terça-feira, 4 de março de 2008

Edição extraordinária


Diogo Brasileiro. Chinelo.

Imagino que o anúncio do fim do mundo, nestes dias de comunicação vertiginosa, daria afinal uma oportunidade às pessoas para se revelarem do jeito que realmente são. Os ansiosos e hipocondríacos com que a gente sempre se esbarra aqui e ali possivelmente vão enfartar ou acabar com a própria vida sem ver o gran finale. E sempre haverá quem acredite que é doce morrer no mar. Ou dormindo, com ou sem gás aberto.
Mas a maioria talvez promova a maior festa de que já se teve notícia.
Afinal, acabou o primado do dinheiro, em razão do qual as pessoas ralaram a vida toda, obedecendo a horários menos ou mais implacáveis. Acabou a obrigação de honrar todos os compromissos, engolir sapo, aturar chefe ou patrão que se odeia ou fazer dieta. Casamentos de conveniência ou cansados de tédio podem enfim dar um alívio a seus reféns. Oprimidos e explorados podem afinal realizar seus sonhos mais libertários – e em alguns casos mais agudos dar vazão a instintos assassinos sem medo da cadeia. Exibicionistas, pervertidos, libertinos e seres assim em geral meio malvistos pela sociedade podem enfim arrancar as máscaras e se acabar na noitada. Cada um vai saber de si, e ninguém será de ninguém, se não quiser ser.
Por outro lado, os crentes, religiosos e místicos de todas as colorações estarão a mil, rezando, orando, cantando em coros desafinados, cumprindo penitências, fazendo procissões improvisadas, pregando enlouquecidos no meio das praças. Mais do que de costume, haverá público para eles, que são especialistas no além; nas horas extremas a credulidade das pessoas, que é diretamente proporcional ao medo, costuma atingir picos nunca dantes navegados.
Mas com certeza deve haver também místicos de profunda vida interior que escolherão acabar em recolhimento e silêncio, e para isso irão buscar o sossego das serras e florestas que ainda restarem por aí, porque os templos estarão entupidos de carolas e o ruído das ruas não lhes dará a paz necessária.
Paralelamente, os que se amam estarão juntos curtindo os últimos momentos com a possível serenidade que só amor de verdade pode dar. Apaixonados, recentes ou crônicos, vão querer morrer se amando, transando ou de mãos dadas em seus lugares prediletos. Artistas talvez prefiram esperar o fim praticando suas artes ou curtindo a beleza que deu sentido a suas vidas.
Não me lembro de ter algum dia parado para pensar em que reação teria diante dessa notícia. Mas já que falei no assunto, acho que ia querer reunir as pessoas que mais amo e liberar as comidinhas, os doces, o carinho e a doçura de estarmos juntos, sabe-se lá se pela última vez.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Rio X Havana: qualquer semelhança é mera pobreza


Havana, 1995.

Nunca fui a Havana. Fechando os olhos, vejo um pequeno ponto num horizonte inconcluso, meio embaçado. É uma terra que de longe brilha e promete. Ou será um espelho? Percebo um clima familiar, cenários que bem poderiam ser os meus. Além disso, as promessas de um grande futuro são velhas conhecidas nossas. De perto não sei como será. Conheço gente que foi e amou, quer voltar e só fala bem. Conheço gente que foi e se desapontou. As gentes se desentendem sobre o assunto, argumentam com a veia do pescoço saltada. Torno a fechar os olhos.

Viajando desse jeito penso nos trens decadentes e parcos, ônibus que línguas maldosas apelidaram de aspirina, porque, dizem, aparecem para aliviar as dores de cabeça de longas esperas. Escolheria na certa um táxi, não tão caro, de motorista amigável, sensível a uma barganha e habituado às agruras da vida, querendo ser útil a qualquer preço, ou talvez a um precinho mais lucrativo, se conseguir me empurrar um de seus artigos clandestinos. Seria talvez leniente com ele, experiência não me falta. Além do que ouço dizer que os riscos de um transgressor havanês são maiores que os de transgressores que conheço mais de perto. E que, apesar disso, o irresistível jeitinho sempre funciona e até pode se tornar uma ameaça séria no caso clássico da combinação otário/cambista.

É uma ilha – não a imensa de Santa Cruz, nem a da fantasia. Existe mesmo, e a ponta oeste da ilha parece querer tocar Cancún, por onde o México contempla o Nordeste. Segundo dizem, não há tempo ruim para ir a Havana, nem mesmo de maio a outubro, quando chove. De dezembro a abril é inverno, e os turistas vêm do Canadá, das europas, todos querendo ver como é o sol mais ao sul. Os da terra tiram férias em julho e agosto e enchem as praias, língua também falada com desenvoltura do lado de cá. Tem festa em Natal, que desde a visita do papa virou feriado nacional; festa na Páscoa; festa no aniversário da inefável revolução – que pela (ideo)lógica de tempos mais duros ignorava as duas anteriores –, e no aniversário do Fidel. E tome salsa a noite inteira. Em fevereiro, tem carnaval (já ouvi isso em outras plagas): desfiles ao longo do Malecón, paradas em frente ao Capitólio. Enquanto a Bolívia conserva o entrudo – um carnaval brasileiro bem porquinho, dos anos 20 –, Cuba celebra sua festa de modo mais compatível com o que conhecemos aqui: o ritmo, as mulatas, o calor dos corpos que vão à forra e aquela liberalidade unânime que arrasta mesmo quem não dança. Ou será que não? A miragem fica embaçada e tenho que recorrer a fantasias, vergonhosamente inconfiáveis como toda fantasia, que me fazem ver um vago temor nos olhares da festa. Continuarão assim nos tempos pós-Fidel?

As festas religiosas e até uma procissão tradicional perduram, abastecidas pela mistura afroeuropéia de crenças e sincretismos, pelo misticismo que não consegue dispensar um bom terreiro, orixás, santerías para conseguir proteção e ter com quem se agarrar nos maus sucessos, amalgamado ao Deus dos cristãos, marcado a ferro e fogo nas gerações mais antigas e introjetado extra-oficialmente nas mais novas. Em dezembro, concorridíssima festa de são Lázaro, de popularidade em tudo semelhante à de são Jorge do dragão. Familiar, pois não?
O povo gosta de um agito, vida noturna e importados de contrabando. Tem sangue quente e ama a vida – aquela que o diabo gosta e nós também. Adoram feriados, que coincidência, mas conseguiram menos que nós aqui. O governo promove festivais culturais o ano todo, já que a iniciativa privada anda à míngua ou nem anda. O colonial de lá é espanhol, o daqui é português; mas não é pouca coisa partilhar com eles a experiência de um passado quase fatal, a simpatia, o calor humano, o sensualismo, o misticismo resistente e o jeitinho que quase tudo consegue, permite e encobre.

Pobreza? Em nossa cidade nóis sofre mas nóis goza. Decadência? A gente também tem. É páreo saber onde se mora pior, se lá ou aqui. Do ponto de vista de minha miragem, Havana é assim tipo ruas sujas da Lapa carioca dos tempos de Madame Satã, prédios semi-arruinados, águas nada confiáveis, monumentos arquitetônicos e tradições que amolecem o coração. O plus fica por conta do ardor cívico que lá, por força da situação, faz a diferença todo dia – e aqui fica por conta da Copa do Mundo.
Compatíveis com nossa natureza sociável, um botequim – dizem que maravilhoso – chamado Bodeguita del Medio, e um bar americano, o Floridita, concorrem com nossos pontos de atração na caça a turistas. Lá como aqui, não só os estabelecimentos, mas as pessoas batalham incansavelmente atrás de turistas multirrentáveis, que se interessem por informações, serviços diversos, pelas mulheres locais e por alguma coisa de fumar ou beber. A atitude e o gesto têm a mesma natureza, e o cenário é o do comum pauperismo criativo – razões à parte. E se os naturais de lá precisam de turistas de boa vontade para provar os drinques que Hemingway imortalizou, os de cá não ficam atrás; a diferença é que, se falta turista, no Rio se apela para os passantes, incautos ou não, mesmo quando se trata simplesmente de comer, o que não deixa de ser um processo extra-oficial de redistribuição de renda. Ou então – e aqui falo muito mais dos cariocas, porque a cana lá é muito mais dura – assaltam o bacana, a velhinha, o colegial ou quem estiver à mão. Mas quem sabe até onde chegarão esses havaneses sem a sombra e os limites do Nome do Pai?

Dizem (e alguns até dizem que provam) que as maiores diferenças correm por conta da eficiência dos serviços básicos de educação e saúde de lá. Não sei, ainda não abri os olhos. Ouço dizer que ninguém fica fora da escola, que o ensino é de qualidade, que há medicamentos e médicos bem formados para todo mundo, hospitais bem equipados e pesquisadores de tirar o chapéu. Tenho a impressão de que minha miragem surgiu justamente desse foco de sedução civil. E miragem é o que o coração enxerga.
Talvez Havana tenha mais eco, mais memória, mais museus que o Rio. Terá com certeza belezas particulares imperdíveis, a Praça da Catedral, artesãos de fim de semana, torres e castelos dos mais antigos das Américas. Os contrastes, se não me engana a miragem, entram em campo usando as camisas do passado e do presente e batem um bolão. E quanto ao resto – bom, cada cidade ecoa seus próprios terrores, oficiais ou não.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Palavras vividas


Foto Ane Baylor.

Catarse é uma palavra forte e rude como uma grande camponesa de mãos quadradas e grossas. Também como a camponesa, tem um veio de consolação e a suavidade da poesia.

******

Uma verdade desencarnada e invisível não passa de um vazio.
A verdade de certas pessoas no entanto ressuma dos poros como uma espécie de luz que não se pode ver a olho nu. A verdade só pode ser percebida a coração nu.

******

Riqueza é uma palavra de largo espectro, mas não é ambígua. Sempre que se fala em riqueza, fala-se de alguma coisa estimável, que tem um valor por si mesma. Minha avó, por exemplo, chamava a mim e aos outros três netos suas riquezas. Meu pai achava o Rio uma riqueza e se extasiava diante dos recortes e das montanhas de nossa cidade. Mais tarde tive um chefe, um economista que ficou mais ou menos famoso, que adorava dizer essa palavra. Era como se saboreasse uma trufa de chocolate ou um daqueles doces de casamento que só de lembrar dão água na boca. Mas sempre se referia às riquezas materiais, todas traduzíveis em dinheiro.
Aprendi com meu amor que as riquezas que se consegue obter nesta vida, sejam elas de que tipo forem, devem ser cuidadas com o carinho que se dedica a um presente dado por alguém importante para nós. É o jeito mais bonito e mais doce de fruir as coisas boas sem a cobiça, que desfigura a alegria e enfeia a riqueza, nem aquele apego de dono que deixa as pessoas ranzinzas.

******

Platão foi um estudante de direito que conheci há muitos anos. Platão Fagundes da Silva era o nome todo dele. Tinha uma cara hirsuta, o coração ameno e estava noivo-de-aliança-no-dedo. Na época, isso era um pouco misterioso para mim, porque não conseguia ver claro a diferença entre namoro e noivado, nem por que este estado devia obrigatoriamente preceder o casamento. Platão no entanto definia uma imagem de noivo que era como uma das idéias puras do outro Platão, o da Grécia antiga. Um bom rapaz, a quem devo essa pequena pacificação sobre o que seria o noivado.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A genealogia de Alice - II


Nicoletta. Incerteza.

As pessoas têm uma estranha necessidade de saber de onde vêm. Não foi à toa que a heráldica se desenvolveu, e ainda hoje, longe dos tempos da aristocracia, quando o grosso da humanidade olha com divertido sarcasmo ou até com certa irritação os títulos nobiliárquicos, ninguém fica indiferente ao descobrir o nome de um tetravô ou de um tio-bisavô que nem desconfiava ter. Mais gente do que se imagina se preocupa em pesquisar de onde vieram seus pais e avós, ainda que tenham sido simples balconistas ou ajudantes de obras. Há certo afeto pregresso na maioria das famílias, e o simples fato de carregar algum traço do DNA de alguém torna esse alguém importante para nós, pouco importando o que foi ou fez na vida. E caso o personagem tenha sido um vilão em seu tempo, cria-se uma aura nebulosa ou simplesmente fala-se dele com neutralidade, porque ninguém tem nada com isso.
No caso dos descendentes de Alcebíades, havia um motivo ainda maior para tal curiosidade. O homem estava vivo, e aos noventa e quatro anos, morando numa casa de jardim e quintal plantado de árvores em Areal, era forte como um touro e não dispensava dois copos de vinho por dia. Era ainda, segundo a mulher (quarenta anos mais nova e a terceira conhecida, porque sabia-se vagamente da existência de outras), “um verdadeiro homem”, o que na sua linguagem queria dizer que não broxara.
Havia uma espécie de lenda em torno de um antepassado inglês, morador de Porto Alegre, casado, amante que de uma certa Lucinda Correia, sua doméstica ou pessoa de classe menos dotada, que a teria engravidado e, para não ter que assumir o filho, despachara-a para o Espírito Santo com uma boa quantia para se sustentar até conseguir um emprego. Dizia-se que o filho de Lucinda era Alcebíades, e para testá-lo falavam a toda hora numa Lucinda inventada, e olhavam disfarçadamente sua reação. Alguns chegaram a notar nele movimentos de impaciência ou emoção nunca comprovados. A história, relato muito antigo que um filho do velho jurava ter ouvido ainda criança, fora aceita por todos ou quase.
A história do inglês tomou alento quando um sobrinho chamado Cleto aproveitou uma viagem ao Sul para pesquisar a existência desse pai. No consulado descobriu perto de mil e quinhentas famílias de origem inglesa em Porto Alegre, mais trezentas e setenta e cinco nas imediações e, em todo o estado, quase três mil. Um pouco desanimado, tentou localizar as mais abastadas entre as da capital. Se o pai do velho tivera cacife pra bancar a mulher e o filho bastardo em outro estado, devia ter grana. Conseguiu apenas identificar umas três ou quatro, assim mesmo com grande dificuldade, devido à imprecisão dos dados. Estava prestes a desanimar, quando se lembrou do nome da coitada da mãe, e partiu em busca dos Correia da lista telefônica, o que logo lhe pareceu uma bobagem, porque a tal Lucinda já devia estar morta e enterrada havia décadas e, se era pessoa de poucas posses, completamente esquecida. Além disso, desterrada no Espírito Santo, quem se lembraria mais dela? Nem pensava mais no assunto, quando encontrou por mero acaso uma senhora chamada Lucinda num subúrbio de POA, e por desfastio perguntou-lhe o sobrenome. Era Correia. E o nome era comum em sua família? Ah, sim, a mulher respondeu, animada. Todo mundo se chama Lucinda, na minha família, acrescentou, e logo corrigiu com ar meio escandalizado que só as mulheres, é claro. Estavam os dois numa fila de banco, e ele calculou que uma descendente da tal Lucinda do inglês não devia ter conta em banco. A não ser que... A mulher se voltou de novo para ele e perguntou, curiosa, por que ele queria saber. Ah, ele disse, nada não, é que eu procurava uma conhecida... Sua conhecida? É, quer dizer, uma antepassada... A curiosidade da mulher cresceu e ela sorriu, encantada. Que coincidência! Pois é, uma bisavó... De conversa em conversa, chegaram à conclusão de que uma tia-avó da boa senhora podia bem ser a pessoa em questão. Quer dizer, não chegaram a conclusão nenhuma, mas havia uma possibilidade. Ele então aceitou ser levado a um primo dela e saíram do banco direto para a casa desse primo, Cleto meio preocupado porque teria que viajar naquela noite de volta ao Rio.
O homem o recebeu com muita amabilidade, mas como fosse muito surdo, a conversa levou o dobro do tempo que tomaria normalmente. Chegaram enfim à curiosa conclusão de que, como disse o ancião, Lucinda, sua mãe, tanto podia ser a pessoa procurada como não ser. Se fosse, o tio de dona Lucinda Correia, filho da homônima tia-avó dela, seria um irmão mais novo do tio de Cleto, seu Alcebíades. O homem parecia felicíssimo com a suposição, e seus olhinhos brilhavam no fundo das sobrancelhas grisalhas. Cleto se impacientava. Em vez de solucionar o problema, criara mais um com sua pesquisa de campo. E se atrasava para a viagem. Custou um pouco, mas conseguiu explicar ao bom velhinho que agradecia muito, mas precisava tomar um avião para o Rio dali a duas horas. Despediu-se deixando o endereço para que o bom homem lhe escrevesse sobre a intrincada história da família e levando endereços e telefones que não sabia bem para que serviriam. Deixou sua nova amiga em casa e seguiu para o hotel esbaforido, esquecendo o papel com as anotações sobre a cama. Dois meses depois recebia uma carta breve e bem escrita de dona Lucinda Correia, avisando da morte do tio e lamentando que não tivesse mais dados que pudessem ajudar na busca da tia-avó idem, isto é, Lucinda Correia. Deixava à disposição de Cleto e família seu próprio endereço, para que a procurassem caso pudesse ser de alguma utilidade.
Essa história fez nascer novas suposições no seio da família, que agora acreditava na existência do inglês, embora sem provas conclusivas. Explicavam assim os olhos claros da parentada e satisfaziam certa aspiração a essa origem romântica do velho, que passou a ser olhado com mais atenção e até com mais carinho pelos mais jovens. Ficava mais fácil também entender a suposta briga com a família, nesse caso reduzida a uma mãe solteira. Mas por que teriam brigado, ele em tão tenra idade? Talvez tivesse encontrado maus amigos e se desencaminhado atrás de aventuras, tornando-se um garoto de rua, o que naquele tempo talvez fosse menos horrível que agora. Talvez tivesse sido obrigado a trabalhar para sustentar a mãe doente e desvalida, ou talvez a mãe o tivesse abandonado, coitado, por causa das dificuldades por que passavam. Quem sabe tinha ficado órfão e não tivesse tido escolha senão se virar sozinho, inventando depois uma outra realidade em que aparecesse como garoto precoce, cheio de iniciativa? Era bem a cara dele.
Nada garantia no entanto que o pai tivesse sido o inglês, nem que dona Lucinda Correia fosse mesmo a mãe abandonada. Continuavam na mesma – eram suposições e mais nada.
Alcebíades continuava na dele. Um dos netos chegou a pensar em ir a Vitória à procura de informações mais precisas. Aquele cara não podia ter nascido do nada. Mas por onde havia de começar, se nem do nome original dele tinham certeza? Pensando bem, uma grande bobagem tudo aquilo, que o velho nem merecia. Era um chato, ranzinza e preconceituoso, cheio de manias, ego hipertrofiado.
Estavam as coisas nesse pé, quando um dia chega uma carta de dona Lucinda, a sobrinha-neta da dita cuja, com uma foto da tia-avó. Era um daqueles retratos cor de sépia, e mostrava uma bonita senhora de formas generosas e olhar distante. Tinha um sorriso de Mona Lisa e os cabelos caíam em cachos escuros sobre os ombros que apareciam a meio do decote. Criou-se certo alvoroço na família, reunida no fim de semana em casa do filho mais velho. Engraçado, ele dizia, esse rosto não me é estranho. Combinaram que o melhor a fazer seria levar a foto à casa de Alcebíades e deixá-la sobre um móvel qualquer onde ficasse bem visível. Se aquela fosse mesmo a mãe dele, o velho deixaria transparecer algum tipo de reação.
Na manhã seguinte se reuniram antes da hora do almoço e seguiram para Areal. Entraram dizendo que era uma surpresa, que tinha dado saudade do patriarca da família (Alcebíades adorava ser chamado patriarca da família) e se espalharam na varanda, respirando o ar fresco, enquanto a mulher do velho ia pegar um café. Conversaram um pouco e depois foram até o jardim, enquanto o mais novo deixava a foto de dona Lucinda Correia sobre a mesinha da varanda. Meia hora depois voltavam, mas o velho fez questão de entrar pela cozinha, pedindo mais café à mulher, que não parecia lá muito contente com as visitas. O mais novo deu então um jeito de ir à varanda, esqueci meus óculos, e pôs o retrato na entrada da sala. Mas estavam todos juntos e Alcebíades nem reparou. Então o mais velho não se conteve e pegou a foto como por acaso: olha só o que eu achei, pai, que senhora bonita, não? Alcebíades se voltou distraidamente e olhou a foto. O silêncio era total. Depois de uns segundos de olhar a imagem de várias distâncias e posições, ele perguntou essa não é Alice? Alice era a neta mais velha, que morava nos states com o marido engenheiro e os três filhos. Os quatro se concentraram na foto e um oh apareceu na sala de móveis antigos e desparelhados. Por fim, o pai de Alice concordou – é mesmo, pai, sabe que eu nem tinha reparado?
Olharam para o velho sem saber o que dizer, e o viram tirar os óculos e limpar os olhos. Ela é tão parecida com minha falecida mãe – dizia ele, e os quatro o abraçaram.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A genealogia de Alice - I



Ninguém sabia direito de onde teria vindo o avô paterno de Alice. Isso preocupava a família e instigava todo mundo a fazer pesquisas e mais pesquisas em busca de alguma dica ou dado concreto, mas não havia praticamente de onde partir. Tinha um perfil hebraico, cabelos e olhos ingleses e um gênio de alemão nazista. Havia focos de resistência quanto a algumas hipóteses, mas era preciso ser realista: já que ninguém sabia ao certo e não se encontravam dados confiáveis, tudo podia ser verdade. Africano não devia ser, e assim mesmo nunca se sabe se, dois séculos antes, algum antepassado de olhos azuis não teria pulado a cerca na rede de uma escrava. Até mesmo uma descendência aristocrática, quem sabe? Pouco provável, é verdade, porque em tal caso ele não esconderia nada, faria até questão de alardear o fato, vaidoso do jeito que era. Alcebíades de Castro – assim se chamava o avô de Alice – podia bem ser um mitômano empedernido e não havia como provar o contrário.
O velho tinha contado aos filhos que vivera muitos anos em Vitória, e que lá resolvera, aos catorze anos, mudar de nome. A mulher, a segunda, que não era a mãe dos meninos, nada dizia; ficava olhando a conversa com um jeito indecifrável. Órfãos de mãe desde cedo, não tinham a quem perguntar sobre a família do pai. E parece que no século XIX não seria difícil mudar de nome, já que o registro civil era a própria certidão de nascimento, guardada na correspondente sacristia. O que causava espanto era que um fedelho de catorze anos conseguisse fazer isso sozinho, sem ninguém que lhe desse apoio legal. O avô alegava que seu padrinho lhe dera esse apoio, mas ninguém sabia mais do que ele contava, ou seja, que o padrinho tinha o mesmo nome que ele adotara. Mas por que teria resolvido mudar de nome nessa idade? A história cheirava a impostura, porque, a não ser em casos excepcionais, os adolescentes andam demasiado envolvidos com a tempestade hormonal que os assola, e além disso nessa fase da vida ainda não se perdeu de todo uma casca de inibição e certo desconhecimento das praxes do mundo exterior, de modo que dificilmente um menino dessa idade tomaria atitude tão pragmática e objetivamente definida como mudar de identidade.
Talvez até fosse um velho pagão, quem saberia? Podia estar mentindo quanto ao registro na igreja em que fora batizado, e ele dizia ter desaparecido num incêndio com todos os papéis da época. Mas como o único a conhecer e contar a história de sua vida era ele mesmo, ninguém podia ter certeza de nada. Segundo o próprio Alcebíades, cortara relações com a família e se mudara para a casa do padrinho, do qual adotara o nome. Simples assim. Ninguém aceitou essa versão sem objeções, mas o velho as ignorava solenemente. E como todo mundo temia entrar em confronto com ele, que cutucado muito de perto podia virar uma fera capaz de quebrar metade da casa, os argumentos nasciam e morriam no mesmo pé.
Comentava-se muito a história na ausência dele, e deve ter sido daí que nasceram as hipóteses levantadas pelos descendentes insatisfeitos. Ou porque a imaginação se atiça diante das coisas mal explicadas, ou porque havia indícios mínimos de alguma origem diferente, ou ainda porque pequenos fatos haviam escapado ao próprio Alcebíades, cada um tinha lá sua teoria para explicar de onde teria vindo o obscuro personagem. Ele mesmo não se abalava. O aparente poder de Alcebíades estava no jeito altaneiro com que tratava os demais. Estava sempre – ou fingia estar – inteiramente convencido de que ninguém duvidava dele.
(Continua)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Pensamentos de janela


Foto Alfredo Muñoz de Oliveira.

Estava eu na janela a contemplar os galhos da amendoeira fronteiriça (uia!), quando me veio à cabeça que entre as idéias de estar e ter há nuances quase tão fogosas quanto as conhecidas diferenças entre ser e ter, que já se tornaram meio clichê – o que é mau, desgastante para uma idéia que vale a pena desenrolar de vez em quando.
A gente vive tão massacrada pela filosofia de mercado/lucro que se infiltra em nosso cotidiano, que há quem pense em mudar para as montanhas do Tibet e viver de leite de cabra e frutos silvestres, tecendo a própria túnica e dormindo numa gruta forrada de capim seco. Não seria uma rima nem uma solução, porque estaríamos perdendo os melhores filmes do ano, House e o sorvete de pavê, além dos riscos de faltar repelente de mosquitos e vacina contra veneno de cobra. Quem nasceu pra civilizado ocidental nunca chega a monge budista.
As diferenças entre estar e ter têm a ver com o instante (vide Clarice e o instante-já), única parcela do tempo com que podemos mesmo contar – e que dura... um instante – e o consumo, com todos os envolvimentos que ele supõe e dos quais é impossível fugir. O rolo compressor do mercado ameaça diluir nossos instantes, levando-nos a comprar o que talvez nos fosse inteiramente indiferente sem esse estímulo. O gosto e a criatividade são atingidos pela gosma invasiva da propaganda e pelos imperativos do lucro alheio. É um preço alto demais. Por sua vez, a mídia só colabora com esse estado de coisas, porque também precisa vender seus produtos.
Até a auto-estima está vendida ao mercado, porque só se considera vencedor quem faz dinheiro para si e para quem se dispõe a patrociná-lo. A maior parte da sociedade se marginaliza, escravizada por subempregos, sem falar na parcela dos que buscam afirmação e qualidade de vida na ilegalidade e no crime, nem sempre por falta de recursos, mas por motivos que vão de tendências de caráter a influências negativas do próprio meio.
Já que não dá mesmo pra escapar, é preciso aprender a enfrentar o bicho. Acredito que ajuda um certo descompromisso com os valores vigentes (a maioria deles sugeridos pelas mensagens da propaganda), porque a vida é aqui e agora, e não temos a menor idéia de até quando chegaremos. Não quer dizer desbunde geral, não mesmo. Quer dizer apenas certa autonomia que permita viver mais intensamente o instante-já de que falava Clarice, e que dura o tempo em que a roda em movimento toca o chão. Ir o mais fundo possível naquilo que temos prazer em fazer. Curtir as pessoas importantes, viver o amor de modo pleno, realizar projetos sem comodismo – enfim, ir até onde se puder chegar, tornando a vida uma sucessão de instantes que valha a pena lembrar. O próprio trabalho pode dar muito prazer a quem o faz e gosta do que faz.
Não é preciso ter muito. O essencial é estar bem, estar inteiro no momento em que se vive. Para isso servem o coração e os sentidos, a memória e as mãos, o corpo e o pensamento.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Bons propósitos


Foto Carlos Matos.

O imenso mal de minha vida, motivo de algumas frustrações, mas também de alegrias que só eu conheço, é que não deixo nada pra depois. Se alguma coisa me atiça muito, entro nela e me atolo até o nariz. Obviamente, há coisas que não podem ser tratadas desse jeito. Quase nada pode. Sei bem que para cada coisa que se faz deve haver um tempo de preparação, um tempo necessário em que se ronda, cheira, toma conhecimento do projeto, por mínimo que seja, como uma fera ronda a presa, antes de entrar no assunto propriamente.
Quando se trata de escrever, é absolutamente desastrado sair produzindo dois ou três textos ao mesmo tempo, porque o resultado vai ser o de sempre: você vira autor de dois ou três fragmentos, dos quais pelo menos um vai ficar esfriando na gaveta até ser retomado – e aí será um prato frio, e vai ser preciso um tempo e alguma força de vontade pra não abandonar o que se começou. Mas quem disse que a sensatez habita meu micro? Meu micro é um pequeno caos dividido em diretórios nos quais bem que me esforço para organizar um pouco a sopa de letrinhas de meus arquivos.
Mas se nem nesse domínio estritamente meu consigo estabelecer uma ordem apreciável, que dizer das atividades que não dependem só de mim? Não contando com os afazeres do dia-a-dia e passando ao espaço da agenda, tenho que fazer justiça a essa pobre agenda incompreendida, que só falta falar pra me lembrar das horas marcadas que não anotei e esbaforida lembro na última hora. Justiça seja feita: em geral lembro. Mas às vezes – se o que a agenda registrou é muito apelativo ou importante para mim – lá vou eu remarcar a dentista, minha vítima predileta.
Como estou ficando crescidinha, resolvi recondicionar esse lamentável comportamento, ao menos quanto a meu trabalho. Não interrompo mais um texto nem que chova bala perdida. Se começar, vou até o fim. Palavra de quem nunca foi bandeirante nem muito menos escoteiro. E mesmo que o ano novo esteja longe, escrevo sobre bons propósitos. Deve ser por causa da doce alegria de estar ouvindo, no DR Netradio, My foolish heart, piano e voz de Bill Evans – que, Deus sabe, é um néctar dos deuses para os ouvidos cansados do rock gótico que a adorável adolescente da casa costuma escutar.