O exemplo mais grandioso desse fato foi o Deus do Antigo Testamento, que vivia dialogando com os humanos ou distribuindo carões e castigos horrendos; passado aquele período assustador recolheu-se ao Paraíso e não interferiu mais na vida dos humanos senão de forma indireta e ambígua, deixando margem a teorias, cada vez mais populares e difundidas, que negam ou levantam graves dúvidas sobre sua existência.

Nunca passou pela cabeça de Noel tornar-se um recluso. Não é um homem sofisticado a esse ponto. Sua visão de mundo inclui a necessidade de trabalhar – é contador, na vida civil – e se resolvesse abandonar tudo para ficar em casa provavelmente iria acabar passando fome. Mesmo sua pequena empresa natalina, taxada pelo super simples, nasceu da necessidade de uma fonte suplementar de renda, antes de se tornar aquela paixão quase religiosa. O lucro não é lá essas coisas, mas serve como substituto do 13º. Em termos de preferência pessoal, ele na certa se dedica com mais amor e prazer aos afazeres do fim de ano. Daí a identificação crescente com Santa e a angústia profunda que o tomou diante do comportamento da mulher, tão em desacordo com a verdadeira senhora Santa.
Na impossibilidade de criar as renas da verossimilhança, Noel dá um jeito de encomendar pequenos veados-mateiros a um amigo do Centro-Sul, e todo ano os atrela a uma carrocinha, dessas que, puxadas por bodes ou pôneis, dão voltas nas praças para divertir as crianças. Conseguiu até uma licença especial do Ibama, com a condição de devolver os bichos a seu habitat natural depois da noite de natal (despesas por conta o amigo fazendeiro). O único problema é a falta das galhadas, e ele chegou a pesquisar a sério, esperando encontrar algum tipo feito em plástico, quem sabe. Impossível conseguir asas, mas os chifres lhe pareciam indispensáveis para criar uma cenografia aceitável e impressionar as crianças nos curtos percursos a percorrer.
Foi pesquisando a esse respeito que descobriu um detalhe fundamental para explicar as diferenças entre a senhora Noel e dona Santa. Acontece que, tanto renas machos quanto fêmeas têm chifres. Isso faz das renas um tipo único de veado e explica, de seu ponto de vista, a qualidade inferior de sua mulher: essas renas chifrudas simbolizam a têmpera e a fibra da parceira de Santa. Deve ser essa a razão por que elas são assim tão especiais. Um reles veado-mateiro não garante nada mais que força para puxar a carroça por um quilômetro, se tanto. Além do mais, as renas lapônias até voam, garantem um percurso majestoso e sublime, que seus veadinhos nem chegam a fazer lembrar.
Noel suspirou e baixou a cabeça, derrotado. Nunca seria um êmulo à altura de Santa. Tudo que tinha feito até então não passava de macaquice, diante da perfeição de seu ideal e das renas que o carregaram pelos céus de dezembro nos natais antigos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Náuseas



Eu sei, eu sei, o Natal está chegando, é hora de votos alegres, bolinhas cintilantes e barbudos suarentos de roupa vermelha. Dependendo do contexto, tudo isso também pode ser uma náusea.
Assim como gente jogando lixo da janela do carro; notícias sobre a CPMF; a cara do político safado. Autoajuda de ocasião, conselhos impossíveis, como aqueles que ameaçam você com câncer e infarto caso não os siga – e se você resolve segui-los, não tem mais tempo nem de ler duas páginas por dia ou pegar um cineminha, chegando à conclusão de que a vida não vale nada. A revista com suas caras cheias de dentes fake. Programação de tevê nos fins de semana; gente que se acha o máximo. Correntes por e-mail; textos assinados por autores famosos que nunca os escreveram; mensagens de nove megas pra você perder tempo de abrir e ver um desfile de figuras bregas e textos bobocas. Baile funk ou festa que nunca se acaba no play do prédio vizinho. Os preços nas livraria (campanha pela multiplicação dos sebos já!!!). Falsidade, mentira desnecessária, deslealdade, corrupção, exploração, plágio. Políticas (?) de educação no Brasil. Submissão cega à moda, o consumismo fútil que agrava as desigualdades sociais. Estupidez, violência, agressividade liberada, desrespeito pelos outros e pela natureza, falta de educação, insensibilidade aos problemas alheios. Candidatos a ditadores em geral.
É nauseante não poder confiar nas pessoas, às vezes vizinhos ou colegas de trabalho. É de dar calafrios ter que andar na rua com medo de quem passa. É uma ressaca ser acordado às sete e meia da manhã por um telefonema de marketing. É de dar desgosto ver a Barra da Tijuca transformada em Miami. E não dá mais pra aturar a avalanche de efeitos especiais – e a barulheira que eles fazem – dos filmes americanos médios, os mais numerosos, a visão de mundo boçal que impregna esses filmes, nem a babaquice das comédias que se repetem ad nauseam nos telecines da vida.
Tirando mais uns tantos itens nauseantes, que ia ser dose ficar enumerando, mas que a gente atura e acaba ficando ranzinza por causa deles, vamos enfim reconhecer que o Natal pode ter momentos genuinamente gostosos, de alegria e até de felicidade. É desses que desejo aos queridos amigos do blog.
Até a volta, queridos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Vinhetas

As palavras podem servir como lanterna de pilha na hora do apagão do sofrimento. Mas pode ser pouco para o coração, esse músculo exigente. Ele ainda prefere mão amiga no ombro, calor de abraço ao vivo, coisas ditas cara a cara. Ainda que a amizade virtual dure e crie raízes no tempo, faz falta a imperfeição humana da presença.



Há senhôras da sociedade, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres de nossa história e até pessoas simples, legalistas, conservadoras, seres medianos sem culpa no cartório que não admitem ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. São diferentes mesmo, é claro – não existe alguém igual a outro neste mundo, nem gêmeos idênticos. Mas todos, sorry, se nivelam em certas semelhanças, e nem falo só dos sete palmos. Tão lembrados?



Amor e ódio são como dois rios que nascem juntos e seguem assim até que uma chuva forte misture suas águas. Não sei se é mais fácil limpar o rio depois da chuva ou o coração depois do desentendimento.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O ano novo deste mês


Vista do rio Paraíba.

A festa do Ano Novo guarda um link permanente com a vida, a alegria, os planos, os sentimentos e as emoções mais queridas. Não é a toa que toda mensagem traz marolas de doçura, um leve eriçar de adrenalina que nos faz sorrir para tudo e todos. E pode acontecer que a gente nunca se esqueça de um réveillon por sua alegria, de como foi bom abraçar e beijar pessoas queridas, conhecer gente nova, querer bem, ouvir vozes e viver as mensagens do tempo em que ficamos um pouquinho crianças de novo, para agitar o corpo e aproveitar a boa vontade geral.
E pode ser que afinal se queira fazer desse novo pedaço de tempo uma viagem nova, ver lugares diferentes, entrar em caminhos abertos fora das trilhas já tão pisadas de sempre. O dia-a-dia vai endurecendo uma casquinha em volta das coisas que se repetem; os atos habituais, obrigatórios, automatizados, vão tomando um lugar mais extenso e, antes que a gente se aperceba, engolem boa parte de nossa vida, escondem a espontaneidade, o prazer das pequenas coisas.
Mas não é preciso esperar que chegue o dia. Se é tão bom quebrar a rotina e inovar, por que não fazer isso a qualquer momento, criando uma oportunidade?
Velejar por outros mares, mesmo sem iate nem lancha. Mesmo sem sair de casa, do escritório, do carro que não foi trocado, do metrô, do ônibus nosso de cada dia. O que tem que mudar não é o lugar, o que está fora e não depende só de nossa vontade. Dá pra ver com outros olhos, de outro ângulo. Viajar descobrindo o novo, o diferente. Reavaliar o que sempre consideramos desimportante ou indigno de atenção. Pôr à prova nossas convicções inabaláveis, nossas certezas absolutas; questionar as "questões de honra" que, fala sério, acabam nos tornando uns chatos até para nós mesmos. Olhar com olhos de ver as pequenas belezas que cruzam o caminho, atentar ao canto fugidio de pássaros nas árvores da calçada em frente da janela; no riso, na voz, na fragilidade das crianças; em cores, sons e aromas que deixamos passar e podem ser uma fonte de prazer sensível. Reparar nos outros, não com olhos de crítica ou desdém, como tantas vezes acontece, mas para notar o que cada um tem de pessoal e diferente – uma voz bonita, gestos agradáveis de ver, um andar desenvolto, uma beleza física qualquer, um olhar caloroso, um sorriso bom de olhar. Voar nas asas da música à qual temos negado a terminação mais sensível do ouvido, do livro que ainda não lemos, do quadro que não olhamos com atenção, e até de uma fachada bonita, um telhado maneiro, sem outro interesse que contemplar, ganhar alguma coisa que o dinheiro não compra.
Estar em casa, no trabalho ou na rua não significa estar preso, atado, limitado. A não ser que se prefira ficar repetindo “não gosto, não quero, nunca experimentei e não vou começar agora”, há um jeito mais leve de levar a vida. Perceber que a liberdade interior é sem limites é um passo decisivo. O prazer de viver, que parece desbotado porque a vida em volta de nós cegamente se repete, forma uma nuvem espessa, um calo – esse prazer se redescobre e até nos espanta, logo que se fura a casca da rotina e se inaugura um ano novo particular. Nada complicado, nem caro nem inatingível. Basta estar vivo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Calvino nas árvores



Calvino, Italo. O barão nas árvores. Tradução de Nilson Moulin. (2009) São Paulo: Companhia das Letras.


O que maravilha em Italo Calvino é a agilidade e a versatilidade de seus textos. Um livro como O barão nas árvores teria tudo pra se tornar uma leitura no mínimo monótona, caso fosse linear ou tivesse aproveitado o argumento para descrever coisas estáticas como paisagens, por exemplo. Mas não se corre esse risco num texto de Calvino. Ele atende a todas as perspectivas, por assim dizer. A narrativa caminha o tempo todo por aqueles galhos desiguais, entre folhas, espinhos, bichos, flores e frutos, mostrando não só o que vê e vive a figura improvável de Cosme Chuvasco de Rondó, mas também a vida dos nobres, mentalidade e costumes europeus do século 18, além de uma visão dos conflitos da época.

As histórias da Segunda Guerra, que motivaram vários autores no fim dos anos de 1940, domínio do neo-realismo italiano, trouxeram a fama ao escritor com A trilha dos ninhos da aranha, de 1947. Em 1956, quando Calvino escreveu Fábulas italianas, uma visão completa ou quase das histórias populares da Idade Média italiana, percebeu que, bem avaliada, a lógica dessas histórias não perdera de todo sua atualidade. Partiu então para três livros surpreendentes, em que o irreal e o fantástico ocupam o primeiro plano. Comaparado a O visconde partido ao meio e O cavaleiro inexistente, que formam com ele essa trilogia, O barão nas árvores é o menos “maravilhoso” dos três. O olhar do autor é irônico e bem-humorado, e a narrativa, isenta de qualquer preocupação de ordem moral ou pragmática, não perde de todo sua ligação com a realidade. A ideia do protagonista, de que para entender bem a vida na Terra é preciso manter alguma distância dela, é um postulado puramente racional. Pode parecer também um indício de que o barão de Rondó teria escolhido se isolar ou se vegetalizar. No entanto, isso é desmentido pelos fortes laços que ele, lá de suas copas, continua mantendo com a sociedade, a família e as mulheres. A vida sobre os galhos é na verdade uma proposta alegórica de ver as coisas de um ângulo mais amplo do que de dentro de uma casa da baixa nobreza.

Até o fim de sua história, Calvino mantém o personagem sem voltar a pisar o chão, e no entanto sempre mergulhado nos acontecimentos cá de baixo e com uma vida afetiva das mais movimentadas em todos os aspectos. Os personagens traduzem suas dores e incertezas em atos estranhos, como Batista, a irmã amargurada, preparando patê de fígado de rato, seu pai, sempre iludido quanto à importância da família na corte, ou o abade aluado, preceptor dos filhos. Mas o clima criado e mantido pelo romance afora é uma afirmação implícita do que todos nós já sabemos, cada qual a seu modo: mudança e finitude são os pressupostos da vida, aos quais cada um responde a seu modo. E ainda assim, Calvino não deixa as coisas caírem no lugar-comum.
 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os esqueletos no armário





A assombração teve seu primeiro registro conhecido à saída do jardim do Éden, no exato momento em que Adão e Eva transpunham o enorme portão lavrado pelos arcanjos encarregados da decoração local. Posto o pé do lado de fora do paraíso, a voz tonitruante do criador deve ter soado a seus ouvidos escaldados como coisa do além – o que de fato era. Mas o além era o jardim das delícias perdidas, a lembrança do que era doce e se acabou. Identificada à vida intra-uterina do feto, todos nós carregamos essa nostalgia do paraíso.
Isso deve em parte explicar por que as pessoas gostam tanto de histórias de assombração, que provocam medo de um suposto desconhecido – na verdade bem conhecido. Atração e repulsa, fascínio e terror por uma realidade que não se sabe bem como será, da qual se guarda apenas uma lembrança vaga o bastante para parecer ilusória, mas tão convidativa que dá medo.
Não sei se me expliquei bem. Com certeza, não. É difícil falar do além de modo claro. Não faria sentido, mesmo que procurasse explicar a coisa a fundo, porque a assombração é antes de tudo um não-sentido. Quem poderia explicar com exatidão matemática "O corvo" de Poe? Não restariam nem as penas. Aquilo a que falta consistência lógica deve manter-se em seus próprios domínios, que são sutis e incompatíveis com o passo-de-ganso da razão. A lógica está para o mistério assim como a criptonita está para o Super-Homem; se tentarmos explicá-lo ele se esfarela e desaparece, porque à luz da razão vira pura bobagem.
Não é bobagem, no entanto. Apenas pertence a outra dimensão da realidade. A julgar por seu sucesso nas histórias de ficção de todos os tempos e lugares, filmes e causos contados ao pé do fogo nos sertões do Brasil, assombração é coisa séria. E tem seus parâmetros: pode não passar de impressão, se for mera menção; se for demais, é cafona como os cordões de ouro no peito do traficante.
Pessoalmente gosto de uma assombração moderada, vista ou entrevista por pouco tempo. Nada de rostos em decomposição, vermes furando a pele ou garras perseguindo inocentes pedestres em corridas desabaladas pela rua. Assombração que se preza tem que ser uma presença mais sugerida do que presente. Tipo aquele casal de A outra volta do parafuso, de Henry James, que deu filmes sensacionais com aquele chamado Os inocentes.
O que me dá agradáveis arrepios é a idéia de uma presença invisível ou que se manifesta por indícios, que deixa sinais ou apenas se mostra de relance, como se fosse uma ilusão de ótica, e no entanto altera a ordem natural das coisas.
Alguns livros ou textos afins ao assunto falam de pessoas e acontecimentos que nem mesmo podem ser rotulados como histórias do além, mas causam um efeito similar sobre seus leitores. Está nesse caso o realismo fantástico de algumas obras de autores como Borges, Cortázar, Bioy Casares ou García Márquez.
Está nesse caso também um romance de 1954, chamado A menina morta, do brasileiro Cornélio Penna, em que a força da personagem-título se manifesta sobre a realidade sem que haja qualquer evocação ou interferência positiva de um fantasma do tipo tradicional. Penna, cujo trabalho envolve um clima opressivo, era um caso quase isolado entre os autores de seu tempo aqui no Brasil. Assim como aconteceu com Clarice Lispector, que deixou textos enigmáticos ou sombrios como "O ovo e a galinha", "A princesa", "O pequeno monstro" e algumas histórias de Onde estivestes de noite, entre outros. O estranho e o insólito pontuaram a grande maioria dos textos de Clarice, que não por acaso chegou a ser considerada bruxa. Um outro exemplo de romance marcante, mergulho no mundo subjetivo de seus personagens, é A crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, cuja narrativa envolve o que se poderia entender como o processo de geração do fantasma – por assim dizer, um fantasma avant la lettre.
A meu ver, o papel – e atrativo – principal da assombração é que ela manifesta aquilo que está desde sempre dentro de cada um de nós, mas vive preso, escondido no porão, trancado a sete chaves porque, uma vez liberado, faria de nós seres indesejáveis, incapazes de conviver em sociedade e politicamente incorretíssimos. A figura do estranho, da pessoa ou coisa que provoca horror ou medo, não seria tão ambígua e atraente se não correspondesse a alguma coisa com que todos estamos secretamente familiarizados – embora pensemos sempre nessa coisa como uma entidade com existência própria. Assombração não é feita para assustar (embora em geral assuste, por uma espécie de efeito colateral). O estranho existe para nos fazer viver a vida de modo mais completo, já que viver é muito mais do que pagar contas no banco, namorar ou ir ao cinema.
Expor os sentimentos humanos mais sombrios e escondidos sob a forma de seres ou fatos enigmáticos e sinistros pode ser um modo criativo e muito refinado de ampliar o conhecimento do mundo e das pessoas, visto de uma perspectiva nova e esteticamente rica. Uma percepção que não obedece ao habitual e rotineiro pode nos abrir os olhos para ideias como a do tempo em sua dimensão esmagadora e implacável. Pode nos dar a perceber, como num espelho, o vazio que cada um de nós carrega vida afora, por mais que conquiste sucesso, dinheiro e até amor e amizade.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Viagens aos mesmos lugares






Foto Ale Felix.


· Durante duas semanas deixo de ler jornais e revistas, não vejo mais noticiário de tevê nem quero saber das notícias de política e polícia, muito menos das que misturam as duas e que são cada vez mais frequentes. Estou louca pra ver se isso muda alguma coisa na minha cabeça. Se mudar para melhor, repito a dose. Alienação? No, babies. Entrei num período de desintoxicação mental.
· Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu mesmo, por que tem tanta influência dos outros? Se não é meu, como se explica que eu, e não outro, diga o que acho que penso? Às vezes fico assombrada com a uniformidade de determinados discursos. Vivemos à sombra de um emaranhado de idéias e pontos de vista ditados por interesses que não conhecemos e não são os nossos. Não dá pra confundir os gestos e atitudes correntes e repetidas com opiniões próprias.
· Uma coisa que me deixa cabreira é a diferença entre o que de fato acontece na vida real e o que chega a nosso conhecimento via mídia. Aderimos um pouco sem sentir à opinião de um ou outro colunista que admiramos, pelo que sabemos dele e por suas idéias. Até aí, tudo bem. Mas parece que isso tem um efeito cumulativo. Acabamos nos condicionando a pensar pela cabeça dos outros, o que não se recomenda, por melhores que os outros sejam.
· Enquanto isso, vou pondo em dia as leituras que se acumulam em pilhas, perigando desmantelar alguns livros antigos, heranças de papá e de um tio bacana.